Rússia: a aplicação incidental da doutrina Gerasimov, por Virgílio Arraes

Atravancada sua administração em decorrência das denúncias de relações heterodoxas de membros do gabinete e da própria família com o cerrado governo russo, o presidente Donald Trump demonstra impaciência e, ao mesmo tempo, incapacidade de articular-se de maneira positiva com a sociedade local, ao propor, sem alternativa alguma, a eliminação do auxílio saúde à população mais desvalida.

De acordo com as estatísticas do Banco Mundial (BM), o crescimento estadunidense encontra-se abaixo de três cento por ano a datar de 2006, malgrado as taxas de desemprego reduzam-se a partir de 2011. Nos dias de hoje, ela se situa em torno de quatro e meio por cento, índice considerado baixo, ainda mais se comparado com o do Brasil.

De forma paralela, segmentos de comunicação de escol reverberam a fraqueza moral da presente gestão e também tecnológica do país, se confirmado o poderio da chamada doutrina Gerasimov – em referência ao oficial general chefe do Estado Maior da Rússia desde 2012 – alcunha destinada a caracterizar ações, ou melhor ingerências, algures pelo segmento da contrainformação através de meios recentes e sofisticados como o cibernético.

Saliente-se que na presumida enunciação original do ideário não há menção a elementos informáticos, porém ênfase a medidas não castrenses como o emprego de ações humanitárias ou econômicas. Apenas no corrente ano, o general cita a importância desse tipo de expediente em alguns acontecimentos ocorridos há pouco. Na prática, é a atualização de parte do tradicional conceito de hegemonia, ao incorporar recursos inéditos, haja vista a evolução dinâmica da teoria das relações internacionais.    

Destarte, o Kremlin de modo consciente teria auxiliado a disseminar informações ambíguas ou até falsas durante a campanha presidencial norte-americana de 2016, de sorte que pudesse defender seus interesses naquele território. No caso, observava-se o postulante republicano menos russófobo que a democrata, embora uns estimassem Donald Trump como simpático ao enigmático dirigente Vladimir Putin.

Especula-se que a desenvolta circulação digital seria a vingança de Moscou contra Washington por causa das emergências populares denominadas de revolução laranja, desencadeada próxima da fronteira russa entre 2004 e 2005 na Ucrânia, desde que se subscreva a convicção de que o governo norte-mericano estaria por trás desses movimentos, ao insuflá-los de forma indevida e sem considerar as aspirações da sociedade daquele país.  

Mesmo protestos como os da Estônia há uma década teriam sido objeto de preocupação moscovita, por considerá-los auxiliados por agentes do ultramar – a polêmica remoção de monumento de bronze alusivo à vitória da Segunda Guerra Mundial da União Soviética pelo governo estoniano desencadeou manifestações da comunidade russa nas quais houve dezenas de feridos e centenas de prisões.  

Assim, os futuros dirigentes da região do leste europeu sairiam da órbita do Kremlin para a da Casa Branca.  O objetivo da mudança seria o de ter acesso à vastidão de recursos naturais, em especial o do gás, e o de acossar a Rússia através de conexões militares com os Estados Unidos. Com a economia em declínio desde 2010, manter a estrutura castrense convencional tornou-se bastante difícil para a administração de Putin.

A preocupação de Moscou com sua preservação territorial, após a controvertida e desastrada gestão de Boris Yeltsin, e com a manutenção no poder de longevos governantes parceiros teria sido acentuada com duas confrontações na imensidão médio-oriental: a da Líbia, onde o ditador Muammar Gaddafi foi defenestrado de modo humilhante, e a da Síria, onde continua até hoje a peleja brutal pelo controle do país entre baatistas, integristas e democratas.

Aos olhos do Kremlin, seriam conflitos desiguais, distantes dos combates tradicionais em função do emprego maciço de informes incompletos ou da difusão de propósito distorcida de eventos via redes digitais por terceiros fora do próprio território em guerra. Em vista disso, espalham-se burburinhos acerca dos possíveis patrocinadores de ações como essas. Os murmúrios vão de gestões ocidentais a corporações do segmento energético ou bélico, por exemplo.  

Portanto, a manipulação eventual adquiriria patamar novo de repercussão, em virtude do alcance geográfico amplo e da velocidade de disseminação dos acontecimentos narrados – acesso imediato, ainda que seja a partir de uma simples conexão pública.  

Em 2014, Moscou apresentou seu roteiro por meio do qual interpelava de maneira incisiva a doação à Ucrânia da Crimeia pela União Soviética. A região havia sido destinada a ela em fevereiro de 1954 por Nikita Kruschev, primeiro-ministro soviético, tendo duas motivações incidentais: a identificação cultural entre os dois grandes territórios ou a celebração de trezentos anos de relacionamento político entre russos e ucranianos, a despeito dos constantes atritos.

Com a surpreendente desintegração do império comunista no encerramento do século passado, segmentos russos de feitio nacionalista ou até xenofóbo questionavam a perda da dilatada área, porém sem definir o caminho mais adequado para tratar do ocasional retorno: o diplomático de longo prazo ou o militar de execução breve.

Então, divulgou-se ao público a versão de que grupos de extrema direita perseguiam de maneira tenaz os russos, maioria da população, em solo crimeiano, sem a aguardada reação de contenção pelo governo ucraniano.

Diante da possibilidade eventual de massacre étnico, a contraparte russa teria decidido intervir e, por conseguinte, recuperar logo toda a província, com a finalidade de proteger a integridade de seus cidadãos ou descendentes e de manter-lhes também a identidade cultural. Destarte, esta teria sido a primeira ação de larga envergadura por Moscou. O êxito na intervenção da Crimeia, através da utilização da contrapropaganda, despertaria a atenção de expertos do Ocidente, apreensivos com futuras empreendidas.

A segunda teria sido a suposta intervenção na eleição presidencial norte-americana em 2016, ao constantemente vasculhar de forma cibernética dados reservados dos arquivos do Partido Democrata, observado como adversário mais temerário do que a agremiação republicana, e veiculá-las de modo seletivo nas redes sociais, com o propósito de desequilibrar a disputa em desfavor da candidata Hillary Clinton.

Por último, atribui-se à administração moscovita o monitoramento incessante em determinados sítios sociais e até profissionais, mesmo se localizados fora do país, com o propósito de neutralizar observações desairosas a seus principais dirigentes.

A atuação seria bem simples: contrapô-las com elogios desmedidos aos governantes ou com comentários desabonadores aos críticos, muitos dos quais militares reservistas ou espiões aposentados, desde que em atividade como consultores ou executivos de companhias de segurança ou de informação e análise.  

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: a aplicação incidental da doutrina Gerasimov, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 23/09/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23880>.
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