Europa Oriental: “zapped over ZAPAD”, por Paulo Antônio Pereira Pinto

“Zapped over Zapad” é o título de notícia da “RT – Russian TV on line” sobre o “entorpecimento mental” que atribuem os simpatizantes da visão do Kremlin aos críticos dos objetivos defensivos dos exercícios militares russo-bielorrussos, entre 14 e 19 de setembro de 2017. O texto em questão, a propósito, além de “pisotear o óbvio” de que os dois países realizam “treinamento de suas forças armadas” em seu próprio território – “How dare you carry out provocative defensive measures?”, teria alegado certa autoridade dos EUA – enumera mobilizações recentes que realmente considera bélicas e provocativas, praticadas pela OTAN.

Tendo em vista que a “RT” tem grande penetração na Belarus, cito alguns trechos divulgados por aquela emissora, na medida em que repercutem e influenciam a visão de Minsk sobre a Zapad 2017. Inicialmente, lembra-se que os participantes asseguram que haverá cerca de 13.000 militares, enquanto fontes dos Estados Unidos e da OTAN estimam que o efetivo total chegará a 100.000.

O número convencional de 13.0000, para manobras militares, teria sido acordado entre a Rússia e a OTAN, logo após a dissolução da União Soviética, em 1991. A RT lembra, por exemplo, que no ano passado, foi realizada a “Operação Anaconda”, que envolveu cerca de 30.000 soldados de 24 países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte, que atuaram em exercícios na Polônia e Países Bálticos. Foi noticiado, na ocasião, que desde a Segunda Grande Guerra, foi a primeira vez que um tanque de guerra alemão entrou em território polonês. Ademais, outras manobras envolvendo tropas de múltiplas nacionalidades, no território de diferentes países, ocorreram, na Europa Ocidental, tais como as denominadas “Summer Shield”, “Iron Wolf”, “Saber Strike” e “BALTOPS”. Todas, de acordo com a perspectiva antirrussa, permitidas por seu “caráter defensivo”.

A imprensa pró-Moscou, ademais, considera “ridícula” a afirmação de que haveria uma suposta intenção russa de, neste mês, a ZAPAD repetir, com respeito aos Países Bálticos, o ocorrido na Georgia, há nove anos – segundo a versão dos fatos, pela mídia ocidental. Isto é, para os membros da OTAN, existiria, agora – a exemplo do modelo caucasiano – o “mesmo pretexto de grande mobilização de tropas”, a título de treinamento, mas com o objetivo de invadir países vizinhos da Belarus, como forma de aumentar a área de influência da Rússia. A narrativa favorável aos russos, como se sabe, interpreta terem sido os georgianos os responsáveis pelo conflito, uma vez que – sempre de acordo com a justificativa deste grupo – as autoridades de Tbilisi teriam “invadido território da Federação Russa”.

Diante do “tsunami” de “fake news”, de ambas as partes, torna-se difícil oferecer alguma interpretação original sobre as consequências prováveis da ZAPAD 2017, para a estabilidade do entorno político da Belarus. Cumpre observar, no entanto, que não há visibilidade, no momento, em Minsk, de qualquer presença militar vizinha, para os exercícios a partir de 14 do corrente. Seria, ademais, de mau gosto excessivo se tal ocorresse na capital de um dos países que tem sofrido grande parte das agressões em direção ao território russo – desde a invasão napoleônica, até as devastações causadas pelos nazistas, durante a Grande Guerra Patriótica. Tanques russos nas ruas causariam grande repulsa da população aqui, ao contrário do aplauso visto em noticiários sobre desfiles de carros blindados da OTAN por estradas e cidades da Europa Ocidental.

Não cessam, contudo, manifestações de autoridades de países vizinhos, sobre a capacidade bielorrussa de permanecer neutra, diante de eventual – mas pouco provável – intento de Moscou de, durante ou após a ZAPAD 17, manter exércitos seus, na Belarus, que, como tem sido reiterado, situa-se na fronteira com países da OTAN.

Neste sentido, foi ilustrativo recente seminário sobre «25 Years of Foreign Policy of the Republic of Belarus», organizada pelo “Minsk Dialogue”, com a presença de ex-Ministros dos Negócios Estrangeiros deste país, na década de 1990, além de acadêmicos e representantes diplomáticos.

Cabe ressaltar a unanimidade dos ex-Chanceleres quanto ao fato de que a suposta opção bielorrussa de aproximação da Europa Ocidental, logo após a independência da URSS foi “a non-starter”. Isto porque, este país, desde o início – segundo os expositores – tem sido “empurrado no sentido de uma posição geopolítica definitiva, em termos de Leste ou Oeste”. Não lhe fora concedida, no entanto, a possibilidade de “escolher um caminho próprio que lhe permitisse o desenvolvimento de estruturas políticas autônomas, com características próprias e influências de sua escolha, a partir de fontes externas múltiplas”.

