As limitações da Teoria das RI sobre o meio-ambiente: algumas lições a partir do Antropoceno – uma entrevista com Joana Pereira , por Angélica Szucko

O termo Antropoceno popularizou-se nos anos 2000 com os trabalhos do biólogo Eugene F. Stoermer e do químico, vencedor do prêmio Nobel, Paul Crutzen. O Antropoceno representa a transição para um novo período geológico, no qual as atividades humanas são a maior força transformadora do planeta. Em outras palavras, os seres humanos tornaram-se o grande agente responsável pelas mudanças ambientais globais em uma escala e em uma velocidade sem precedentes. Diante desse cenário, é necessário avaliar como as Relações Internacionais têm incorporado essa temática aos seus estudos.

O artigo The limitations of IR theory regarding the environment: lessons from the Anthropocene,, publicado no número 1/2017 (Volume 60 – N. 1) da Revista Brasileira de Política Internacional, apresenta uma análise sobre o distanciamento da disciplina das questões ambientais, bem como sugere que, ao incorporar o conceito de Antropoceno, as Relações Internacionais poderiam fornecer uma perspectiva mais holística e fortalecer-se em termos ontológicos, epistemológicos e metodológicos. Joana Castro Pereira, professora na Universidade Lusíada, em Portugal, e autora do artigo, concedeu entrevista a Angélica Saraiva Szucko, doutoranda em Relações Internacionais na Universidade de Brasília.

1) De acordo com a pesquisa realizada, o percentual de artigos sobre a temática ambiental nos principais periódicos de Relações Internacionais ainda é muito baixo, em torno de 2,5% entre 2004 e 2014. A existência de revistas voltadas especificamente para publicações a respeito de questões ambientais, a exemplo da Global Environmental Politics, pode, ao circunscrever o debate a estes círculos, reduzir o número de publicações em outras revistas?

De facto, a existência de revistas especializadas poderá contribuir para os reduzidos números apresentados. No entanto, não acredito que tal exerça um impacto significativo. Em 2016, Peter Dauvergne e Jennifer Clapp publicaram, precisamente na conceituada Global Environmental Politics, um artigo dedicado à análise ontológica, epistemológica e metodológica dos trabalhos publicados na revista desde a sua fundação e, entre as várias conclusões apresentadas, uma assume especial relevância para esta questão: de acordo com os autores, a percentagem de contribuições provenientes da Ciência Política e das Relações Internacionais havia caído de 60% em 2003 para menos de 40% em 2011 (veja-se “Researching global environmental politics in the 21st century”, GEP, 16(1), 2016). Estes números parecem corroborar o distanciamento da disciplina relativamente à temática ambiental e indiciam até uma crescente ausência das Relações Internacionais neste domínio. Apesar de não dispormos de dados que nos permitam aferir se essa redução se encontra relacionada com um menor número de submissões ou com um maior número de rejeições dos trabalhos submetidos – ou mesmo com ambos –, a verdade é que a disciplina tem estado mais ausente da revista. Como argumentado no meu artigo, esse facto poderá estar intrinsecamente relacionado com as estruturas disciplinares convencionais das Relações Internacionais – a complexidade e a incerteza que caracterizam as questões de índole ambiental desafiam profundamente as raízes da disciplina, o que poderá traduzir-se não só numa tendência de fuga perante tais questões, como também na sua abordagem limitada e insatisfatória, ou mesmo na sua rejeição enquanto objeto de estudo das Relações Internacionais. Seria interessante aprofundar a análise por mim apresentada, procurando saber, junto dos editores das revistas referenciadas, o número de submissões e rejeições de artigos alusivos à temática ambiental. Quantos foram submetidos? Existirá um número significativo de rejeições? Em caso afirmativo, por que motivo(s)? Estarão as rejeições relacionadas com a qualidade dos artigos ou haverá uma preferência editorial por trabalhos referentes a outras temáticas? Caso essa preferência editorial se verifique, em que revistas têm publicado os académicos das Relações Internacionais especializados na temática ambiental? Sentir-se-ão rejeitados nas principais revistas da área? As respostas a estas e outras perguntas ajudar-nos-ão, certamente, a compreender melhor o distanciamento da disciplina relativamente às questões ambientais.

