Changing foreign policy: the Obama Administration’s decision to oust Mubarak – uma entrevista com Maria do Céu Pinto Arena, por André Pini

A gestão de Barack Obama à frente da Casa Branca foi marcada por diversos desafios, tanto de ordem doméstica quanto internacional. As restrições orçamentárias e a forte oposição Republicana certamente tornaram o ambiente em Washington mais hostil, e, no plano global, eventos como a Primavera Árabe redundaram em consequências visíveis ainda hoje, como a perene crise na Síria.

A pesquisadora Maria do Céu Pinto Arena, da Universidade de Minho, em Portugal, analisou a política externa do governo Obama frente às vicissitudes enfrentadas por um aliado histórico, o Egito, ao longo da Primavera Árabe. No artigo Changing foreign policy: the Obama Administration’s decision to oust Mubarak publicado na edição 1/2017 (Volume 60 – N. 1) , publicado na Revista Brasileira de Política Internacional, a autora reflete acerca do grau de inflexão representada pela opção norte-americana de retirar o apoio a Hosni Mubarak. André Mendes Pini, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, conversou com Maria do Céu Pinto Arena sobre temas contemporâneos relacionados a seu artigo.

1) A Primavera Árabe certamente correspondeu a uma série de eventos que dificilmente serão compreendidos em sua totalidade sem um devido distanciamento histórico. No entanto, algumas de suas consequências políticas, econômicas e sociais já podem ser observadas. Nesse sentido, tendo em vista a conjuntura contemporânea, você poderia apontar, de modo geral, os ganhadores e os perdedores?

Os ganhadores da Primavera Árabe foram os regimes autoritários que aumentaram a repressão ou se entricheiraram ainda mais no poder, a começar por Bashar al-Assad na Síria. Os perdedores foram os povos árabes e os cidadãos que se empenharam diretamente nos protestos com anseios – gorados – de mudanças políticas democráticas. O único país que teve uma transição bem sucedida para a democracia foi a Tunísia, mas ainda assim pagando um preço muito elevado, pois tornou-se um alvo prioritário do jihadismo radical.

2) Mesmo antes de sua posse, Barack Obama recebeu um Prêmio Nobel da Paz, suscitando imensas expectativas com relação a mudanças abruptas no padrão de projeção de poder norte-americana. No entanto, sua gestão teve de lidar com diversos desafios com vistas a cumprir uma grande parcela de suas promessas de campanha, além de acontecimentos importantes como a Primavera Árabe. Tendo a gestão Obama chegado ao fim após 8 anos, qual sua avaliação acerca do papel desempenhado pelos EUA no contexto da Primavera Árabe, tendo em vista, por exemplo, a crise na Síria e a ascensão do Estado Islâmico?

No Médio Oriente, Obama teve sempre receio e hesitações: receio de se envolver em demasia, sobretudo a nível militar, como nas contra-insurgências do Afeganistão e no Iraque; hesitação, sobretudo, em relação a uma intervenção militar para estancar a repressão na Síria. É um presidente que vai passar à História com uma reputação negativa pela forma como conduziu a sua política externa no mundo árabe: de forma claudicante e contraditória. Interveio no Líbano, mas não na Síria; quis retrair-se de maiores envolvimentos militares no Médio Oriente, mas aumentou de forma exponencial o uso dos “drones”. Em relação ao ISIS, subestimou o aparecimento desta ameaça que veio depois a ensombrar o seu mandato e a estar na raiz de uma crise política e humanitária dramática na Síria e no Iraque – crise essa que, no caso da Europa, teve repercussões inimagináveis devido ao fluxo de refugiados que fustiga a Europa.

3) Seu artigo analisa de fato a dificuldade em se promover alterações substanciais no âmbito da política externa dos EUA. Com efeito, levando em consideração a eleição de Donald Trump e sua retórica contestadora com relação às práticas políticas tradicionais, você o considera capaz de promover inflexões relevantes nos eixos condutores da política externa norte-americana?

Sim, mas as inflexões podem ser guiadas pela sua falta de conhecimento da realidade política, falta de preparação governativa, falta de conhecimentos das realidades complexas do Médio Oriente e, como no seu caso, ao domínio, no seu imaginário, de ideias feitas e estereotipadas. De imediato, é já visível a sua vontade de reverter o acordo nuclear com o Irão e a promoção de um eixo sunita muito agressivo (exemplo recente: países do Golfo Pérsico versus Qatar).

4) Levando em consideração os eventos da Primavera Árabe, quais agendas de pesquisa você considera que ainda não foram bem exploradas no ambiente acadêmico e que podem pautar o trabalho de jovens pesquisadores interessados no tema?

Uma questão que continua a ser alvo de contínua exploração acadêmica são as dinâmicas de transição política e a natureza autoritária dos regimes do Médio Oriente.

Leia o artigo

Arena, Maria do Céu Pinto. (2017). Changing foreign policy: the Obama Administration’s decision to oust Mubarak. Revista Brasileira de Política Internacional, 60(1), e020. Epub November 21, 2017.https://dx.doi.org/10.1590/0034-7329201700121

Sobre os autores

Maria do Céu Pinto Arena – Universidade do Minho, Departamento de Relações Internacionais e Administração Pública, Braga, Portugal (ceupinto@eeg.uminho.pt).

André Mendes Pini é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB.

Como citar esta entrevista

Mundorama. "Changing foreign policy: the Obama Administration’s decision to oust Mubarak – uma entrevista com Maria do Céu Pinto Arena, por André Pini". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 21/11/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24428>.

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