A Europa Oriental nas reinações da ZAPAD, por Paulo Pereira Pinto

ZAPAD, “Primeiro Exército de Tanques da Guarda” e “guerra hibrida” são algumas das palavras que constam do noticiário internacional recente e ressoam em Minsk, com relação a exercícios militares russo-bielorrussos a serem realizados em setembro próximo, como que, por si só, significassem que “fire and fury” (ameaça do Pres. Trump contra a Coréia do Norte) estão prestes a despencar sobre a fronteira da Belarus com três países membros da OTAN – Polônia, Lituânia e Letônia.

ZAPAD – versão no idioma russo para “Ocidente” – significa que a Rússia possui outros três grandes exércitos: o do Norte, o do Sul e o do Oriente. Tratando-se de manobras neste lado de sua fronteira, são utilizadas tropas da respectiva região.  O Primeiro Exército de Tanques da Guarda é uma tradicional unidade de combate, formada, em 1943, durante a URSS, cujo passado glorioso a levou a Berlim, na vitória soviética contra o nazismo. Sua participação das manobras do próximo mês, contudo, representando forte capacidade ofensiva, não garante que, agora, Moscou pretenda aproveitar a presença da mesma na Belarus, para invadir os Países Bálticos.

“Guerra hibrida”, segundo pude apurar, é conceito muito utilizado para descrever o acontecido na Ucrânia. Em suma, tratar-se-ia de agressão militar precedida por “supostas manobras de treinamento” e seguida por alianças com simpatizantes insuspeitos pelas autoridades do Estado a ser invadido, onde existiriam, também, estoques de armamentos e logística, disponíveis aos invasores.

Não se aplicaria à Belarus, que já está associada à Rússia, por uma “União de Estados”. As simpatias populares e dos governantes bielorrussos são conhecidas quanto aos vizinhos russos, mas o Governo de Minsk reafirma que não se prestaria como plataforma para eventual ataque de Moscou contra a OTAN. Ademais, autoridades da Belarus jamais demonstraram interesse em aderir à mesma OTAN, ao contrário do que acenaram dirigentes da Ucrânia, antes da interferência russa naquele país.

Verifica-se, contudo, que chefes militares e líderes políticos da América do Norte e Europa Ocidental demonstram e publicam, na mídia internacional, a convicção de que a ZAPAD 2017, além de “nome sinistro” é um “cavalo de Tróia”, que, no melhor “estilo hibrido” colocará milhares de soldados russos nas fronteiras com a OTAN, onde “deverão permanecer”. Ademais, os tais tanques de guarda só seriam recrutados para operações de guerra, não apenas para exercícios conjuntos.

Em defesa de intenções não hibridas de Moscou, que apresenta sua ZAPAD apenas como programa de treinamento contra eventuais agressões da OTAN, a imprensa simpática ao Kremlin ressalta que tais manobras ocorrem regularmente, a cada quatro anos, e que a de setembro próximo há muito estava prevista e divulgada com transparência. Procura-se convencer os leitores ser falsa a estimativa de capitais europeias de que 100.000 militares russos estariam envolvidos. Mesmo que haja confirmação de que a anterior, em 2013, contou com efetivo de 75.000, este número incluiria pessoal de apoio, além de combatentes, que então, como agora, não ultrapassariam a cifra de 13.000, convencionada em acordo no âmbito da OSCE.

Os analistas que se alinham à versão russo-bielorrussa insistem que a ZAPAD 2017 prevê “o aprimoramento da operacionalidade conjunta dos exércitos dos dois países, em diferentes níveis, a integração de tropas de elite e controle de sistemas de munições. Pretende, também, traçar novos planos de ações conjuntas e o treinamento de centros de comando, em diferentes estágios. Os exercícios serão divididos em duas etapas: o emprego das forças armadas e a defesa do território dos dois países”. Não se dispõe de confirmação, por enquanto, de que haverá treinamento para o emprego de armas nucleares. Em suma, os argumentos contrários seriam “fake news”, tudo uma grande histeria antirrussa, destinada, a incentivar o aumento de efetivos dos EUA na Europa Ocidental.

