Percepção e consciência de extremos climáticos globais, por Alberto Teixeira da Silva

Este artigo esboça algumas notas sobre a percepção e progressiva consciência dos riscos e dramas provenientes de extremos climáticos globais, informando que já estamos experimentado turbulências severas e desastres devastadores na era de mudanças climáticas incontroláveis. Isto vem sendo corroborado por aquilo que apontou Paul Crutzen, vencedor do Prêmio Nobel de Química 1995, de que estamos vivendo numa nova e perigosa era geológica, o Antropoceno, em que o homem passa a ser o agente propulsor de destruição do planeta. Eventos climáticos extremos cada vez mais intensos e frequentes como secas, enchentes, inundações, invernos rigorosos, furacões, ciclones, queimadas e ondas de calor, enfim, fenômenos que sufocam e impactam, sobretudo, cidades e metrópoles, estão sendo reconhecidos como conseqüências do atual modelo de desenvolvimento insustentável e desequilibrado que comanda nossa contemporaneidade.

Embora deslocada do núcleo duro do sistema de segurança internacional, a agenda de governança das mudanças climáticas alcançou uma significativa visibilidade política nas últimos anos. Da emergência ou intensificação dos problemas socioambientais globais na década de 1980, dentre os quais o aquecimento global (VIOLA;LEIS, 1995: pag. 74) ao reconhecimento público com suporte em farta literatura acadêmica e informes de instituições multilaterais apontando de forma categórica que as mudanças climáticas representam um dos maiores desafios da governança mundial neste século XXI (STERN, 2015; GIDDENS, 2010; CADERNOS ADENAUER, 2016).

Não existe nenhum espaço geográfico fora do alcance do aquecimento global e seus efeitos nocivos sobre diversos setores das sociedades humanas. Sucessivos Relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change ou IPCC em inglês), tem endossado que os fatores determinantes no aumento das temperaturas médias do planeta são derivados das ações humanas, provenientes da industrialização e destruição das florestas e que as mudanças climáticas intensificarão eventos extremos, deixando rastros de perdas humanas, prejuízos econômicos e devastação ambiental (IPCC, 2007).

Nesta quadra histórica de agendas globais complexas, ou seja, além das conseqüências danosas do aquecimento global que colocam em marcha mudanças climáticas, outros temas como fluxos migratórios derivados de guerras, pobreza e terrorismo, tensão nuclear, escassez de recursos hídricos, violação de direitos humanos e perda de biodiversidade, conformam uma época de riscos e inseguranças planetárias sem precedentes. Considera-se que a crise climática no cenário da crise multidimensional contemporânea é um dos sinais dos dilemas e contradições do processo civilizatório que impôs a dominação do homem sobre a natureza, fragmentando o conhecimento e comprometendo a capacidade de compreender o sentido da vida na sua organicidade e interconexão. Como diz o filósofo Edgar Morin, estamos todos presos à uma comunidade de destino num contexto de enraizamento planetário, que é a “nossa casa, home, heimat, é nossa mátria e, mais ainda, nossa Terra-Pátria” (MORIN, 2003: pag. 177).

A aprovação da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (United Nations Framework Convention on Climate Change ou UNFCCC em inglês) em 1992, no contexto da emblemática Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento ocorrida no Rio de Janeiro (informalmente conhecida como “Cúpula da Terra” ou “Rio 92”), foi sem dúvida, marco político-institucional basilar da governança mundial para o combate de mudanças climáticas derivadas do aquecimento global. Contudo, ao longo da década de 1990 e períodos sucessivos, o simbolismo não se traduziu num consenso em termos de políticas visando a redução drástica de gases do efeito estufa (GEE). Nem mesmo o Protocolo de Quioto (1997), que estabeleceu metas de redução exclusivamente aos países desenvolvidos (anexo A), conseguiu conter o ímpeto desenvolvimentista do padrão capitalista desregulado.