2) As Relações Internacionais foram concebidas, historicamente, como uma disciplina estadocêntrica e pautada em metodologias positivistas, oriundas, em grande medida, da Ciência Política, conforme evidenciado no artigo. Qual a necessidade de transcender esses limites e estabelecer novos conceitos que sejam capazes tanto de lidar com o fenômeno do Antropoceno, quanto de estabelecer um diálogo entre as Relações Internacionais e outras áreas de estudo?

O Antropoceno desafia não só as Relações Internacionais, mas também as ciências sociais e humanas em geral, as instituições políticas e os métodos convencionais de gestão e preservação ambiental. Vivemos no Antropoceno, mas as nossas teorias, os nossos métodos, as nossas filosofias e estilos de vida, assim como toda a nossa lógica de funcionamento, permanecem ancorados no Holoceno. Aliás, foram essas mesmas teorias, métodos, filosofias e lógicas que nos conduziram às perigosas condições que hoje enfrentamos. Essencialmente, assumimos que o mundo e os seus fenómenos naturais e sociais se regem pelos princípios da estabilidade, da linearidade e da previsibilidade, e que é possível interferir na natureza sem desencadear consequências potencialmente catastróficas e imprevisíveis; assumimos também que a natureza, os seus recursos e todas as espécies não-humanas que habitam a Terra se encontram ao serviço da humanidade – sendo meros instrumentos de satisfação das necessidades humanas, tanto das básicas, como das supérfluas –, como se existisse uma fronteira entre o mundo natural e o mundo social, e como se pudéssemos destrinçar claramente o dano que provocamos à natureza daquele que infligimos a nós próprios. No entanto, o Antropoceno vem demonstrar que teremos de repensar profundamente muitas das nossas convicções. De uma forma muito resumida, e em primeiro lugar, é imperativo reconhecer que os sistemas terrestre e social são altamente complexos, marcados por elevados níveis de incerteza, instabilidade e imprevisibilidade, pelo que a prospetiva e a cenarização deverão assumir um papel de relevo não só na academia, mas também nas instituições que regem as nossas sociedades. Em segundo lugar, é fundamental abandonar o mito da dicotomia entre a natureza e a sociedade, o que implica não só uma intensa colaboração entre as ciências naturais, as ciências sociais e as ciências humanas – essencial para compreender a enorme complexidade do mundo atual e criar respostas adequadas –, como também o abandono do antropocentrismo dominante na academia, na política e na sociedade. Tal implica o reconhecimento de que os atuais padrões de produção e consumo dominantes são os grandes responsáveis pelas perigosas condições geológicas em que nos encontramos e que, por isso mesmo, há escolhas políticas e económicas que não poderemos continuar a ter; implica igualmente a compreensão de que atores humanos, não-humanos e elementos biofísicos se encontram estritamente ligados e interagem entre si, de modo que os eventos globais são o resultado dessa complexa teia de interações; e implica, por último, uma nova abordagem ética que reconheça o valor intrínseco do meio natural e das espécies não-humanas, fundamental para abandonar a instrumentalização da natureza, manter o equilíbrio da Terra e garantir a segurança global. Em terceiro lugar, é importante que as ciências sociais e humanas, e as Relações Internacionais em particular, procurem assumir um papel mais ativo no desenvolvimento de investigações orientadas para a resolução de problemas. As abstrações parecem dominar a disciplina de Relações Internacionais, o que diminui a sua relevância prática. Em suma, os académicos da área deverão repensar as bases ontológicas, epistemológicas e metodológicas da disciplina, atualizando conceitos e práticas, de modo a que estas lhes permitam compreender o mundo atual e contribuir para a resolução dos problemas mais prementes que assolam o planeta. Na verdade, existem, dentro da disciplina, movimentos muito interessantes e criativos favoráveis à transformação das Relações Internacionais enquanto ciência; no entanto, as estruturas convencionais da disciplina prevalecem. Acredito que as Relações Internacionais contêm em si um enorme potencial para abordar o fenómeno do Antropoceno, mas há ainda um longo caminho a percorrer para que esse potencial se concretize.

