A inserção de Israel na agenda da Índia: Para além dos Estados Unidos, por Luciane Noronha

Logo antes da última reunião da Cúpula do G20, que reuniu as vinte maiores economias mundiais na Alemanha, outro evento esteve em foco na mídia internacional: a ida do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, a Israel, no início de julho. Como primeiro chefe de Estado do país sul-asiático a visitar Tel Aviv desde 1992, o encontro com Benjamin Netanyahu esteve cercado de expectativas antes, durante e após as reuniões diplomáticas.

A aproximação indo-israelense e a cordialidade das relações no âmbito do diálogo Modi-Netanyahu foram interpretadas, de modo geral, como uma tentativa da Índia em manter o bom trânsito com os Estados Unidos após a eleição de Donald Trump e das incertezas internacionais que decorrem de tal fato. Todavia, ao se analisar mais cuidadosamente as fases da política externa indiana para a Israel desde 1947 e, principalmente, a partir da eleição de Narendra Modi (2014), percebe-se que tal análise já não é suficiente para justificar a dimensão de Israel na política externa da Índia para o Oriente Médio, no cenário corrente.

O propósito deste artigo é apresentar a aproximação indo-israelense sob a ótica do projeto de poder da Índia, que visa à sua ascensão ao status de “grande potência”. O argumento central é que tal relação, nos últimos anos, serve, principalmente, ao anseio indiano em fazer-se presente no Mediterrâneo, seja para exploração de petróleo e gás ou para acessar os mercados europeus. Neste sentido, Nova Délhi busca firmar novas parcerias – como Israel –, de modo a facilitar seu trânsito na região com a qual mantém, historicamente, laços pouco estáveis. A relevância do tema pode ser representada pelo fato da Índia ser, atualmente, um emergente econômico e militar que busca, paulatinamente, expandir sua influência nas relações internacionais.

A política externa indiana para Israel pode ser dividida em três fases: oposição, aproximação calculada e normalização. A primeira, adotada ainda durante a Guerra Fria, encaixa-se na narrativa de solidariedade com a causa palestina, no âmbito do não-alinhamento e do apoio ao direito de autodeterminação dos povos, especialmente durante o governo de Jawaharlal Nehru (1947-1964). Ainda que tais ideias tenham perdido força, na prática, após a década de 1960, não houve movimento político, por parte da elite política da Índia, para estabelecer plena diplomacia com Tel Aviv. Em parte, o afastamento era um reflexo da postura anti-Ocidente que permeava o discurso indiano à época.

Com o fim da Guerra Fria e a reformulação das bases da política externa da Índia, pautada a partir da década de 1960 na relação com a União Soviética, discute-se, então, a reaproximação com os Estados Unidos. Com a resistência imposta pelos líderes norte-americanos, devido ao impasse quanto às aspirações nucleares da Índia, uma das soluções encontradas foi iniciar o diálogo a partir de Israel. Em 1992, foi estabelecida a relação diplomática formal entre os dois países. A aproximação calculada, nesse sentido, refere-se ao fato de que o país, que goza de posição de destaque na política dos Estados Unidos para o Oriente Médio, servia de ponte política para o real interesse de Nova Délhi: ganhar a confiança de Washington e mostrar-se um país comprometido com a ordem internacional.

Nos primeiros anos do século XXI, a relação indo-israelense passou a ser fortalecida, por meio de acordos principalmente na área de Defesa e, em menor escala, na agricultura. Com o embargo norte-americano referente à venda de alguns tipos de equipamentos militares israelenses à China, a Índia surgiu como novo mercado e, atualmente, é o principal cliente da indústria de Defesa de Israel. Este último, por sua vez, é o terceiro maior fornecedor de armamentos para o país sul-asiático (7.2% do total), atrás da Rússia (68%) e dos Estados Unidos (14%), segundo o último relatório do SIPRI.

A partir do governo de Narendra Modi (2014-), a normalização da relação indo-israelense reflete tanto o progresso feito a partir de 1990, quanto a nova postura mais pragmática e multialinhada do atual primeiro-ministro indiano. Embora os Estados Unidos ainda seja uma variável importante a ser considerada nessa questão, faz-se notório que a agenda bilateral entre Nova Délhi e Tel Aviv assume contornos menos vulneráveis a influências externas. A convergência de interesses pode ser representada por diversos exemplos, como o fim da solidariedade palestina, visível na mudança do posicionamento indiano neste tema nas Assembleias da ONU; ou pelo discurso de Modi que equipara a ameaça Talibã, na Caxemira, ao Hamas.

