O ensino de Relações Internacionais e o cinema: reflexões sobre o uso de filmes como uma ferramenta pedagógica, por Cristine Zanella & Edson Neves

Os filmes são majoritariamente voltados ao entretenimento, mas, mesmo não tendo como objetivo primário o aprendizado, são frequentemente utilizados como recurso pedagógico pelos professores de Relações Internacionais (RI). Diversos são os incentivos para isso, entre os quais estão a percepção do docente de que os filmes podem agregar informações ao conteúdo trabalhado, podem servir para analisar uma narrativa sobre determinado evento e são uma fonte para ilustrar teorias das relações internacionais.

Na literatura especializada há trabalhos bastante conhecidos que representam a perspectiva positiva do uso do cinema nas RI. É o caso do livro “International Relations Theory: a critical introduction”, de Cynthia Weber, que sugere, ao final de cada capítulo, o aprofundamento da reflexão da teoria abordada por meio de filmes. Em âmbito nacional, os dois volumes do livro “As Relações Internacionais e o Cinema”, publicados em 2015 e 2016 pelos autores deste artigo, buscam oferecer análises de temas de relações internacionais por meio de filmes. E finalmente, entre outros, o destaque desta perspectiva positiva do uso do cinema também aparece no artigo “International Relations at the movies: teaching and learning about International Politics through Film”, de Engert e Spencer, publicado em 2009, no qual os autores identificaram formas do uso dos filmes como uma ferramenta didática para o ensino das relações internacionais. Por outro lado, “Visualizing International Relations: Assessing Student Learning Through Film”, de Safia Swimelar, publicado em 2013, sintetiza alguns argumentos desfavoráveis ao uso do cinema para o ensino de RI.

O que todos estes trabalhos têm em comum é o fato de fazerem a abordagem do uso do cinema em sala de aula a partir da perspectiva dos professores, do que eles querem ensinar e como querem fazê-lo. No presente artigo (“O ensino de Relações Internacionais e o cinema: reflexões sobre o uso de filmes como uma ferramenta pedagógica”) os autores se propuseram a ouvir os discentes para então perquirirem sobre as potencialidades e limites do uso dos filmes para o ensino de RI. Essa avaliação foi feita a partir da percepção dos estudantes de duas turmas de Política Externa Brasileira, uma da Universidade Federal de Uberlândia (UFU-MG) e outra da Universidade Vila Velha (UVV-ES).

A estrutura do artigo é composta por uma introdução, que tece breves notas sobre a literatura que trata do cinema nas RI. Segue-se a primeira seção, que apresenta o caráter complementar entre as investigações feitas na UFU e na UVV e discute a metodologia usada. A segunda seção apresenta a experiência na UFU e dedica-se à compreensão do acesso dos estudantes ao cinema e suas preferências, bem como investiga a percepção dos estudantes sobre a utilidade de se usar os filmes como apoio à aprendizagem. A segunda seção apresenta a experiência na UVV e aprofunda a pesquisa, dedicando-se a verificar se a exibição de um filme específico (o documentário O dia que durou 21 anos) contribuiu para a apreensão de alguns conceitos e momentos históricos relacionados ao golpe civil-militar de 1964.

O retorno dos estudantes apontou uma das dificuldades já enunciadas por Swimelar, qual seja, certa resistência e distração quando são utilizados filmes, especialmente documentários, que apresentam um ritmo de desenvolvimento mais lento. Também poucos discentes apontaram alguma indiferença em relação ao uso dos filmes. Embora seja uma manifestação minoritária, tal indício revela que o uso de filmes como ferramenta de aprendizado não é uma panaceia para o ensino de RI, e uma parcela da turma prefere formatos tradicionais de aula ou inovações de outros tipos.

As limitações observadas, porém, não superam a manifestação da maioria dos estudantes, os quais consideram positivo o uso de filmes para o aprendizado, e dos resultados da pesquisa, que apontam para o potencial do uso do cinema em aula. Na era da disseminação do acesso às tecnologias, os filmes, ao articularem os recursos da imagem em movimento e do som são, além de um meio de transmissão de informações e exemplificações de conteúdo teórico, também um recurso para chamar os estudantes a tomarem parte no debate reflexivo com apoio de um canal que dialoga com as interfaces do seu tempo. Entretanto, nenhum dos potenciais usos de filmes em sala de aula pode ser uma ferramenta efetiva de aprendizado sem a mediação do professor, e isso também pode ser claramente extraído das respostas dos próprios discentes. Aqui está provavelmente a mais substantiva conclusão do artigo: os filmes, mesmo os mais didáticos, como documentários, exigem a mediação docente para organizar e viabilizar a aprendizagem – e são os próprios estudantes a reconhecerem isso. Embora essa constatação possa parecer intuitiva para parte dos docentes, o trabalho contribui para demonstrar que ela encontra lastro também a partir da ótica dos estudantes, o que torna fundamental o despertar de consciência dos professores para a importância de prepararem a abordagem do filme de maneira didática, superando a ideia que a exibição da obra basta, por si só, para atingir os fins do ensino e da aprendizagem.

Leia o Artigo

Zanella, C. K., Neves Jr, E. J. (2017) O ensino de Relações Internacionais e o cinema: reflexões sobre o uso de filmes como uma ferramenta pedagógica, Meridiano 47, DOI: http://dx.doi.org/10.20889/M47e18012

Como citar este artigo

Mundorama. "O ensino de Relações Internacionais e o cinema: reflexões sobre o uso de filmes como uma ferramenta pedagógica, por Cristine Zanella & Edson Neves". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 11/12/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24032>.

Sobre os autores

Cristine Koehler Zanella – Universidade Federal do ABC, Bacharelado em Relações Internacionais, São Bernardo do Campo – SP, Brazil (criskz.sma@gmail.com). ORCID ID: orcid.org/0000-0001-7092-4549

Edson José Neves Jr – Universidade Vila Velha, Departamento de Relações Internacionais, Vilha Velha – ES, Brazil (edson.neves@uvv.br).

Print Friendly, PDF & Email

Seja o primeiro a comentar

Top