A Ascensão de Vladimir Putin e a emergência do nacionalismo russo nos anos 2000, por Luiz Fernando Sperancete

A carreira política de Putin começou em São Petersburgo nos anos 1980, quando foi nomeado assessor do prefeito da Cidade. Mais tarde, após ser nomeado Primeiro-Ministro por Bóris Yelstin em 1999, o líder russo começou a ter enorme apoio popular, tendo em vista o caráter patriótico que ele exalava nas suas declarações sobre a Chechênia, sendo visto perante o povo russo como o símbolo do renascimento da Grande Nação Russa. Conforme destacam Berstein & Milza (2007), o povo via em Putin a pessoa capaz de resgatar a honra da Rússia, perdida por ocasião da assinatura do tratado de autonomia com os chechenos por Boris Yeltsin anos antes. Desta forma, a chegada de Vladimir Putin à chefia do Kremlin em 2000 ocorreu em meio a uma conjuntura alarmante de seu país, tendo como pano de fundo o colapso do país nos anos 1990 (sob a liderança de Boris Yeltsin e suas reformas liberalizantes) e o avanço norte-americano sobre a antiga zona de influência russa no Leste Europeu e no norte do Oriente Médio.

De acordo com Graciela Zubelzú (2007), as características históricas da Rússia no contexto do século XX continuamente requereram uma liderança política forte e uma espécie de omni-responsabilidade do Estado acerca do bem-estar da população (garantindo mecanismos de seguridade social, saúde, educação e políticas de pleno emprego), tendo em vista um difundido desejo da sociedade de uma ideologia nacional a ser implementada pelos órgãos do Estado. Esse desejo encontra suas raízes no imaginário social de que em momentos nos quais o Estado se enfraqueceu, houve anarquia e desordem, e a reconstituição ou restabelecimento da autoridade, que evite tal situação, resulta numa prioridade a qual se relega claramente todos os outros objetivos nacionais imediatos (tal qual a democracia ou as liberdades individuais). Além disso, segundo a mesma Autora, a União Soviética do pós-Primeira Guerra Mundial era legitimada pela população, pois esta acreditava que o Estado soviético era seu, tendo em vista a ideologia da classe trabalhadora imperante nas diretrizes da vida econômica e social do Estado soviético, não obstante a brutal repressão na esfera política.

A emergência do nacionalismo russo e a questão das fronteiras

Com o passar da década de 1990, a população percebia os anos soviéticos com uma sensação ainda positiva e, com a subida ao poder, Putin reagiu a isso remontando algumas políticas daquele período, como a exposição dos heróis soviéticos da Grande Guerra Patriótica (Segunda Guerra Mundial) e da corrida espacial, além de exaltar o próprio período soviético como um período de auge na história do país, que deveria ser remontado.

Entrementes, o líder russo procurou trazer de volta à política russa o conceito de “cidadão” da era soviética, a saber, manter as duas faces do povo russo: os “rossianie” (são aqueles russos que nasceram dentro ou fora da Rússia, mas que se consideram russos de alguma forma) e os “russkie” (são considerados aqueles cidadãos que residem e compartilham os laços culturais russos através do estatuto do Ius solis). Com a chamada ao povo russo para a consolidação de uma nova “Grande Nação Russa”, em que o indivíduo russo é parte fundamental desta nova estratégia e deve ser defendido em qualquer lugar e situação, Putin visou legitimar suas ações tanto no plano interno quanto no plano externo. Por outro lado, Richard Sakwa (2008a) destaca que Putin buscou alcançar a reconstrução dos cidadãos como objeto do espaço político russo para dar substância à ideia de superioridade da sociedade russa acima de qualquer outro tipo de sociedade. Consequentemente, o nacionalismo voltou com grande força no país, afinal, para conseguir executar tal política, Putin ressuscitou a histórica ideia que permeia o imaginário russo de que aqueles que não são russos são considerados “o outro”, com reflexos significativos sobre as relações do país com o exterior.

A questão da soberania sobre o território russo é marca importante da liderança de Putin enquanto presidente do país. Nos anos 1990, a Rússia havia sido interpelada por uma sucessiva onda de atentados terroristas oriundos dos separatistas nacionalistas da Chechênia, região do Cáucaso russo. Buscando debelar qualquer tipo de ameaça à integridade territorial do país, além combater o crescente terrorismo interno, Putin atuou com mão de ferro não somente sobre a Chechênia, mas também sobre todo o Cáucaso, região cuja maioria populacional é caracterizada por rebeldes muçulmanos e islâmicos (TAYLOR, 2011).

