The South American Defense Council: the building of a community of practice for regional defense – uma entrevista com Marina Vitelli, por Guilherme Frizzera

Desde a criação do Conselho de Defesa Sul-Americano da UNASUL (CDS), um dos objetivos buscados oficialmente pela organização é a criação de uma identidade comum de defesa. Este audacioso objetivo vem suscitando questões como, por exemplo, se a América do Sul caminha para se tornar uma comunidade de segurança. Porém, ao mesmo tempo em que estas iniciativas são estimuladas, os avanços nessa área são modestos, questionando se a região poderia ser classificada como uma comunidade de segurança ou se ela se encontraria em um estágio anterior, isto é, uma comunidade de práticas.

A América do Sul como uma comunidade segurança ou de prática, com os avanços e os desafios institucionais ainda a serem superados são analisados no artigo The South American Defense Council: the building of a community of practice for regional defense, publicado na edição especial International Security and Defense – Taking stock of Brazil’s changes (Volume 60 – N. 2, 2017) da Revista Brasileira de Política Internacional. A pesquisadora da UNESP Marina Gisela Vitelli, autora do artigo, concedeu uma entrevista para Guilherme Frizzera, doutorando em Relações Internacionais na Universidade de Brasília.

A iniciativa da América do Sul de criar uma organização voltada exclusivamente para assuntos de defesa irá completar uma década de existência em 2018. Seus objetivos audaciosos como, por exemplo, criar uma identidade comum de defesa, não foi bem detalhada nos documentos oficiais, mas sempre referenciada e destacada nos discursos oficiais. Além de promover um constante canal de diálogo e de encontros entre os membros da instituição, quais outros avanços poderiam ser atribuídos a organização?

Um claro avanço foi a criação de dois organismos dedicados à formulação de pensamento estratégico próprio – o Centro de Estudos Estratégicos de Defesa – e de difusão educativa desses e outras temáticas – a Escola Sul-Americana de Defesa. Ambos representam uma inovação do CDS: ele surgiu como manifestação da resistência de alguns países – principalmente Argentina e Brasil – à doutrina das novas ameaças e o corolário de re-funcionalização das forças armadas para o combate ao crime organizado. A interpretação foi de que, enquanto abria-se mão da formulação autônoma do conceito estratégico, tal perspectiva respondia mais aos interesses extra regionais do que aos próprios. Certamente, tratou-se da visão de certas lideranças políticas, a qual enfrentou a oposição de setores domésticos contrários à ela, assim como de países que foram sempre reticentes. Como consequência, essa vitória hoje se apresenta em vias de desaparecer da agenda.

A literatura sobre comunidades de segurança atribui a existência de uma confiança mútua e de que as soluções das controvérsias serão resolvidas de forma pacífica pelos seus membros. No entanto, a criação de uma organização poderia ser o reflexo da combinação desses dois fatores e não a promotora deles. Quais seriam os benefícios pela opção em se criar uma organização para promoção destes dois fatores?

Neste quesito, a literatura sobre comunidades de segurança recupera os ensinamentos dos estudos sobre integração regional e o institucionalismo: os organismos internacionais de cooperação institucionalizam rotinas de interação regular entre burocracias estatais – inclusive de diferentes níveis de governo, e até não governamentais – que garantem instâncias de encontro cara a cara, criação de canais estáveis de gerenciamento dos conflitos de opinião ou interesse, a conservação da memória das interações, facilitando o surgimento de interações padronizadas, e, portant,o menos idiossincráticas e menos dependentes da vontade política dos grupos que vão exercendo o governo. Trata-se, porém, de um raciocínio baseado em pressupostos liberais que nem sempre existem nos casos sul-americanos, motivo pelo qual é necessária certa cautela na reprodução das análises em contextos diferentes.