Após o término da Guerra Fria, Minsk chegou a desejar ser acolhida pela Europa Ocidental, como parceira. A receita então vigente para países recém-emancipados da União Soviética, contudo, seria o “choque capitalista”. Isto é, havia a certeza de que reformas, com base no estabelecimento de uma economia de mercado, criariam sua própria dinâmica de renovação política.

Na Belarus, isto não aconteceu, pois a inércia herdada, resultante da mistura de formas patriarcais e socialistas de pensar, levou a imediato caos político, logo após a independência. Segundo a visão de Minsk, tais razões podiam ser encontradas no fato de que, quando os soviéticos invadiram o país – após seu curto período de vida independente, entre 1918 e 1920 – encontraram um “aparelho de estado” estagnado por formas de governança medievais. Sobre estas foram impostas normas socialistas de organização política. Os responsáveis pela forma de governança ora vigente afirmam, então, que, na década de 1990 precisavam – e ainda precisam – de “mais tempo” para atingir o patamar desejado por Bruxelas.

Verifica-se, também, que, s.m.j., para tchecos e poloneses, a reintegração à Europa, em 1989, significava o redescobrimento de herança cultural que havia sido enterrada durante o período de ocupação soviética. Para romenos e búlgaros, a Europa representava a promessa de sucesso econômico e a consolidação de regimes democráticos. Para ucranianos, a Europa poderia ser a porta de saída da Ásia.

No caso da Belarus, a utilidade do magnetismo europeu ficava menos clara, pois sua “identidade nacional” havia sido fortalecida em “moldura soviética”. Dessa forma, o autoritarismo consolidado e eleições duvidosas, que aqui continuariam a prevalecer, estariam em contradição com parâmetros de governança almejados pelos europeus. Isso acontecia em Minsk, mesmo enquanto a governabilidade em Moscou passava por profundas alterações, sob o comando de Yeltsin.

Ademais, conforme mencionado acima, exigia-se, logo após a independência, que a Belarus se definisse, pelo menos, como “país neutro”, na fronteira entre Leste e Oeste.

Segundo alguns participantes do seminário em questão, nunca houve a opção de este país adotar, por exemplo, “modelos de neutralidade” como os seguidos pela Suécia, Suíça ou Finlândia. Faltou, inicialmente, a Minsk “o engenho e a arte” para articular um “conceito sofisticado” na definição sua neutralidade.

Assim, os responsáveis por sua política externa parecem ter reagido a cada fato novo em seu entorno regional, priorizando seus próprios interesses – comerciais, de segurança, prevenção de extremismo, entre outros. Em segundo patamar, esta capital tem respondido ora alinhando-se com Bruxelas, ora com Moscou – de preferência, com esta capital devido a seus maiores vínculos econômicos. No momento, o importante seria ressaltar que “as raízes dos seguidos espasmos de neutralidade” bielorrussos não são “ideológicos”. Respondem, sim, a necessidades pragmáticas, inclusive para sua sobrevivência como nação independente, permitindo ao país alguma amplitude de manobra, sem provocar clareza suficiente que provoque ira excessiva da Federação Russa.

Conclui-se, expressando o desejo – e mesmo convicção, neste momento – de que a ZAPAD 2017 signifique, conforme afirmam Moscou e Minsk “meros cenários hipotéticos de exercícios de defesa contra oponentes imaginários”, sem que se planeje que, após sua conclusão, milhares de soldados russos aqui permaneçam ocupando a Belarus e ameaçando invadir Polônia e Países Bálticos. Cabe, portanto, “keep an open mind”, ao invés de se permanecer “zapped”.

Sobre o autor

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata, Embaixador do Brasil em Minsk, Belarus, a partir de 2015. Foi  Chefe do Escritório de Representação do MRE no Rio Grande do Sul (ERESUL), entre 2012 e 2014,  Embaixador do Brasil em Baku, Azerbaijão, entre 2009 e 2012, e Cônsul-Geral em Mumbai, entre 2006 e 2009. Serviu, a partir de 1982, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. Na década de 1970 trabalhou, na África,  nas Embaixadas em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique e foi Encarregado de Negócios em Pretória, África do Sul.  As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores.

Como citar este artigo

Mundorama. "Europa Oriental: “zapped over ZAPAD”, por Paulo Antônio Pereira Pinto". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 23/11/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23933>.

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