Historicamente, as fronteiras com o exterior apresentaram significante importância para a liderança política do país, afinal Moscou sempre se expandiu nos estertores do período Czarista e soviético, e se defendeu durante investidas estrangeiras, conforme foi com Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler (SEGRILLO, 2014; BUSHKOVITCH, 2014; POMERANZ, 2010). Com a retomada da ideia de que o território deve ser condição sine qua non para a sobrevivência da nação e que o Estado deve ser o garante disso, Wegren (2013) destaca que Putin 1) avalia que a extensão territorial do país deve supor o respaldo de uma autoridade política estatal centralizada e forte para defendê-la; 2) que a extensão territorial da Rússia se apresenta como elemento que conforma o poder do país frente ao exterior, e; 3) que o país é considerado um vizinho de três regiões em turbulência (Oriente Médio), mudança (Europa) e ebulição (Ásia). Desta forma, a importância da extensão territorial torna-se central na forma como Putin desenvolveu políticas de defesa destinadas a assegurar a soberania de Moscou até o último palmo de chão do país, tendo em vista dissuadir qualquer tentativa de agressão bélica estrangeira (SAKWA, 2008a; SAKWA 2008b), conforme ocorre com a expansão da OTAN sobre o Leste Europeu. Além disso, o condicionamento e a preocupação territorial resultam em fatores de peso político permanente quando se analisa o longo período da história russa, assim como os desdobramentos que esta variável apresenta sobre a política econômica e a política externa do país, o que confere às ações de Putin um precedente histórico importantíssimo, ajudando, inclusive, à interpretação dos atos do atual líder russo.

Nesse sentido, o nacionalismo é capitaneado por Putin como meio para amalgamar o apoio da população russa em torno de um projeto nacional que visa, em última instância, a garantia do papel da Rússia outrora perdido com o colapso soviético, a saber, o status de grande potência internacional. Desta forma, as ações russas na Chechênia, nas “revoluções coloridas” na Geórgia e na Ucrânia no começo da década de 2000, na reação à expansão da OTAN e da União Europeia sobre o Leste Europeu e o papel crescente dos oficiais militares, de inteligência e diplomatas na vida política do país, são elementos que dão os contornos da estratégia nacionalista proposta por Vladimir Putin.

Referências

BERSTEIN, S.; MILZA, P. História do século XX: volume 3: de 1973 aos dias atuais: a caminho da globalização e do século XXI. São Paulo, SP: Companhia Editora Nacional, 2007c.

BUSHKOVITCH, P. História concisa da Rússia. Tradução de José Ignácio Coelho Mendes Neto. São Paulo, SP: EDIPRO, 2014.

POMERANZ, L. A queda do muro de Berlim: reflexões vinte anos depois. In: Revista USP, nº 84, São Paulo, SP: Dezembro/Fevereiro, 2010, p. 14-23.

SAKWA, R. Putin’s leadership: Character and Consequences. In: Europe-Asia Studies, vol. 60, n. 6, August 2008a, p. 879-897.

SAKWA, R.. Russian Politics and Society. Fourth Edition. London and New York: Routledge, 2008b.

SEGRILLO, A. Os russos. – 1ª ed. – São Paulo, SP: Contexto, 2015.

TAYLOR, B.D. State Building in Putin’s Russia: Policing and coercion after communism. Cambridge University Press, 2011.

WEGREN, S. K. Return to Putin’s Russia: past imperfect, future uncertain. Rowman & Littlefield, 2013.

ZUBELZÚ, G. Entender a Rusia a traves de sus fuerzas profundas: dificultades y desafios de una reflexión recurrente. In: Revista Brasileira de Política Internacional, nº 50, 2007, p. 102-120.

Sobre o autor

Luiz Fernando Sperancete é mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP (LFMOCELINS@GMAIL.COM).

Como citar este artigo

Mundorama. "A Ascensão de Vladimir Putin e a emergência do nacionalismo russo nos anos 2000, por Luiz Fernando Sperancete". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/11/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24131>.

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