Considerando o projeto de poder da Índia como um todo, a aproximação com Israel representa tornar mais um país cordial à presença indiana no Mar Mediterrâneo, entendido como área de interesse do país sul-asiático, por quatro motivos centrais. Em primeiro lugar, nos últimos anos, o país passou a procurar novas regiões para exploração de petróleo de gás, a fim de diminuir a dependência do instável Golfo Pérsico, que responde por cerca de 68% do suprimento total de hidrocarbonetos para o subcontinente, atualmente. Um dos novos focos potenciais de investimento deste setor é o Mediterrâneo, em países como a Líbia e a Síria. Neste último caso, entende-se a necessidade da cultivação de boas relações com o governo israelense: a Índia, historicamente, apoia o pleito sírio no conflito em torno das Colinas de Golã. Soma-se a isso a sua retomada de atividades exploração de petróleo e gás na Síria, ainda este ano, anunciada menos de uma semana após o encontro entre Modi e Netanyahu. Com isso, torna-se importante reforçar o multialinhamento e a parceria com Israel, devido à sua localização privilegiada próxima ao Canal de Suez, de modo que a segurança energética indiana não seja afetada, de alguma forma, por mal entendidos diplomáticos.

Em segundo lugar, a Índia busca consolidar seu mercado consumidor na Europa, o que coloca, mais uma vez, o Mediterrâneo no centro das atenções, por ser a rota marítima mais curta para chegar ao continente. Nas últimas visitas realizadas por Narendra Modi a alguns países Europa, pouco antes de sua ida a Israel, retornou à pauta a assinatura do acordo de Livre Comércio Índia-União Europeia, em discussão há alguns anos. A possível intensificação do comércio com o velho continente representaria, por conseguinte, maior tráfego pelo Canal de Suez e o mar supracitado.

Em terceiro lugar, Israel representa mais um parceiro interessante para o setor de Defesa indiano. Embora o foco da relação entre ambos, neste setor, ainda seja o programa de mísseis e de veículos não-tripulados (UAVs, da sigla em inglês), a tendência é que a cooperação técnica seja fortalecida. Para a Índia, maior importador de armamentos do mundo, este cenário interessa para diminuir suas aquisições da Rússia. O quarto e último aspecto se refere à cooperação técnica em agricultura. Considerando a temática da segurança alimentar indiana, cada vez mais presente na pauta do atual governo, Nova Délhi espera aprender com a experiência de Israel no cultivo em áreas secas e desérticas, de modo a aumentar sua produção interna de alimentos. No 22º país com maior pontuação no mundo do Global Hunger Index de 2016, a maior população total de famintos no mundo, e que deverá ter a maior população mundial em 2022, a busca por tais parcerias passa a ser enfatizada como uma questão de sobrevivência do Estado e de coesão social interna.

Com isso, conclui-se que a parceria estratégica firmada entre Índia e Israel, do ponto de vista do primeiro país, já não se limita ao tradicional cálculo de poder que considera o segundo um mero ponto de ligação entre Nova Délhi e Washington. A partir da normalização da relação bilateral indo-israelense, o país sul-asiático em ascensão no cenário internacional busca expandir sua área de influência. Nesse sentido, a Índia espera salvaguardar seus interesses nacionais fora da esfera tradicional do Oceano Índico, de modo a garantir sua segurança energética e alimentar, o incremento do potencial mercado consumidor para os produtos indianos, e a diversificação dos parceiros do setor de Defesa. Todas estas questões podem ser resumidas sob o objetivo último da política de poder da Índia: tornar-se uma das próximas grandes potências mundiais.

 

Referências

CHAULIA, Sreeram. Modi Doctrine: The Foreign Policy of India’s Prime Minister. Nova Délhi: Bloomsbury. 2016

INTERNATIONAL FOOD POLICY RESEARCH INSTITUTE. Global Hunger Index 2016: Getting to Zero Hunger. Washington, DC/Dublin/Bonn: IFPRI. 2016.

KAPUR, Harish. Foreign Policies of India’s Prime Ministers. Nova Délhi: Lancer International. 2009.

THE HINDU. India tops world hunger list with 194 million people, 28 de maio de 2015. Disponível em: http://www.thehindu.com/news/national/india-is-home-to-194-million-hungry-people-un/article7255937.ece. Acesso em 11/07/2017.

Sobre a autora

Luciane Noronha é Mestre em Estudos Marítimos pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos (PPGEM) da Escola de Guerra Naval e pesquisadora de Sul da Ásia do Núcleo de Avaliação de Conjuntura (NAC), pela mesma instituição (luciane562@hotmail.com).

Como citar este artigo

Mundorama. "A inserção de Israel na agenda da Índia: Para além dos Estados Unidos, por Luciane Noronha". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 23/09/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23751>.
Print Friendly, PDF & Email

Seja o primeiro a comentar

Top