A América do Sul passa por um momento conturbado em relação aos seus membros. A Venezuela se vê questionada sobre sua situação política interna, sendo suspensa de organizações como o MERCOSUL e, também como consequência, se vê a crescente onda de refugiados. A Colômbia passa por um período transitório entre a assinatura de um tratado de paz com as FARC, o sucesso de sua implementação e a superação da desconfiança por parte da população. A grave crise política causada pela corrupção no Brasil já ultrapassou suas fronteiras, atingindo alguns de seus países vizinhos e alguns projetos desenvolvidos na área de defesa. Por fim, até a própria UNASUL passa por um período conturbado, não tendo, no momento, um secretário-geral. Esse cenário poderia trazer quais consequências para o Conselho de Defesa Sul-Americano?

Certamente, o CDS já sente os reflexos do cenário de mudanças e conflitos que acontecem na região. Em 2016, o CDS realizou o menor número de atividades desde sua criação, destacando-se apenas os avanços firmes realizados pela ESUDE. A ausência de liderança brasileira – com uma política externa muito mais tímida daquela que impulsionou a criação da UNASUL – exerce um fator simbólico de paralisia. Mais relevante ainda, um dos países que mais trabalhou pelo CDS – Argentina – também reorientou tanto sua política externa – dando menor prioridade para América do Sul – quanto sua política de defesa – relativizando sua tradicional negativa frente à doutrina hemisférica das novas ameaças. As perspectivas são, efetivamente, sombrias, embora o impacto maior parece ser para a iniciativa de criar-se uma identidade sul-americana de defesa, sem afetar por enquanto a promoção da confiança mútua.

O Conselho de Defesa Sul-Americano tem produzido importantes cursos entre os seus membros e mantém centros de estudos em sua estrutura burocrática. Esses centros de estudos não ficam restritos somente a militares, contendo a participação de acadêmicos. Uma das conclusões apontadas no artigo versa sobre a necessidade de se estudar o impacto de como as redes de interação promovidas pelo Conselho tiveram na elaboração de políticas de defesa. Para isso, seria necessária uma pesquisa em larga escala e com mais pesquisadores. Como poderia ser desenvolvida essa pesquisa, qual seria a estrutura necessária e como superar o obstáculo de ausência de publicação de documentos oficias e demais fontes primárias?

Nosso trabalho comprovou a existência de inéditos níveis de interação entre os atores da defesa dos países da UNASUL, assim como a tentativa de formular um conceito estratégico próprio, diferente do hemisférico. Como dito no artigo e na pergunta acima formulada, resta pesquisar em que medida o discutido no interior do CDS – incluindo seu CEED e a ESUDE – significou mudanças nas políticas. Argumentamos que apenas uma pesquisa coletiva poderia render os resultados ótimos sobre a totalidade dos casos nacionais por dois motivos. Em primeiro lugar, haveria mais chances de conseguir acesso à totalidade das atas e outros documentos oficiais, a partir de um pedido coletivo de acesso à informação, por exemplo. Por outro lado, as especificidades dos desenhos institucionais de defesa dos doze países requerem a participação de pesquisadores oriundos de todos os países membros, com acesso a informações que os ministérios e as forças armadas têm receio de compartilhar com pesquisadores estrangeiros. O CEED poderia ser um ótimo parceiro nessa empreitada coletiva.

Leia o artigo

Vitelli, Marina Gisela. (2017). The South American Defense Council: the Building of a Community of Practice for Regional Defense. Revista Brasileira de Política Internacional, 60(2), e002. Epub November 09, 2017.https://dx.doi.org/10.1590/0034-7329201700202

Sobre os autores

Marina Gisela Vitelli – Universidade Estadual Paulista, Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais, São Paulo – SP, Brazil(marinavitelli@ippri.unesp.br);

Guilherme Frizzera, é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

Como citar esta entrevista

Mundorama. "The South American Defense Council: the building of a community of practice for regional defense – uma entrevista com Marina Vitelli, por Guilherme Frizzera". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 13/12/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24233>.

Print Friendly, PDF & Email

Seja o primeiro a comentar

Top