Embora a ratificação do Acordo de Paris em 2016, com base em compromissos voluntários de 192 países dos países membros da Organização das Nações Unidas (ONU), tenha trazido uma brisa de esperança para um combate efetivo ao avanço das mudanças climáticas antropogênicas (depois do fracasso de Copenhague em 2009), os efeitos da monumental carga de gases poluentes lançadas na atmosfera desde a revolução industrial, especialmente na esteira da grande aceleração do capitalismo fossilista e produtivista no pós segunda guerra mundial – estão transbordando em dolorosos custos materiais e humanos.

O impasse contemporâneo que impede o avanço de mudanças efetivas da cooperação internacional em torno do sistema da ONU, mostra o paralisia do sistema de governança ambiental, que está dominada por forças conservadoras e soberanistas. Esse sistema internacional de hegemonia conservadora (VIOLA;FRANCHINI & LEMOS RIBEIRO, 2012) torna-se incapaz de dar resposta aos problemas derivados da profunda interdependência das sociedades contemporâneas, que demandam como nunca de arranjos cooperativos para serem solucionados.

No período mais recente, um conjunto de eventos extremos de grande repercussão internacional atesta a extensão da crise climática e o futuro de incertezas daqui por diante. Incêndios florestais descontrolados nos Estados Unidos (Califórnia), Canadá e Portugal; ondas de calor na Europa, tufões no sudeste asiático, queimadas e enchentes na Amazônia, além da terrível seqüencia de furacões (Harvey, Irma, Katia, José, Maria) que arrasaram as ilhas do Caribe e regiões costeiras do México e Estados Unidos, são prova contundente de tragédias naturais amplificadas pelo modelo de desenvolvimento baseado nas energias fósseis. Vale recordar os estragos do famoso furacão Katrina em 2005, que arrasou a cidade de New Orleans, causando mortes e levas de desabrigados num dos centros urbanos de reconhecimento artístico-musical mais emblemáticos do planeta. As mudanças na atmosfera do nosso planeta não causaram os furacões, mas o consenso entre os cientistas é que os efeitos das mudanças climáticas, como o aumento do nível do mar e os oceanos mais quentes, tornaram essas tempestades muito mais destrutivas do que as décadas anteriores (DRASH, 2017).

Observa-se, de um lado, as dificuldades dos atores envolvidos para cooperar no plano de uma agenda global. Por outro lado, vai se cristalizando uma importante percepção e consciência planetária do cenário caótico encetado por verdadeiras tragédias climáticas que estão atemorizando e varrendo populações e continentes, contabilizando prejuízos econômicos bilionários, regiões devastadas e perdas humanas irreparáveis. O avanço dessa consciência e o sentido de pertencimento são absolutamente vitais nos dias de hoje. “A progressão e o enraizamento desta consciência de pertencer a nossa pátria terrena é que permitirão o desenvolvimento, por múltiplos canais e em diversas regiões do globo, de um sentimento de religação e intersolidariedade, imprescindível para civilizar as relações humanas” (MORIN, 2004: pag. 73).

Este avanço na percepção dos fenômenos climáticos muito se deve aos meios de comunicação, redes sociais e ativismo digital. Nessa contemporaneidade de “conexões e interatividades globais, potencializadas pela internet e redes (networks) tecidas no ciberespaço” (SILVA, 2015: 60), estão emergindo teias de conhecimentos e fluxos informacionais nos setores da economia, sociedade, ecologia, cultura; aflorando e aprofundando a consciência dos problemas ambientais globais. Na conformação da atual sociedade informacional, as mídias digitais e redes epistêmicas desempenham um papel fundamental em verdadeiros espetáculos online que servem para diferentes mensagens e análises, fazendo convergir e divulgar em tempo real imagens e conteúdos de fenômenos implacáveis, apontando a gravidade desse quadro desolador de degradação humana e desequilíbrios biosféricos.

A diplomacia política que cercou o ambiente da COP-21 em Paris, sendo decisiva para a celebração do consenso possível que levou ao comprometimento formal de metas voluntárias dos países, as chamadas Contribuições Nacionalmente Pretendidas (INDCs, na sigla em inglês), não tem sido capaz de gerar um pacto sólido de governança para mudar o comportamento dos governos no sentido de um posicionamento firme para reduzir GEE e avançar rapidamente para uma economia de baixo carbono. Além de compromissos dos governos nacionais para acelerar a redução de GEE, o sistema de governança do clima precisa envolver múltiplos atores e estratégias locais, subnacionais, multilaterais e transnacionais.

