O “novo normal” crescimento chinês e a transição para a economia de serviços, por Jean Lima

 

Nas últimas décadas, os impactos do crescimento chinês sobre a economia global foram enormes, participando e promovendo uma restruturação da divisão internacional do trabalho, incentivando a redução dos preços dos bens manufaturados e os ganhos financeiros dos exportadores de commodities, para mencionar alguns exemplos. A China contribuiu mais ao crescimento da economia global do que sua própria parcela do PIB na economia global.

No entanto, o crescimento a dois dígitos que estimulou com grande intensidade essas mudanças parece não ser mais uma realidade. Tanto que o presidente Xi Jinping declarou que a China ingressou em um período chamado “novo normal”. Considerando o crescimento real do PIB, o FMI projeta uma continuidade da desaceleração do país para os próximos cinco anos, reduzindo a sua distância das taxas de crescimento mundial, conforme a figura abaixo.

Figura – Crescimento real do PIB (variação % anual)

Fonte: Elaboração própria, com base nos dados do FMI.

Com a desaceleração da demanda global e frente aos “ataques” ocidentais a aspectos da globalização, o governo chinês tem defendido a abertura do comércio global, o que supostamente poderia compensar em parte as tendências de desaceleração do comércio de mercadorias e da produção industrial. Em termos de valor adicionado no PIB, a indústria representou em 2016 pouco menos de 40% do PIB, contra 47% em 2006. Já os serviços, desde 2015, passaram a compor a mais de 50% do PIB, contra 41% em 2006, segundo dados do Banco Mundial.

O crescimento deverá ser dirigido por inovação e pelo consumo doméstico, com um modelo menos voltado ao investimento, o que tende a moderar as taxas de crescimento. Como destacado pelo Fórum Econômico Mundial (2015), “os fatores que alimentaram o crescimento chinês – investimentos, baixos salários e urbanização – estão produzindo rendimentos decrescentes ou desaparecendo”.

O grande crescimento chinês e o acesso do país à OMC em 2001 criaram expectativas quanto à demanda, o que incentivou grandiosos investimentos. No entanto, com a desaceleração nos últimos anos, há uma noção compartilhada de excesso de capacidade instalada na indústria. Une-se a esses excessos, o setor habitacional, pois a especulação imobiliária decorrente das expectativas de alto crescimento e da migração da população do campo para a cidade em ritmo acelerado fez com que o ritmo das construções urbanas superasse o ritmo do próprio crescimento da população urbana. Não é à toa, que o fenômeno deu origem às “cidades fantasmas”, que, senão completamente vazias, possuem número de habitantes muito aquém das expectativas.

Desde 2008 os investimentos têm se mantido acima de 40% do PIB chinês. Além dos excedentes produzidos mencionados, uma alta taxa de investimentos físicos pode não ser tão essencial numa época em que parecem crescer os componentes intangíveis na economia. Dentre os setores com queda estão aqueles relacionados a grandes investimentos, como as vendas de propriedade e construções; e aqueles com tendência de crescimento estão mais vinculados aos serviços e ao consumo, como os setores de cuidados com a saúde, educação e entretenimento (WILDAU, 2015).

A nova etapa da economia chinesa fica ainda mais evidente quando se analisa a dinâmica do mercado trabalho e dos salários. Segundo reportagem do Financial Times (2016), o salário médio mensal do trabalhador chinês que migrou para as cidades em busca de emprego subiu de algo em torno de US$ 200 no quarto trimestre de 2008 para US$ 460 no quatro trimestre em 2015, ainda que considerado baixo para padrões internacionais.

Os custos de produção aumentaram nos últimos anos. Cogita-se, inclusive, que os aumentos salarias na China farão com que haja uma maior concorrência do México no processo global de montagem manufatureira (o que também por si só demonstra como a inserção desse último país nas cadeias de valor, sobretudo quando realizada por meio de maquiladoras, se faz de forma um pouco precária). Esse aumento de custos motivou a China e as demais nações que investiram no país a implantar processos de produção no chão de fábrica em outros países asiáticos como Vietnã, Índia, Tailândia e Indonésia. Um dos grandes desafios será o de incorporar a população chinesa de baixa qualificação na nova economia.

A dinâmica dos ganhos salariais mostra claramente o setor de serviços como o presente/futuro da economia chinesa. Apesar do aumento citado até 2015, os aumentos salariais nas províncias têm sido mais moderados desde então, com elevações no salário mínimo mais tímidas comparadas à última década, sobretudo no setor manufatureiro. Conforme Jayaran (2017), o setor que paga os melhores salários estão relacionados a serviços profissionais e consultoria (nos setores de finanças, contabilidade, jurídica e RH). Os empregos até aqui em 2017 com os maiores salários mensais foram aqueles ocupados pela gerência/administração sênior e gerenciamento de TI/coordenação de projetos. Já o crescente setor da internet e e-commerce se apresenta no topo da lista dos setores com maiores vagas de emprego (JAYARAN, 2017). De certa forma, os salários mostram a dimensão de como os serviços ditarão a dinâmica da produtividade e do crescimento no novo modelo econômico.

Referências bibliográficas

FINANCIAL TIMES. (2016). The end of the Chinese miracle. March 8. Disponível em: https://www.ft.com/video/db38e99c-c699-3bff-8639-b9fb9bbbd719. Acesso em: 19 jul. 2017.

FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL. (2015). The Global Competitiveness Report 2015–2016. Geneva: WEF. Disponível em: <http://www3.weforum.org/docs/gcr/2015-2016/Global_Competitiveness_Report_2015-2016.pdf>. Acesso em: 22 jul. 2017.

JAYARAM, Savita V. (2017). ‘Slow Down in Salary Growth of White-Collar Workers in China in Q1 2017’. HR in Asia. 14 Abr. Disponível em: <http://www.hrinasia.com/hr-news/slow-down-in-salary-growth-of-white-collar-workers-in-china-in-q1-2017/>. Acesso em: 19 jul. 2017.

WILDAU, G. (2015). ‘China services sector key to growth’. Financial Times, 6 dez. Disponível em: <https://www.ft.com/content/0f6f0018-9817-11e5-bdda-9f13f99fa654>. Acesso em: 23 jul. 2017.

Sobre o autor

Jean Santos Lima é Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (jeanlima.91@gmail.com).

Como citar este artigo

Mundorama. "O “novo normal” crescimento chinês e a transição para a economia de serviços, por Jean Lima". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 19/10/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23781>.

 

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