Rússia: conter o ânimo dos Estados Unidos na Síria, por Virgílio Arraes

Já não surpreende o globo o intento do presidente Vladimir Pútin de concorrer de novo ao cargo. Com quase década e meia de governo, ainda que de forma interrompida, sua longevidade administrativa ou seu exercício férreo do poder não causa, no entanto, assombro na história russa.

Em decorrência do progressivo desgaste da democracia (neoliberal) em boa parte do planeta, haja vista o Brasil ou os Estados Unidos, por exemplo, a postura do dirigente moscovita também não diferiria muito além das fronteiras de seu extenso país.

Em sendo bonapartista sua política externa, o governante russo tem tido até o momento êxito com ela, malgrado críticas ocidentais de desprestígio dos organismos internacionais como a encanecida Organização das Nações Unidas (ONU).

Isso reforça na avaliação acautelada de Moscou a persistência da rivalidade mundial com Washington, similar à do período da Guerra Fria, embora o grau de poder de ambos seja de maneira comparativa menor que o daquela época.

Há quase dois anos, em discurso na cinquentenária Conferência de Segurança de Munique, o primeiro-ministro Dimitry Medvedev aludiu à acrimônia, ao mencionar o relacionamento do país com o Ocidente e posicionar de modo pessimista a visão do Kremlin sobre a situação global com críticas acerbas lançadas à atuação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou aplicações de sanções econômicas, por causa da recomposição territorial da nação, ao recuperar território perdido no século passado durante a vigência do comunismo – https://www.securityconference.de/en/activities/munich-security-conference/msc-2016/speeches/

Assim, independentemente da referência política – otaniana, europeia ou norte-americana – os russos seriam a principal ameaça, até em função de comporem a segunda potência nuclear. Seria, destarte, a nova Guerra Fria. Irônico, o dirigente perguntaria à plateia se ele estava em 1962 – marco da Crise dos Mísseis de Cuba – ou em 2016.

Desafios impõem-se ao sistema internacional como o terrorismo contemporâneo, alertou o mandatário. Destaque-se, contudo, existir característica distinta, porque já não se limita a transgressão a gestões de forma geográfica como outrora.

Diante disso, evoque-se a legítima aspiração dos bascos, curdos ou irlandeses ao estabelecimento de sua própria nação e do posterior reconhecimento da sua soberania. Assim, seus constantes acometimentos contra as administrações imperiais ou ditatoriais eram considerados por eles como resistência legítima ao ocupante.

Outro aspecto agregado é o alargamento dos alvos dos grupos atuais, em sua maioria integristas: durante a fase bipolar, a atuação – nacionalista basicamente – se restringia a políticos de alto coturno – como o almirante Carrero Blanco, sucessor indicado do ditador Francisco Franco – ou membros das famílias reais – o conde de Mountbatten de Burma, tio afim da rainha Elisabete II – envolvidos com a questão ou em ações de menor porte a policiais ou militares de baixa patente.

Nos últimos tempos, lembrou Medvedev naquela recente ocasião, a investida poderia ocorrer em locais frequentados por cidadãos comuns: um avião civil ou um simples café poderia ser ponto de mira sem dificuldades.

Em decorrência disso, a população em geral encontra-se até certo ponto bastante desassistida, haja vista a incapacidade de proteção dela ao mesmo tempo pelas forças de segurança. Com isso, consegue-se amedrontar a sociedade de maneira diuturna.

Enfim, considerando-se o delineio contemporâneo das principais agremiações terroristas, a atenção do kremlin se voltaria para impedir sua ascensão ao poder, como no caso do Oriente Médio, do norte da África ou do Cáucaso.

Naquela fase, o aparente avanço inexorável do denominado Estado Islâmico assombrava além do Oriente Médio, porque parecia atingir até regiões longínquas como a Europa Ocidental – sem pertencer de modo formal a forças armadas, seus integrantes poderiam chegar a países sem adversidades, ao se passarem por refugiados.

No entanto, o rápido crescimento da entidade terminou por acarretar-lhe desgaste adicional, ao ter de assumir funções de fato governamentais, sem preparar-se para isso – burocracia, infraestrutura, saúde e educação.

Hoje, a Síria, com o prestimoso auxílio da Rússia e sem converter-se à democracia, contém o agrupamento fundamentalista em seu território. Todavia, persiste o interesse dos Estados Unidos em substituir tanto a administração al Assad bem como o regime autoritário.

Como desdobramento, suas forças armadas têm investido contra o governo ditatorial, em nome do apoio à oposição – avaliada pela Casa Branca como – moderada e próxima em termos ideológicos ao Ocidente.

Avariado o poderio das milícias integristas unificadas, Washington anima-se a enfrentar o dirigente Bashar al Assad, com o proposito de pressioná-lo a negociar não a paz tão somente, porém a aguardada transição governamental – frustradas duas vezes em um quarto de século: após o encerramento da Guerra Fria e do da Primavera Árabe.

Fracassados no Afeganistão e no Iraque, os Estados Unidos parecem animar-se na Síria, após o fenecimento da coligação islâmica, graças ao apoio do Irã e principalmente da Rússia nos meses mais recentes.

A avalição preliminar da diplomacia estadunidense decorreria de que a ditadura síria, a despeito da continuidade do auxílio externo, exaure-se do ponto de vista material e político. Assim, não existiria justificativa para retirar-se no momento ou deixar de ajudar os grupos opositores ao baatismo. Sem lá estar, extremistas, iranianos ou até russos poderiam indicar as futuras composições da gestão nacional.

A segunda fase da corrosão do regime sírio seria o retorno gradativo dos milhões de refugiados a seus locais de origem. Não seria possível providenciar em pouco tempo a recuperação mínima da infraestrutura – inexistem mão de obra qualificada à disposição e possibilidade de financiamentos vultosos.

Enquanto porfiam de modo erradio a Casa Branca e o Kremlin ao redor da possibilidade da continuidade da longeva ditadura, as lideranças curdas tentam aproveitar-se disso para estruturar sua almejada nação, a despeito da cerrada oposição de Teerã e de Ancara.

Adversários tradicionais e antigos impérios, ambos enfileiram-se em nome da respectiva preservação territorial em detrimento da aspiração, mesmo justa, de formação do almejado país para os curdos, bastantes divididos no continente asiático.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: conter o ânimo dos Estados Unidos na Síria, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 18/10/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24458>.
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