Nesta (de)ordem mundial multipolar, ações de governança com base em políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, continua sendo a senha para um outro patamar civilizatório, que reconheça e viabilize os recados da boa ciência climática. Infelizmente para muitos governos prospera a ilusão de que mudanças climáticas constitui agenda de interesse de redes epistêmicas, movimentos ecologistas ou ações isoladas e pouco conectadas com outras políticas públicas. Este tipo de mentalidade, além de há muito ultrapassada, compromete o alcance de uma mirada consciente de questões sistêmicas e estratégicas da sociedade atual, que deveria ser guiada pelo senso de responsabilidade e cidadania global (JACOBI et al, 2011).

Vai ficando mais cristalino o fato que mudanças do clima nesta era estonteante de riscos globais, estão se metaforseando em eventos extremos perversos e indomáveis, cujos impactos arruínam bases econômicas, contaminam sistemas produtivos e sanitários, além de provocar diretamente doenças e mortes de milhares de pessoas em todo o mundo. Enquanto esperarmos que as conseqüências do aquecimento global fiquem ainda mais nítidas, será tarde demais para uma ação coletiva concertada. Eis o grande paradoxo dos tempos hodiernos, o “paradoxo de Giddens” (GIDDENS, 2010: 20).

Referências bibliográficas

CADERNOS ADENAUER. Mudanças climáticas: o desafio do século. Rio de Janeiro: Fundação Konrad Adenauer. Nº 2. 2016.

DRASH, Wayne. Yes, climate change made Harvey and Irma worse. CNN, 2017. http://edition.cnn.com/2017/09/15/us/climate-change-hurricanes-harvey-and-irma/index.html. acesso em 20.09.2017

GIDDENS, Anthony. A política da mudança climática. Tradução Vera Ribeiro. Revisão técnica André Piani; apresentação à edição brasileira Sérgio Besserman. Rio de Janeiro: Zahar. 2010.

IPCC. Cambio climático. Informe de síntesis. http://www.ipcc.ch/pdf/assessment-report/ar4/syr/ar4_syr_sp.pdf. 2007.

JACOBI, Pedro Roberto; GUERRA, Antonio Fernando S.; SULAIMAN, Samia Nascimento; NEPOMUCENO, Tiago. Mudanças climáticas globais: a resposta da educação. Revista Brasileira da Educação. V. 16, Nº 46, Jan/abril. 2011.

MORIN, Edgar. Terra-Pátria. Traduzido por Paulo Azevedo da Silva. Porto Alegre: Sulina, 2003. 181 p.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Trad. Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

SILVA, Alberto Teixeira da. Amazônia na agenda ambiental global. Belém: NUMA/UFPA. 2015.

STERN REVIEW: The Economics of Climate Change.

http://www.wwf.se/source.php/1169157/Stern%20Report_Exec%20Summary.pdf

Acesso em outubro 2015.

VIOLA, Eduardo & LEIS, Hector. A evolução das políticas ambientais no Brasil, 1971-1991: do bissetorialismo preservacionista para o multissetorialismo orientado para o desenvolvimento sustentável. IN: HOGAN, Daniel Joseph & VIEIRA, Paulo Freire (Orgs.) Dilemas socioambientais e desenvolvimento sustentável. 2 ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP. 1995.

VIOLA, Eduardo & FRANCHINI, Matías. Sistema internacional de hegemonia conservadora: o fracasso da Rio + 20 na governança dos limites planetários. Ambient. soc.,  São Paulo ,  v. 15, n. 3, p. 01-18,  Dec.  2012 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-753X2012000300002&lng=en&nrm=iso>. access on  18  Aug.  2017.  2012.

Sobre o autor

Alberto Teixeira da Silva é Professor Associado da Universidade Federal do Pará – UFPA (alberts@superig.com.br).

Como citar este artigo

Mundorama. "Percepção e consciência de extremos climáticos globais, por Alberto Teixeira da Silva". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/11/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24161>.
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