Onde está o Japão? Uma explicação em meio à escalada das tensões entre EUA e Coreia do Norte, por Cairo Junqueira & Fabio Ferreira

Muito se discute a respeito do aumento das tensões entre EUA e Coreia do Norte, mas em menor escala questiona-se o papel do Japão na disputa. O objetivo da presente análise é justamente trazer fundamentos históricos e políticos deste país para explicar o atual contexto.

“É melhor a Coreia do Norte não fazer mais ameaças aos Estados Unidos. Eles encontrarão fogo e fúria como o mundo jamais viu”. Essas foram as palavras do Presidente Donald Trump no início de agosto de 2017 em meio à troca de farpas envolvendo seu país e o norte-coreano Kim Jong-un. Tem sido uma constante nos noticiários o aumento das tensões entre ambos em virtude da iminência de um conflito direto. A cada teste balístico realizado por Pyongyang existe uma mistura de preocupação, havendo condenação por parte da comunidade internacional, e ceticismo, cabendo a seguinte pergunta: realmente existe a possibilidade da ocorrência de uma “guerra total” com utilização de armas nucleares, atômicas e/ou de hifrogênio?

A resposta para essa pergunta é simples e analistas dizem ser baixa a probabilidade de ocorrência de uma guerra na península coreana (BBC BRASIL, 2017). Além mais, a argumentação não estaria fundamentada na possibilidade dos Estados Unidos utilizarem seu potencial militar, mas sim na política adotada pelos norte-coreanos. Kim Jong-um precisa garantir a sobrevivência do seu regime, mostrar aos países seu potencial e anular quaisquer possibilidades de uma intervenção estrangeira em seu território, conforme aponta Raquel Gontijo em entrevista recente (UOL, 2017). A Coreia do Norte não teria outra escolha a não ser utilizar uma política externa dissuasiva com fortes ameaças.

Assim, cabe a máxima de que discursos são discursos e os mesmos diferem de políticas adotadas na prática, a exemplo das palavras mencionadas por Trump e transcritas no início do presente texto. Em 2016, o até então apenas empresário bem-sucedido apareceu como uma nova proposta de mudança nos EUA caracterizadora de seu principal slogan: “Make America Great Again”. A sigla MAGA aparece inclusive em livro de sua autoria intitulado “Crippled America? How to Make America Great Again”. Nas prévias eleitorais Trump tratou de propor políticas em áreas polêmicas como imigração, armas, aborto e, evidentemente, política externa. Sobre esta última, chegou a criticar veementemente o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e cobrou maior participação – lê-se aporte financeiro – de seus membros na instituição (NEXO JORNAL, 2017). Outras questões como a construção do muro separando os EUA do México colocaram mais polêmicas em torno de Trump, inserindo-o em um contexto internacional marcado por incertezas, por uma política personalizada e por movimentos de “anti-globalização”, ideias explanadas e sustentadas pelos professores Wolf Grabendorff e Tullo Vigevani (CARI, 2016).

Deste modo, o aumento da escalada das tensões entre EUA e Coreia do Norte insere-se em uma conjuntura internacional mais complexa e incerta. Não é de hoje que aquele país possui uma política internacional mais assertiva, a exemplo das intervenções no Iraque e no Afeganistão na década de 2000, acompanhada por um discurso afirmativo. E também o país do norte da península remonta seus anseios bélicos à Guerra da Coreia (1950-1953), bem como sua confrontação como política externa é antiga e se repete com relativa frequência em seu histórico recente (MORAIS, 2003).

Dito de outro modo, as rixas e confrontações políticas, trocas de farpas em pronunciamentos oficiais, feição de sanções comerciais e vinculação de notícias alarmantes fazem parte do histórico de relacionamento entre os dois países. Conforme apontado anteriormente, a novidade aparece em um momento de incertezas políticas internacionais representadas e ilustradas em grande medida tanto pela presidência de Trump nos EUA (e seu discurso nacionalista) quanto pelo aumento da realização de testes com mísseis por parte de Kim Jong-un. Realizadas essas considerações iniciais e sabendo que a oposição entre EUA e Coreia do Norte, mesmo apresentando traços novos, é um movimento histórico, cabe a pergunta: Onde está o Japão nesse emaranhado político?

