As bases do nacionalismo catalão, por Carolina de Lima

As diferenças entre Catalunha e Espanha datam de desde antes da formação do Estado espanhol como conhecido hoje. Essa relação tem início na formação da Espanha, quando o governo central era conhecido como Castela. O sentimento de não pertencimento à ideia de Espanha por parte catalã já existia, o que incentivou sua elite a tentar se anexar ao que hoje é o Estado francês.

A primeira grande disputa entre o que seria o centralismo espanhol e a Catalunha é chamada de Guerra Carlista, no século XVIII. A guerra dividiu o país em duas frentes, uma liderada por Castela e a outra pela Catalunha: enquanto a Catalunha, juntamente com a região de Aragão defendia a formação de um Estado federativo, Castela, que ao final sagrou-se vitoriosa, era pela manutenção do centralismo monárquico e a imposição de seu modelo agrário, frente à economia costeira mais dinâmica.

Além dos embates políticos, a questão econômica também foi causa de disputas. Enquanto a Catalunha passava por um processo de industrialização, pequenas propriedades agrárias e dinamismo econômico, a região de Castela mantinha sua economia baseada na agricultura latifundiária. O problema que surge do desentendimento quanto à política castelhana é que além de manter a economia baseada no modelo agrário-exportador e do grande latifúndio (que só mudou apenas em meados do século XX), também não proporcionava qualquer tipo de incentivo às regiões que haviam dinamizado sua agricultura, como a Catalunha e o País Basco.

Logo, a Espanha do século XIX pode ser entendida como uma rede mal integrada de regiões de características e aspirações diferentes que não contou com a presença de uma máquina de Estado forte o bastante para conseguir lidar com tais diferenças criar uma unidade. A formação do Estado espanhol, portanto, não foi consequência de um sentimento integralista, mas sim um processo de adaptação às burocracias impostas por Castela para lidar com os inúmeros problemas que apareciam à sociedade espanhola desde sua formação.

As divergências entre a distribuição do poder econômico entre as regiões e a questão do poder político impulsionaram a formação de sentimentos de cunho nacionalista tanto central quanto periféricos, todos de características excludentes. Enquanto os nacionalismos basco e catalão que se formavam buscavam a independência das amarras políticas e econômicas vindas de Madrid, o nacionalismo central se voltava às bases religiosas, buscando a identificação no catolicismo como fator de união entre os diversos grupos pertencentes à Espanha.

Os nacionalismos foram resultados de longos processos históricos de consolidação da própria identidade, da integração e da estruturação regionais. Seu fundamento último foi a existência em certas regiões de elementos históricos, lingüísticos, étnicos e institucionais diferenciados. Na Catalunha, a língua e a história; no País Basco, a língua e os Fueros. Em ambas as regiões – as de maiores características nacionalistas – existia já no século XIX uma consciência de diferenciação; a partir daí, realidades como a Renaixença catalã, o carlismo e o fuerismo basco, a tradição federalista catalã, a proliferação de estudos lingüísticos, gramaticais e históricos em ambas as regiões, a publicação continuada da impressa em catalão desde 1870, a abundância de expressões culturais locais nas regiões, etc. Na Catalunha, uma particularidade catalã com amplas raízes populares existia antes que o catalanismo político aparecesse (FUSI apud TUSELL, ESPINOSA Y PARDO, 1996, p. 336, tradução nossa)FOOTNOTE: Footnote.

Apesar de o catalanismo existir desde antes da formação do Estado espanhol pode-se dizer, entretanto, que o nacionalismo catalão é fruto de um movimento de intelectuais da região do final do século XVIII, conhecido como a Renaixença.

A Renascença determina o ambiente no qual nasceu o nacionalismo catalão. As nações políticas têm sido, antes de tudo, nações culturais e a Catalunha conseguiu no decorrer do século XIX que a língua própria, a única língua popular, se transformasse em uma língua literária moderna (BALCELLS, 2003, p. 46, tradução nossa)FOOTNOTE: Footnote.

Dessa forma, a transformação da até então língua popular catalã em uma língua culta desempenhou o papel de símbolo principal da identidade coletiva da Catalunha. Ao transformar a língua popular em literária foi possível também a formalização da cultura catalã, que até então não tinha nenhuma forma de representação formal. A partir desse momento, nasce o povo catalão no sentido de povo pertencendo a uma nação, sendo nação “a coletividade de pessoas que têm a mesma origem étnica e, em geral, falam a mesma língua e possuem uma tradição comum” (HOBSBAWM, 1990, p. 28).

O projeto do nacionalismo catalão tinha como objetivo a plena catalanização da região, leia-se a extensão da língua para todos os âmbitos da vida social (da educação, aos meios de comunicação, à esfera pública e judicial), fomentando a cultura catalã como única. Assim, foi incorporada à consciência catalã os ideais de autonomia, unidade nacional catalã e a dedicação à busca de maior projeção dentro do Estado espanhol. Graças a tais aspirações, a Catalunha se transformou no maior problema do início do século para a Espanha, a começar pela tentativa de formação da região autônoma a partir de 1914, que foi lograda em 1932 durante o período da Segunda Republica.

Desde a Renaxeinça o sentimento da catalanismo se transformou na região. De origem conservadora e burguesa, porém republicana, até os dias de associação com o ideal anarquista durante a Guerra Civil, o ideal no sentimento de nacionalismo catalão passou por diversas transformações. Durante a ditadura de Franco essas mudanças foram de essencial importância na luta contra o regime que tentou impor à Espanha o nacionalismo de bases católicas, assim como tentado por Castela quando da formação do Estado espanhol.

A formação do nacionalismo catalão colocou a prova a ideia de que “para todos os espanhóis Espanha é um Estado, para uma maioria é Estado e Nação e para importantes minorias é Estado, mas não Nação” (TUSSEL, 1996, p. 355, tradução nossa)FOOTNOTE: Footnote. Isso demonstra a peculiaridade do Estado espanhol, o qual é formado por nacionalidades históricas, diferentes graus de regionalismo e que passou por períodos conturbados de tentativas de unificação. A atual tentativa de declaração de independência da Catalunha é apenas o capítulo mais recente de uma história de um Estado composto de diversas nações.

Referências

 

BALCELLS, Albert. Breve Historia del Nacionalismo Catalán. Madrid: Alianza Editorial, 2004.

CORTÁZAR, Fernando García de & VESGA, José Manuel González. História de Espanha: uma breve história. Lisboa: Editorial Presença, 1997.

FUSI, Juan Pablo. Espanã, Nacionalidades, Regiones. In: TUSSEL, R.; ESPINOSA, E. Lamo de & PARDO, R. (eds). Entre dos Siglos. Reflexiones sobre la democracia española. Madrid: Alianza Editorial, 1996

DÍAZ, Victor Pérez. La Primacía de la Sociedad Civil. El proceso de formación de la España democrática. Madrid: Alianza Editorial, 1993.

HOBSBAWM, Eric. Nações e Nacionalismos. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

TUSSEL, Javier. ¿Hay un problema catalán? ¿Existe el problema de España?. In: TUSSEL, R.; ESPINOSA, E. Lamo de & PARDO, R. (eds). Entre dos Siglos. Reflexiones sobre la democracia española. Madrid: Alianza Editorial, 1996.

Sobre a autora

Carolina Condé de Lima é Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGRI UFSC).

Como citar este artigo

Mundorama. "As bases do nacionalismo catalão, por Carolina de Lima". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 19/01/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24322>.
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