Unificação entre Contradições: Alemanha, Europa e as crises da globalização, por Carlos Frederico Gama

Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em zonas de ocupação pelas potências vencedoras (União Soviética, Estados Unidos, Reino Unido e França). As regiões ocupadas pelos soviéticos se tornaram a República Democrática da Alemanha (Alemanha Oriental) e as demais se uniram na República Federal Alemã (Alemanha Ocidental). Por quatro décadas, as Alemanhas foram potências econômicas nos blocos da Guerra Fria (divididos, a partir de 1961, pelo famoso Muro de Berlim). A RDA era a segunda maior economia planificada integrante do COMECON e a RFA, segunda maior economia capitalista da Comunidade Econômica Europeia (CEE), antecessora da União.

Dois grandes partidos dominaram a política da Alemanha Ocidental a partir de 1949. A Democracia Cristã (CDU) governou durante 28 anos e a Social-Democracia (SPD), 13 anos. Com o fim da Guerra Fria, a RFA incorporou a RDA em 3 de Outubro de 1990. Na Alemanha reunificada as principais forças políticas permaneceram aquelas do período do chanceler Konrad Adenauer. Democratas-Cristãos e Sociais-democratas obtiveram, em média, 70% da preferência do eleitorado nas urnas desde 1990.

Ao longo da Guerra Fria, a plataforma política desses partidos convergiu para um consenso vitorioso. Em primeiro lugar, conceberam a República Federal Alemã como um estado democrático de direito. Em seguida, promoveram uma economia baseada na indústria de ponta. Em termos de segurança, a Alemanha Ocidental fôra impedida de se rearmar pós-1949. Sua atuação se focou na estabilidade regional, com a consolidação de uma força de prontidão europeia que substituiria progressivamente as ogivas nucleares estacionadas em ambos os lados do Muro pelas superpotências em disputa. Por fim, a RFA foi vista como um dos corações da Europa integrada e uma plataforma de ampliação rumo ao Leste Europeu, simbolizada pela Ospolitik do chanceler socialdemocrata Willy Brandt (que desafiou a bipolaridade da Guerra Fria, ao abrir canais de negociação com a RDA na década de 1970).

Uma geração após a reunificação alemã e o Tratado de Maastricht (1992), a União Europeia incluía 28 estados, com uma presença significativa de ex-integrantes do bloco soviético. Reunificada, a Alemanha foi o primeiro país a reconhecer a independência da Croácia e Eslovênia durante a guerra civil iugoslava. O país se engajou ativamente nas operações de paz sob a batuta da Organização das Nações Unidas (ONU) e, de forma controversa, participou de operações militares da Europa na província (hoje estado) do Kosovo, 10 anos após a queda do Muro de Berlim. A nova Alemanha dos Democratas-Cristãos Helmut Kohl e Angela Merkel e do Sociais-Democratas Gerhard Schroeder se tornou a maior economia da Europa, uma das 5 maiores do mundo, bem como um dos 3 maiores exportadores. A integração da RDA e a imigração do Leste Europeu e Oriente Médio mantiveram o país de mais de 80 milhões de habitantes com crescimento populacional superior aos vizinhos.

Diante do acúmulo de sucessos, a comunidade internacional se viu surpreendida com a dificuldade de Merkel em vencer, uma vez mais, as eleições legislativas em 2017. Num sinal de perturbação e desalento, partidos da extrema-direita obtiveram sua mais expressiva votação desde a República de Weimar – terão um número significativo de cadeiras no Parlamento alemão, o Bundestag.

O ponto de virada foi a crise financeira internacional de 2008. A crise derrubou a aliança entre sociais-democratas e verdes liderada por Schroeder. Cerca de 10% do eleitorado não foi às urnas. Entre 2005 e 2009, Democratas-Cristãos e Sociais-Democratas perderam 7 milhões de votos. Pela primeira vez após a Reunificação, a soma de seus votos caiu abaixo da casa dos 60% do total.