No momento, a Rússia mantém “dois estabelecimentos militares”, na Belarus. Moscou se esforça para classificá-los não como “bases”, mas apenas “facilities” (“obyekty” no idioma deles). Na cidade de Vileika – no Noroeste bielorrusso – encontra-se o quadragésimo terceiro centro de comunicações da marinha russa, desde 1964, onde, é divulgado, 350 elementos navais do país vizinho estão “estacionados”.  Em Hantsavichy, ao Sul, está instalado um “early warning radar” das Forças Aeroespaciais Russas, desde 2002, com efetivo de cerca de 2000 pessoas.

 A partir de 2009, no entanto, durante a presidência de Dmitry Medvedev, surgiu, em Moscou, a ideia da instalação de base aérea russa na Belarus, quando os dois países assinaram acordos para a proteção conjunta de suas fronteiras e sistema de defesa aérea compartilhada. Não houve, contudo, decisão final. Assim, a Rússia resolveu – aparentemente sem combinar com os bielorrussos – “estacionar” aviões seus, com pilotos próprios, neste país fronteiriço também com a OTAN. Em termos de equilíbrio de poderio militar regional, de acordo, s.m.j., com a perspectiva de Moscou, a iniciativa visaria ao retorno à situação existente, no início do milênio, quando Minsk dispunha de um “regimento operacional de jatos Sukhoi”, sob o seu comando. A diferença é que o novo projeto obedeceria a ordens da capital russa.

Após cuidadosa negociação, a Belarus considerou, inicialmente, a instalação da “hipotética base aérea” (ou seria “obyekty”) o mais longe possível de sua fronteira com a Polônia ou Países Bálticos, para se preservar de condenações de estar se alinhando demais com os russos. Em seguida, obteve redução no número de aviões militares que a Rússia gostaria de colocar aqui. Finalmente, em meados de 2015, Minsk recusou a instalação de qualquer “base aérea russa”, neste país. A negativa foi justificada com o fortalecimento da Força Aérea Bielorrussa, que recuperou seus aviões de combate antigos e, desta forma, reestabelecera o equilíbrio militar regional, conforme mencionado no parágrafo anterior.

Segundo dados disponíveis, a presença de tropas russas na Belarus – por enquanto – é inferior ao que ocorre em outros países que fizeram parte da ex-União Soviética, como o Tajiquistão e Armênia e acontecia na Criméia ucraniana, antes de 2014.

Conclui-se que, segundo divulgam Minsk e Moscou, a comentada ZAPAD visa a demonstrar a capacidade dos dois países de repelirem eventual ataque da OTAN, na medida em que ficarão demonstradas a preparação e habilidade de, com objetivos defensivos, coordenar e mobilizar múltiplos setores de suas forças armadas e apoio logístico. A mídia que representa a posição contrária, no entanto, continua a denunciar o “hibrido” de que os russos se aproveitarão das referidas manobras para chegarem ou ficarem mais próximos das fronteiras com Polônia, Lituânia e Letônia. Para o observador em Minsk, no momento, permanece a impressão de que, após os exercícios conjuntos, previstos há quatro anos, as forças russas “zarparão”, por vias terrestres, a suas bases de origem, talvez, com eventual, mas pouco provável acordo bielorrusso, reforçando suas “instalações militares” já existentes neste país.

Sobre o autor

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata, Embaixador do Brasil em Minsk, Belarus, a partir de 2015. Foi  Chefe do Escritório de Representação do MRE no Rio Grande do Sul (ERESUL), entre 2012 e 2014,  Embaixador do Brasil em Baku, Azerbaijão, entre 2009 e 2012, e Cônsul-Geral em Mumbai, entre 2006 e 2009. Serviu, a partir de 1982, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. Na década de 1970 trabalhou, na África,  nas Embaixadas em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique e foi Encarregado de Negócios em Pretória, África do Sul.  As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores.

 

Como citar este artigo

Mundorama. "A Europa Oriental nas reinações da ZAPAD, por Paulo Pereira Pinto". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/11/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23875>.

 

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