Rússia: a arriscada celebração da vitória, por Virgílio Arraes

O encerramento da Guerra Fria na transição dos anos oitenta para os noventa não assinalou o encaminhamento da estabilidade para o Oriente Médio e adjacências. De quando em quando, um país sobressai com séria crise política ou econômica com efeitos a espraiarem-se além da região por causa do significado religioso – ascenso ou descenso geográfico de xiitas ou sunitas – ou do impacto da cotação de produtos como o petróleo essencialmente.

A chamada Primavera Árabe parecia ser para uns a redenção da movimentação neoconservadora do início do milênio, ao tempo da desastrada Segunda Guerra do Golfo. Se a imposição da democracia (formal) pelos Estados Unidos havia falhado, a sua reivindicação pela própria população local poderia prosperar.

Desta guisa, ditaduras longevas de fato tombaram, porém sua substituição não se materializou em novo modo de regime para as sociedades, contudo em nomes diferentes como no Egito ou em conflitos ascendentes como na Síria, onde a Rússia aferiu interesses seus e destarte resolveria incorporar-se a ele, e na Líbia, imersa em desordem.

Há dias, o desregrado presidente Donald Trump – com o propósito parcial de desviar a atenção da questão do inopinado governo da Coreia do Norte, relacionada, por seu turno, com a afirmação do poderio nuclear do esfaimado país – anunciou o reconhecimento de Jerusalém como a capital israelense em detrimento da aspiração palestina de dividi-la em duas sedes.

Em disputa de solo sírio e iraquiano ao menos há anos, irrompeu inesperada vertente integrista, o Estado Islâmico, contraposta ou à ditadura local – a quase cinquentenária baatista – ou à recém-instalada democracia oficial, de tom ocidental.

De formação pouco esclarecida até o momento, porque seu relacionamento com governos ocidentais e em especial com os árabes ainda não foi traçado de maneira abrangente, suas milícias chegaram a conquistar somas consideráveis de terras nos combalidos dois países.

No entanto, a administração cotidiana demonstrou os limites da agremiação fundamentalista, haja vista os inúmeros problemas de infraestrutura, saúde e educação, por exemplo, e possibilitou a reação dos governantes, apoiados também por mandatários de distintos continentes.

Na primeira confrontação citada, a de Damasco, a despeito do desgaste da gestão autoritária e, por conseguinte, da avaliação negativa dos meios de comunicação norte-atlânticos, ela pôde sobreviver, graças ao auxílio advindo de Moscou, a datar do final de 2015, e de Teerã, mesmo em patamar mais modesto. Naquele período, a força aérea russa fez suas incursões contra os adversários do ditador a Bashar al Assad.

De modo bastante recente, o presidente Vladimir Putin circulou naquele torrão, ao visitar Síria, sua primeira presença desde o despontar da guerra civil, Egito, um dos aliados mais fiéis dos Estados Unidos desde o final dos anos setenta, e Turquia, esta bem interessada no desfecho político daquela disputa por conta da inquietante questão curda.

Na base aérea de que desfrutará por meio século a Rússia em território siríaco, o dirigente, sôfrego pelo quarto mandato à frente do Kremlin em 2018, comunicou pela terceira vez desde março de 2016 a retirada das tropas, em decorrência desta sorte da derrota definitiva, como proclamado, dos radicais religiosos.

Tal vitória, mesmo superestimada no momento, reforça o nacionalismo russo. Com ele, espraiam-se ventos antiamericanos – há pouco tempo, a Câmara dos Deputados repudiou a Voz da América e a Rádio Liberdade. Para uns, a medida é apenas uma resposta à posição estadunidense de retirar as credenciais de trabalho da Russia Today (RT) no Capitólio por suspeita de intromissão em assuntos daquele país.

Entrementes, alertou o dirigente moscovita aos militares na cerimônia de agradecimento: os efetivos russos continuariam atentos às andanças dos ferrenhos opositores do baatismo – denominados de maneira geral de terroristas. O número de baixas mal alcança, segundo as estatísticas oficiais, cinquenta combatentes, alguns dos quais de unidades de elite.

A euforia corrente de Moscou aproxima-se da de Washington, embora a atuação externa daquele tenha estado em proporção maior em termos de tempo, porém menor em intensidade militar até o momento.

Os Estados Unidos superaram o trauma do Vietnã em três escalas: Granada, 1984, Panamá, 1989, e, por último, Iraque, 1991. De menos de dez mil militares a cerca de setecentos mil em poucos anos. A Rússia, o do Afeganistão em duas oportunidades: Chechênia, 1994, com dificuldades superadas no desdobrar da peleja, e Síria, 2015.

O êxito momentâneo russo decorre em parte do comportamento norte-americano por ter desestimulado, mesmo de forma involuntária, a participação de outros países com o fito de se chegar à paz – por outro lado, as negociações de paz em 2014 na Suíça teriam contribuído pouco à solução do conflito, de acordo com a oposição moderada – ou seja, a apoiada pelo Ocidente – devido à intransigência do governo al Assad. Com os republicanos na Casa Branca, a prioridade naquela região direcionou-se ao poderio do Irã.

Caso se confirme o enfraquecimento definitivo do Estado Islâmico, dado que há resistência (esparsa) nos subúrbios da capital síria, novos desafios virão à tona para a ditadura baatista no curto prazo: o primeiro é a reconstrução do país. Hoje, não existe quase infraestrutura e a população vive em fase famélica.

Encerrada a fase de combates mais incisivos, contará a Síria com o auxílio da Rússia e do Irã para a reedificação nacional? Os gastos militares do Kremlin com a confrontação não são divulgados. Depois de dois anos de queda do produto interno bruto, o país aparenta ter para 2017 recuperação modesta – algo em torno de 1,5 por cento. Os Estados Unidos gostariam que a Organização das Nações Unidas participasse dos debates pós-guerra; com isso, outros investidores poderiam apresentar-se para colaborar.

O segundo é o status futuro dos curdos, localizados em sua maioria no nordeste do território sírio. A despeito da simpatia de Washington à autonomia deste povo, divididos ainda em vários países, Damasco não concordará com isto, a não ser que Moscou – e, em menor escala, Teerã – a pressione em nome da estabilidade política duradoura.

O derradeiro tópico vincula-se aos refugiados, cujo número é estimado em milhões. Como será o processo de renconciliação nacional, em especial nas pequenas cidades, entre os diversos segmentos em luta nos últimos anos?

Nas considerações do Kremlin, Assad será candidato a sua própria sucessão em 2021. Assim, não ocorrerá debate sobre transição de regime ou nem sequer de nomes para a presidência, malgrado a discordância eventual da União Europeia e dos Estados Unidos, incapazes de propor alternativas exequiveis.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: a arriscada celebração da vitória, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 19/01/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24340>.

 

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