Para responder tal questionamento, faz-se necessário voltar no tempo. Dias após a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, o arquipélago foi ocupado durante sete anos, de 1945 a 1952, pelas forças Aliadas, em especial, pelos estadunidenses (HENSHALL, 1999). Conforme aponta Watanabe (2011), os EUA tinham como objetivo a desmilitarização e democratização do Japão para evitar que este, novamente, fosse uma ameaça. Assim, uma nova Constituição foi adotada, sendo considerada por Togo (2005) a decisão mais importante tomada ao longo do primeiro ano de ocupação. Nesta, foi incluída a cláusula de renúncia à guerra e à manutenção de forças armadas. Sem dúvida, o polêmico Artigo Nono da Constituição do Japão tornou-se motivo de discussões e questionamentos ao longo das décadas.

Aspirando sinceramente a uma paz internacional baseada na justiça e na ordem, o povo japonês renuncia para sempre à Guerra como direito soberano da nação e a ameaça ou uso da força como meio de resolver disputas internacionais.

Para cumprir o objetivo do parágrafo anterior, as forças do exército, marinha e aeronáutica, assim como qualquer outro potencial de guerra, jamais serão mantidos. O direito a beligerância do Estado não será reconhecido. (ARTIGO NONO, CONSTITUIÇÃO JAPONESA, 1946, tradução nossa, grifo próprio)

Tanto a chamada “Cláusula Pacifista”, quanto o Tratado de Segurança Mútua Japão-EUA de 1951, e posteriormente revisado em 1960, que comprometem os norte-americanos a protegerem o arquipélago em caso de ataques externos, implicaram em uma política externa denominada “Doutrina Yoshida” (em referência à Shigeru Yoshida, primeiro-ministro japonês nos períodos de 1946-1947 e 1948-1954), caracterizada pelo abandono da área de defesa e foco na reconstrução econômica, o que perdurou até o início do século XXI, quando vieram à tona governos nacionalistas que demonstraram grande interesse pela ampliação do papel japonês no cenário internacional, contrariando o caráter economicista e minimalista de Yoshida (MIYAMOTO; WATANABE, 2014). Ainda assim, como podemos verificar atualmente, Tóquio carece de uma política externa assertiva e é extremamente dependente de Washington no que tange, por exemplo, à ameaça apresentada pelos testes nucleares e lançamentos de mísseis norte-coreanos.

Tais ações iniciadas pela Coreia do Norte datam do fim da década de 1970, porém, somente em 2017, mais de uma dezena de mísseis balísticos foram testados, alguns caindo em águas japonesas e sobrevoando o território japonês, além de dois mísseis intercontinentais, ou seja, o que teoricamente permitiria um ataque direto aos Estados Unidos. Cabe salientar que o recente teste feito no dia 03 de setembro refere-se a uma bomba de hidrogênio que pode ser acoplada em mísseis de longo alcance (ESTADÃO, 2017) e é tão destrutiva quanto as bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki (UOL, 2016).

Estes acontecimentos instigam o debate sobre a restrita postura securitária japonesa bloqueada devido a suas restrições constitucionais. Atualmente, o aparelho de defesa contra a ameaça norte-coreana baseia-se num sistema de duas camadas: uma no mar, onde destroyers equipados com o sistema de defesa de Aegis agem como interceptores de mísseis, e a outra com base em terra, referente aos lançadores de mísseis interceptores PAC-3, o que vem se tornando ineficaz, na medida em que o programa nuclear norte-coreano amplia não só seu poder bélico, mas também o número de alvos simultâneos (MILLER, 2017).

Em meio a um ambiente hostil, Shinzo Abe, atual primeiro-ministro japonês, tomou medidas impopulares que causaram críticas por parte da população japonesa, traumatizada historicamente pelos horrores da guerra, e por parte de países como a China. Em 2015, por exemplo, conseguiu a aprovação de um pacote de leis que passou a autorizar o uso das Forças de Autodefesa Japonesas a conflitos externos, indo contra os princípios pacifistas da Constituição (McCURRY, 2015), além de aprovar, em 2016, o aumento orçamentário de defesa do país para 5,13 trilhões de ienes (US$ 43,66 bilhões) em relação aos 4,98 trilhões de ienes (US$ 42 bilhões) do ano anterior (BBC NEWS, 2016).

Segundo Miller (2017), a Constituição do Japão não proíbe necessariamente um ataque à Coreia do Norte, uma vez que a força seria a única forma de proteger a segurança de seu território e seus cidadãos. No entanto, fatores como as críticas internas feitas por pacifistas e possíveis retaliações por parte de nações vizinhas trariam mais tensões que não seriam interessantes para o arquipélago. Talvez seja mais benéfico (ou menos danoso) que Abe, primeiro chefe de governo a visitar Trump após sua eleição, continue confiando no presidente norte-americano e em suas afirmações, conforme comentado por Phillips (2017), de que tomará todas as medidas necessárias para proteger seus aliados de Kim Jong-un. Afinal, não é de hoje que o Japão entrega seu futuro nas mãos dos EUA, fato explicativo da carência de notícias e da menor escala de debate em torno de suas relações regionais para com a Coreia do Norte.

