A força do neoconservadorismo: há uma Doutrina Trump?, por Gustavo Dall’Agnol

Tema recorrente nas análises de relações internacionais, o papel do líder – suas ações e discursos – gera acalorados debates. Os menores passos do referido chefe de Estado estão sempre no centro dos holofotes e na capa dos principais jornais do mundo. O que se propõe, aqui, é que na investigação do processo de decisão em política externa e relações internacionais, se vá além dos eventos do tempo curto, do jornalístico, e se busque desvendar as camadas mais profundas das estruturas, da longa duração, aquilo que Fernand Braudel chamou de “tempo dos sábios”. Quando se investiga eventos no jogo de disputa por poder e riqueza, concomitantemente com os processos de maior duração, há de se perguntar: “Cui Bono” (bom para quem)? Dessa simples pergunta, pode-se conjecturar qual será a linha do argumento a ser discutido a seguir. Entende-se que Donald Trump e seu governo não são alienígenas na estrutura de poder e riqueza norte-americanas, mas são produto de um establishment há muito tempo consolidado naquele país. Dessa forma, a sua política externa, bem como sua condução econômica interna, não é tão volátil ou imprevisível como jornais e alguns think tanks alarmam.

Para responder se, de fato, há uma “Doutrina Trump”, desse modo, é necessário ir além das declarações de um homem, no mínimo excêntrico, e analisar os principais grupos de interesse que sustentam seu governo. Alguns documentos são cruciais para tal empreitada, a começar pela Plataforma do Partido Republicano (PPR), publicado na convenção nacional do partido antes da confirmação da vitória de Donald Trump nas primárias. No documento supracitado estão delineadas as principais pautas e prescrições encontradas na política externa de Donald Trump. A plataforma traça uma conjuntura que remete ao início dos anos 1980, argumentando que os Estados Unidos estão enfraquecidos diante do fortalecimento de seus inimigos e que haviam [os Estados Unidos] voltado aos “dias de poder irrelevante de Jimmy Carter” (PPR, 2016, p. 41) devido à negligência dos governos democratas. Dessa forma, os republicanos se comprometem em “reestabelecer o poder bélico norte-americano como o maior do mundo, com vasta superioridade sobre qualquer outra nação ou grupo de nações do mundo” (PPR, 2016, p. 41). A conjuntura internacional é descrita, ainda, como iminentemente perigosa em que a Rússia e a China avançam seus interesses, grupos terroristas desestabilizam o Oriente Médio e ameaçam o Ocidente, Estados párias (rogue states), especialmente Irã e Coréia do Norte, desequilibram as regiões e infligem a ameaça de um ataque nuclear iminente.

Mais elucidativa é a parte prescritiva do documento. Em outra referência aos anos 1980, os republicanos advogam uma resposta conforme a de Ronald Reagan, ou seja, “peace through strength”, um dos quatro pilares formulados na National Security Strategy (NSS) de Donald Trump, publicada em dezembro de 2017. O aumento dos gastos militares e, em especial, a retomada da Ballistic Missile Defense (BMD) são dados como prioridades para atingir a paz através da força. Outras assertivas, como o excepcionalismo norte-americano e o “novo século americano”, também não são novidades. Em termos mais concretos, o documento advoga a saída do acordo nuclear com o Irã e o apoio inequívoco a Israel: “Nós reconhecemos Jerusalém como a eterna e indivisível capital do Estado Judeu e defendemos que a embaixada norte-americana seja transferida para lá em cumprimento com a lei dos Estados Unidos” (PPR, 2016, p. 47). A plataforma defende o rearmamento do Japão e da Coréia do Sul, com a inclusão de sistemas BMD nos mesmos, devido à ameaça nuclear norte-coreana. Digno de nota, também, é a reprovação do reestabelecimento das relações com Cuba mencionada pelo Partido. Em suma, as 66 páginas do documento são uma espécie de previsão do que viria a ser o primeiro ano do governo de Donald Trump.

A condução do governo Trump, de acordo com as prerrogativas da Plataforma, não se trata somente de filiação ao Partido, mas do triunfo de um projeto mais antigo no qual segmentos importantes da elite dos Estados Unidos buscam consolidar um ciclo virtuoso de acumulação de poder e riqueza. Com isso, Trump é uma manifestação da coesão entre o capital financeiro, o complexo-industrial militar e think tanks que ascenderam ao poder com sucesso nos anos Reagan e consolidaram o neoconservadorismo como importante força política no cenário estadunidense. O neoconservadorismo tem como principais pilares o nacionalismo em forma da crença na grandeza e superioridade dos Estados Unidos, o unilateralismo, o internacionalismo não institucional (intervencionismo), o militarismo e a defesa da livre iniciativa privada (TEIXEIRA, 2010, p. 53-74) e apresenta como principais expoentes intelectuais Robert Kagen e William Kristol. Trata-se, portanto, da fusão entre uma espécie de keynesianismo militarista e neoliberalismo, o que, na prática, significou a transferência dos recursos sociais para o setor militar nos anos 1980. Muito embora, na retórica, Donald Trump tenha defendido o que analistas chamaram de um “novo isolacionismo”, as suas ações em política externa, política econômica e sua recente NSS, expressam uma adesão clara ao neoconservadorismo. Como apontado por Melvyn P. Leffer, na Foreign Affairs, a NSS de Trump está longe de ser isolacionista, propondo engajamento para todas as regiões do mundo (LEFFER, 2017). Cumpre-se destacar, ainda, que o neoconservadorismo perdeu influência na agenda política com o fim da Guerra-Fria, período em que se tornou patente a identificação de novos inimigos para promover a agenda militarista e patriótica do país.

