Crise Migratória na fronteira Brasil-Venezuela, por Fernando Xavier  

Este artigo visa refletir sobre a seguinte questão: será que a migração do povo Warao, fenômeno que se conecta à crise migratória na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, exige uma análise distinta do convencional?

Em minha tese de doutorado Migrações Internacionais na Amazônia Brasileira: impactos na política migratória e na política externa [1] servi-me largamente dos mitos que envolvem a saga dos argonautas[2] para evidenciar, por metáforas, aspectos que julgo importantes para a compreensão das migrações contemporâneas.

Segundo as lendas gregas, os argonautas são os aventureiros que partiram em um navio (a nau ‘Argos’) rumo à Cólquida, no sul do Cáucaso, em busca do ‘velocino de ouro’, a lã dourada de um carneiro mitológico. A primeira correspondência que evidenciei é que os migrantes, em sua maioria — como sustentam muitas teorias sobre migração (HARRIS; TODARO, 1970) — são pessoas que, como os argonautas, são atraídas por mitos e representações de riqueza e bem-estar, e estão dispostas a enfrentar muitas dificuldades e desafios, tal qual os argonautas, em busca do seu objetivo de prosperidade.

Entretanto, como a tese focou os imigrantes haitianos que então chegavam à Amazônia, eu estava preocupado em caracterizar um tipo diferente de migrante; um que se deslocava, migrava, não necessariamente após fazer um cálculo de custo-benefício e concluir que teria mais bens e riquezas se partisse. Daí que me ocorreu que a nau Argos contava com um tripulante que era diferente dos demais: Orfeu, o músico do barco, de quem sempre lembramos tocando a sua lira, cantando e declamando poemas. Não sendo historicamente preciso, de modo deliberado, redescrevi Orfeu como sendo um tripulante diferente, um “estranho no ninho”, que não estava interessado no velocino de ouro, e sim na própria experiência de viagem e de descobrir novos lugares, enquanto se ocupava de música e poesia.

Com vistas a esse personagem, descrevi muitos dos haitianos na Amazônia como “migrantes órficos”, pois acreditava que, diferentemente de muitos migrantes dos sécs. XIX e XX, eles não estavam interessados tanto em prosperidade material quanto, possivelmente, em emancipação e liberdade. Eles poderiam estar desejando, de modo proeminente, mais um ambiente democrático em que tivessem voz e fossem ouvidos, do que uma metrópole que lhes oferecesse as benesses do capitalismo.

Minha hipótese era a de que, por serem migrantes órficos, os haitianos já se dariam por satisfeitos com as pequenas cidades da Amazônia, as quais, embora pobres, teriam melhor infra-estrutura que a maioria das cidades haitianas — e, mais importante, dariam e eles mais liberdade, paz e segurança. Como não seriam argonautas típicos, os haitianos dispensariam os velocinos de ouro representados por São Paulo, Rio de Janeiro, Europa ou Estados Unidos. A imagem, em alguma página na internet, de um haitiano alegre tocando violão na praça central de uma cidade fronteiriça do Acre, logo após a sua chegada ao Brasil, pareceu dar alguma sustentação mínima para aquela hipótese. Entretanto, como tenha ficado claro, os fatos seguintes mostraram que minha tese estava errada. Há fortes evidências de que a maioria dos haitianos vindos ao Brasil na última década eram trabalhadores migrantes convencionais, que buscavam, como outros tantos, prosperidade material, muito mais do que simplesmente liberdade e paz.

Deve existir casos (envolvendo haitianos ou outros) de migrantes “órficos”, mas ainda é difícil fazer correspondência entre essa categoria de análise e processos migratórios de grande escala. Vale registrar que eles não se confundem com os refugiados, de vez que não estão fugindo de qualquer perseguição.

Tanto seja, o caso é que é difícil categorizar os indígenas Warao, da região caribenha do nordeste da Venezuela (na fronteira setentrional com a Guiana), que agora migram para o Brasil. Há cerca de 800 pessoas dessa etnia, em graus diferentes de aculturação, nas cidades de Pacaraima e Boa Vista (em Roraima) e Manaus (no Amazonas). Eles certamente não são “argonautas” convencionais, e também não guardam qualquer correspondência analítica com o Orfeu que eu descrevi. Alguém poderia, por impulso simplificador, querer defini-los como “pessoas fugindo da fome”. Porém, dizer somente isso não ajuda a entender por que eles se inseriram em um fluxo migratório que é mais amplo que eles. Por que não migraram ao Brasil já nas primeiras crises de abastecimento em suas comunidades, anteriores a 2010? Por que não migraram para outro país relativamente mais próximo (Colômbia ou Guiana)? Por que chegaram já a Manaus e parecem estar dispostos a ir além? É evidente que para onde foram e até onde chegaram têm a ver com a conjuntura desses lugares (o quanto foram mais ou menos receptivos a eles), mas têm a ver também com o animus dos Warao enquanto imigrantes. Muitas pessoas já os entrevistaram, mas acredito que nenhuma entrevista ou pesquisa chegou ainda ao âmago, à razão que permita tanto explicar por que eles agora estão migrantes no Brasil, quanto categorizá-los como um tipo especial de imigrantes ou deslocados.

Notas

[1] A tese pode ser encontrada no Repositório Institucional da Universidade de Brasília: < http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/10739/1/2012_Fernando%20Cesar%20Costa%20Xavier.pdf>.

[2] No famoso texto de Bronislaw Malinovski Os Argonautas do Pacífico Ocidental (publicado pela primeira vez em 1922), a despeito do título, a metáfora é explorada muito indiretamente pelo antropólogo polonês para traçar uma etnografia das populações costeiras das Ilhas dos Mares do Sul (em especial os Papuas-Melanésios), com foco na expertise delas em navegação e comércio.

Referências

HARRIS, John R.; TODARO, Michael. Migration, unemployment and development: Two-sector Analysis. The American Economic Review, v. 15, p. 126-142.

XAVIER, Fernando César Costa. Migrações Internacionais na Amazônia Brasileira: impactos na política migratória e na política externa. 2012. 192 f. Tese (Doutorado em Relações Internacionais e Desenvolvimento Regional) – Programa de Pós-Graduação interinstitucional da Universidade de Brasília/FLACSO-Brasil/UFRR, Brasília, 2012.

Sobre o autor

Fernando César Costa Xavier é professor adjunto no Instituto de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Roraima – ICJ/UFRR. Email: fxavier010@hotmail.com

Como citar este artigo

Editoria Mundorama. "Crise Migratória na fronteira Brasil-Venezuela, por Fernando Xavier  ". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/08/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23804>.

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