Referências

BBC BRASIL. Tensão entre os EUA e a Coreia do Norte: há razão para temer uma guerra nuclear?. 10 de agosto de 2017. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40885538> Acesso em: 06 set. 2017.

BBC NEWS. Japan in record military spending amid Chinese tensions. 22 dez. 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-asia-38400432>. Acesso em: 25 jul. 2017.

CARI – Conselho Argentino para as Relações Internacionais. El impacto de las elecciones de Estados Unidos en América Latina. 17 de novembro de 2016. Disponível em: < http://www.cari.org.ar/recursos/cronicas/eeuu17-11-16.html> Acesso em: 06 set. 2017.

EMBAIXADA DO JAPÃO NO BRASIL. Constituição do Japão. Disponível em: <http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/constituicao.html>. Acesso em 20 jul. 2016.

ESTADÃO. Cronologia: O programa de mísseis da Coreia do Norte. 04 set. 2017. Disponível em: <http://internacional.estadao.com.br/blogs/radar-global/cronologia-o-programa-de-misseis-da-coreia-do-norte/>. Acesso em: 09 set. 2017.

HENSHALL, K. G. A History of Japan, from Stone Age to Superpower. New York: Palgrave Macmillan, 1999.

McCURRY, J. Japan reveals record defence budget as tensions with China grow. The Guardian. 14 jan. 2015. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2015/jan/14/japan-reveals-record-defence-budget-as-tensions-with-china-grow>. Acesso em: 25 jul. 2017.

MILLER, J. B. Japan’s North Korea Options. Foreign Affairs. 2017. Disponível em: <https://www.foreignaffairs.com/articles/japan/2017-03-15/japans-north-korea-options>. Acesso em: 25 jul. 2017.

MIYAMOTO, S.; WATANABE, P. D. Towards an uncertain future? The strengthening of Japan’s autonomy in Asia-Pacific. Rev. bras. polít. int., Brasília , v. 57, n. 1, p.98-116, 2014. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&p id=S0034-73292014000100098&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 20 jul. 2016.

MORAIS, Isabela Nogueira de. A crise norte-coreana e os interesses estratégicos do nordeste asiático. Revista Política Externa, v. 12, n. 1, jun/jul/ago, 2013.

NEXO JORNAL. Qual o resultado da primeira reunião de Trump com a Otan, maior aliança militar do mundo. Notícia escrita por Rafael Iandoli em 25 de maio de 2017. Disponível em: < https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/05/25/Qual-o-resultado-da-primeira-reuni%C3%A3o-de-Trump-com-a-Otan-maior-alian%C3%A7a-militar-do-mundo> Acesso em: 06 set. 2017.

PHILLIPS, T. Trump vows ‘all necessary measures’ to protect allies from North Korea, says Abe. The Guardian. 31 jul. 2017. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2017/jul/31/trump-vows-all-necessary-measures-to-protect-allies-from-n-korea-says-abe?CMP=Share_iOSApp_Other>. Acesso em: 31 jul. 2017.

TOGO, K. Japan’s Foreign Policy, 1945-2003: The Quest for a Proactive Policy. Brill Academic Pub, 2005.

UOL. Como funciona uma bomba de hidrogênio? Escrito por Paula Moura em 07 de janeiro de 2016. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2016/01/07/como-funciona-uma-bomba-de-hidrogenio.htm>. Acesso em: 09 set. 2017.

UOL. O que Kim Jong-un quer com seus testes nucleares e de mísseis balísticos?. Notícia escrita por Talita Marchao em 30 de agosto de 2017. Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2017/08/30/o-que-kim-jong-un-quer-com-seus-testes-nucleares-e-de-misseis-balisticos.htm> Acesso em: 06 set. 2017.

WATANABE, P. D. A reinserção internacional do Japão no pós-segunda guerra mundial. In: 3° ENCONTRO NACIONAL ABRI 2011, 3., 2011, São Paulo. Proceedings online. Associação Brasileira de Relações Internacionais Instituto de Relações Internacionais – USP, 2011, p.1 – 16. Disponível em: <http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=MSC0000000122011000300033&lng=en&nrm=abn>. Acesso em: 20 Jul. 2016.

 

Sobre os autores

Cairo Junqueira é Professor de Relações Internacionais na Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP).

Fábio Ferreira é Graduando em Relações Internacionais pela Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP).

Como citar este artigo

 

 

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