É, pois, exatamente na identificação de um mundo hostil, hobbesiano, que o pilar “Peace Through Strength” do NSS de Trump inicia sua análise do sistema internacional: “a continuidade central na história é a disputa pelo poder. A atualidade não é diferente (NSS, 2017. p. 25). Assim como Reagan afirmou que a União Soviética estava ultrapassando as capacidades dos Estados Unidos devido ao descaso dos democratas e, em especial, Jimmy Carter, o NSS de Trump traça um cenário no qual os Estados Unidos perderam sua vantagem no mundo pós-Guerra Fria devido a negligencia dos governos anteriores e, em especial, os de Barack Obama. O documento aponta três fontes de ameaças: os poderes revisionistas, a saber, a China e a Rússia, os Estados páreas (Irã e Coréia do Norte) e organizações internacionais terroristas. Em termos prescritivos, o documento não destoa da Plataforma do Partido substancialmente, muito embora prescreva prioridades para uma imensa gama de temas e países do mundo, o que levou a analista Rebecca Lisner a qualificar o documento como “um exercício de retórica, caracterizado por ambições grandiosas e uma longa lista de prioridades” (LISNER, 2017). No entanto, o que fica claro no documento é a adesão aos princípios neoconservadores e a ruptura com a retórica multilateralista de Obama. Para Leffer, o documento espelhou o pensamento de Dick Cheney (ex vice-presidente) e Paul Wolwowitz (conselheiro de George W. Bush). Diante disso, o alinhamento do governo ao neoconservadorismo pode ser percebido, também, através do apoio da Heritage Foundation, influente think tank conservador, ao governo.

No intuito de identificar as bases do governo Trump de maneira mais concreta, retorna-se à pergunta: Cui Bono? Argumenta-se, aqui, que o projeto de governo necessita de uma base material sólida, para além do apoio popular, a fim de se sustentar. A começar pelo setor militar, Trump solicitou ao Congresso um orçamento de $700 bilhões a ser gasto em defesa no ano de 2018. O militarismo dos neoconservadores beneficia, primeiramente, aos conglomerados militares, como a Huntington Ingalls, Lockheed Martin, Northrop Grumman e Boeing, que poderão fabricar para o governo, respectivamente, submarinos, mísseis lançados de submarinos, bombardeadores e navios cargueiros (THOPSON, 2016). Outras indústrias expressivas, como as de petróleo, carvão, construção, farmacêutica e o setor financeiro fazem parte da base de apoio de Donald Trump devido ao relaxamento do governo nas regulamentações ambientais e fiscais (HEATH, 2016).

Ao se aprofundar na análise dos componentes do processo decisório de um governo, levando-se em conta think tanks, lobbies, empresas, partido e diretrizes históricas, percebe-se que a política de Trump não é tão volátil quanto se afirma. Até o momento, não há uma ruptura real entre a política externa de Trump e o neoconservadorismo da década de 1980, nem com as estruturas materiais e ideológicas representadas pelo Partido Republicano e as organizações que o cercam. O que se argumenta aqui, é que a única mudança está na forma e conteúdo de suas declarações como chefe de Estado. Não há, até então, uma “Doutrina Trump”. Pode haver, talvez, uma “Doutrina Reagan” ou uma “Doutrina Neoconservadora”. Feita essa brevíssima análise, sugere-se que se vá além do discurso e dos acordos diplomáticos para compreender o processo de decisão em relações internacionais.

Referências

HEATH, Thomas. How a Trump presidency will affect 15 industries. The Washington Post: novembro de 2016. Disponível em: file:///C:/Users/natid/Desktop/gustavo_provisorio/How%20a%20Trump%20presidency%20will%20affect%2015%20industries%20-%20The%20Washington%20Post.pdf. Acesso em: 23 de dezembro de 2017.

LEFFLER, M. P. Trump’s Delusional National Security Strategy. Foreign Affairs: dezembro de 2017. Disponível em: https://www.foreignaffairs.com/articles/2017-12-21/trumps-delusional-national-security-strategy Acesso em: 24 de dezembro de 2017.

LISSNER, Rebecca Friedman. The National Security Strategy Is Not a Strategy. Foreign Affairs: dezembro de 2017. Disponível em: https://www.foreignaffairs.com/articles/united-states/2017-12-19/national-security-strategy-not-strategy. Acesso em: 24 de dezembro de 2017.

Republican National Committie. Republican Party Platform 2016. Disponível em: https://prod-cdn-static.gop.com/media/documents/DRAFT_12_FINAL[1]-ben_1468872234.pdf. Acesso em: 22 de dezembro de 2017.

TEIXEIRA, Carlos Gustavo Poggio. O Pensamento Neoconservador em Política Externa nos Estados Unidos. São Paulo: Editora UNESP, 2010.

U.S White House. National Security Strategy. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2017/12/NSS-Final-12-18-2017-0905.pdf. Acesso em: 22 de dezembro de 2017.

THOMPSON, Loren. For The Defense Industry, Trump’s Win Means Happy Days Are Here Again – . Forbes: novembro de 2016 Disponível em: https://www.forbes.com/sites/lorenthompson/2016/11/09/for-the-defense-industry-trumps-win-means-happy-days-are-here-again/#57161c80b3c5. Acesso em: 23 de dezembro de 2017.

Sobre o autor

Gustavo Dall’Agnol é Mestre em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Janeiro – UFRJ.

Como citar este artigo

Mundorama. "A força do neoconservadorismo: há uma Doutrina Trump?, por Gustavo Dall’Agnol". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 20/06/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24359>.

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