Gráfico 1: “Eleições para o Bundestag após a Reunificação”[2]

Gráfico 2: “Votos para o Bundestag após a Reunificação”[3]

As respostas à crise transformaram a União Europeia. Considerados pilares da integração, o livre mercado e a liberdade de movimento se viram subitamente convertidos em prolongada recessão e dilatada crise humanitária. Instituições comunitárias, dantes vistas como provedoras de soluções e consideradas como vanguarda das políticas públicas internacionais, passaram a ser consideradas como parte do problema. Ao invés de enfocar a convergência de políticas entre os estados-membros e agentes sociais, as ações da UE adquiriram uma intensidade coercitiva inédita na escala regional. As políticas comunitárias passaram a depender de um sistema estrito de regras e punições, o que as aproxima das práticas do Fundo Monetário Internacional e da Organização Mundial do Comércio.

A ascensão de Merkel ao posto de Chanceler marca o período no qual políticas da UE passam a ser vistas como mecanismos competitivos que favorecem, em última instância, uma hegemonia alemã, contra o pano de fundo da retração das economias mais endividadas da União (os PIIGS – Portugal, Itália, Irlanda, Grécia, Espanha). Dani Rodrik caracterizou essa transformação no conteúdo das políticas comunitárias como um experimento de integração regional em meio à hiperglobalização[4].

Uma reversão de expectativas também marcou questões de segurança. A Alemanha de Merkel foi um dos destinos preferenciais dos refugiados da guerra civil na Síria. O país acolheu mais de 1 milhão de pessoas no último biênio – numa significativa demonstração de solidariedade internacional. Não obstante, o apoio do eleitorado às políticas da Chanceler passou a ser relutante. Um estupro coletivo atribuído a imigrantes do Oriente Médio no réveillon de 2015 em Colônia e o atentado num mercado de Natal em Berlim (2016), reivindicado pelo grupo terrorista ISIS, tornaram a opinião pública mais relutante à política de “portas abertas” de Merkel, endossada pela União Europeia.

Em contraste com caracterizações da União como um sistema de governança de múltiplos níveis[5], os estados-membros voltam ao centro das atenções na Europa convulsionada por crises e temerosa do populismo. Discursos de ódio, supremacia racial e xenofobia retornam ao léxico político e às urnas. Ansiedades políticas referentes ao status das fronteiras comunitárias – já tensionadas pelo Brexit e por consultas populares na Escócia e na Catalunha – voltam o relógio para 1991[6].

Diante da crise, as promessas da integração se tornaram menos persuasivas. A União Europeia permanece, doravante, em fluxo[7] – menos uma comunidade de destino e mais um experimento, no seio do qual rupturas abruptas convivem com lenta acumulação de conquistas. Consequências não antevistas[8] da globalização transformaram o projeto bem-sucedido da Alemanha do pós-Guerra em capítulo da crise das democracias liberais[9] no século XXI. A vitória na paz veio com sabor de derrota.

Notas

  1. http://electionresources.org/de/
  2. Ibid.
  3. Rodrik, Dani (2011). The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy. New York: W.W. Norton.
  4. Hooghe, Lisbet & Marks, Gary (2003). “Unraveling the Central State, but How? Types of Multi-level Governance” in American Political Science Review, Vol. 97, No.2, pp.233-243
  5. Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “A Eleição Presidencial na França e a União Europeia em crise”. NEMRI. Disponível em: https://nemrisp.wordpress.com/2017/04/27/a-eleicao-presidencial-na-franca-e-a-uniao-europeia-em-crise/. Acesso em: 27 de Abril de 2017.
  6. Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Jovens Ruínas da Integração Europeia”. MUNDORAMA. Disponível em: http://www.mundorama.net/?p=23772. Acesso em: 22 de Julho de 2017.
  7. Giddens, Anthony (1990). The Consequences of Modernity. Stanford: Stanford University Press.
  8. Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Vitórias Inconclusivas: o Desgaste da Democracia Liberal”. NEMRI. Disponível em: https://nemrisp.wordpress.com/2017/07/25/vitorias-inconclusivas-o-desgaste-da-democracia-liberal/. Acesso em: 25 de Julho de 2017.

Como citar este artigo

Mundorama. "Unificação entre Contradições: Alemanha, Europa e as crises da globalização, por Carlos Frederico Gama". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 11/12/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24088>.

Sobre o autor

Carlos Frederico Gama é professor da Universidade Federal de Tocantins – UFT.

Print Friendly, PDF & Email

Seja o primeiro a comentar

Top