3) Apesar de posicionar-se dentre de uma postura minoritária, o discurso e a prática de Donald Trump não poderiam contribuir para o isolamento da abordagem de questões ambientais dentro da produção teórica mainstream nas Relações Internacionais? Ao mesmo tempo, o posicionamento do presidente norte-americano não poderia servir como um fator motivador para que perspectivas mais críticas e reflexivistas procurem disseminar a discussão para o grande público, refém de uma guerra de informações?

Sim, o discurso de Donald Trump poderá ter efeitos contraditórios, contribuindo, por um lado – e apesar de as evidências científicas serem muito claras relativamente ao caráter antropogénico das profundas mudanças ambientais em curso –, para inflamar a “confusão” em torno das causas e consequências da crise ambiental, fortalecendo os céticos e criando uma maior inércia entre aqueles que, apesar de reconhecerem a existência do problema, permanecem na dúvida quanto à sua verdadeira dimensão, e, por outro, motivar uma proliferação de perspetivas mais críticas, que procurem contrariar o atual discurso oficial estado-unidense e traçar novos caminhos para o futuro (veja-se, por exemplo, a reação de várias cidades ao anúncio da saída dos EUA do Acordo Climático de Paris). No entanto, o surgimento de verdadeiras alternativas, que desafiem a lógica política e económica dominante, não se vislumbra ainda no horizonte. Regressando ao artigo supramencionado, da autoria de Peter Dauvergne e Jennifer Clapp, os trabalhos publicados na Global Environmental Politics parecem revelar-se pouco tendentes à adoção de perspetivas críticas, o que poderá significar que os académicos dedicados ao estudo das questões ambientais globais não têm procurado desafiar o atual paradigma de desenvolvimento. Poderá a posição do presidente Trump alterar esta realidade, motivando o despertar de um movimento académico alicerçado no ativismo e numa nova ética ambiental? Gostaria de acreditar que sim, mas penso que existem ainda muitos obstáculos a ultrapassar.

4) Considerando sua análise sobre a produção acadêmica em Relações Internacionais na temática ambiental, quais agendas de pesquisa poderiam ser aprofundadas por novos pesquisadores para consolidação dessa área?

Numa área tão ampla, complexa e determinante para o futuro da humanidade e do planeta, existem inúmeras questões que necessitam de ser abordadas e desenvolvidas, entre elas: o crescente papel das cidades na governação ambiental global; os potenciais riscos ambientais catastróficos associados à transgressão de tipping points no sistema terrestre (ex.: mudança climática, integridade da biosfera, ciclo hidrológico global), bem a prevenção e gestão de catástrofes globais; a governação de uma não desejável mas hipotética implementação da injeção de aerossóis na estratosfera para lidar com o problema do aquecimento global (técnica vulgarmente designada apenas por geoengenharia – erradamente, pois esta abrange muitas outras opções e técnicas, com objetivos e riscos distintos, que deverão ser também analisadas e estudadas individualmente); a conservação da biodiversidade e a relação entre humanos e não-humanos; entre muitas outras.

Leia o artigo

Pereira, Joana Castro. (2017). The limitations of ir theory regarding the environment: lessons from the anthropocene. Revista Brasileira de Política Internacional, 60(1), e018. Epub October 23, 2017.https://dx.doi.org/10.1590/0034-73292017001019

Sobre as autoras

Joana Castro Pereira – Universidade Lusíada, Faculdade de Direito, Porto, Portugal (mail@joanacastropereira.com).

Angélica Saraiva Szucko, doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

Como citar esta entrevista

Mundorama. "As limitações da Teoria das RI sobre o meio-ambiente: algumas lições a partir do Antropoceno – uma entrevista com Joana Pereira , por Angélica Szucko". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 11/12/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24406>.

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