Rússia: da recreação com o Brasil à concentração com a Síria, por Virgílio Arraes

Por poucos momentos na segunda metade de junho, o Kremlin destinou pequena atenção ao Planalto em face da visita do incomum presidente Michel Temer a Moscou. Com parco índice de popularidade, já superior ao da inaudita predecessora, o mandatário brasileiro optou por viajar à Rússia em período de controvérsia entre o vasto país euroasiático e os Estados Unidos, encabeçados por espalhafatoso dirigente.

Combalida em termos financeiros, depois de quase quatro anos de estagnação econômica, Brasília não pôde sequer apresentar a Moscou sinalização real de comércio bilateral. Por exemplo, há anos o Ministério da Dideefesa corteja o da Rússia com o propósito de adquirir o sistema de defesa aérea Pantsir-S1, operacional em solo local desde 2012, porém, por causa da severa recessão, o galanteio não se materializa em aquisição, mesmo parcelada.

De maneira inicial, a eventual compra seria justificada em decorrência do grau de segurança aguardado para a Copa do Mundo de 2014, bem distribuída de modo geográfico em território pátrio. Frustro o contrato para aquela competição, cogitou-se para a seguinte, a Olimpíada de 2016, realizada no Rio de Janeiro.

De novo, o desapontamento da administração russa. Sem tal infraestrutura prévia, o Planalto pretendia corrigir a específica insuficiência militar com o apoio do Kremlin, ao vislumbrar uma parceria duradoura, com a almejada transferência de tecnologia. O primeiro acolhimento da sofisticada equipagem custaria cerca de meio bilhão de dólares para três unidades de baterias de misseis.

Sem possibilidade de estreitar o convívio econômico castrense e sem desejo de intensificar a aproximação política com o Brasil no momento, em vista da significativa ausência de prestígio do titular do Planalto, a Rússia voltou a concentrar-se na Síria em decorrência das recentes manobras dos Estados Unidos.

Ataques de foguetes norte-americanos foram direcionados ao sul do território sírio há poucos dias. A preocupação estadunidense decorreria da proximidade geográfica daquela região à Jordânia, de onde saíram os disparos, e Iraque.

Nesse sentido, o objetivo seria dificultar o controle da área, onde há grupos apoiados por Washington, pela ditadura de Bashar Al Assad, sobrevivente da confrontação civil há meia década graças ao auxílio constante de Vladimir Pútin.

Seria especular o afirmar de eventual divisão do território siríaco como desfecho possível para encerrar a peleja. Todavia, a pressão volta-se para a defenestração do ditador ou indo adiante do próprio partido Baath; assim, não haveria composição futura após o fim do presente confronto.

A insistência da Casa Branca em afrontar a movimentação militar do Kremlin em solo sírio originar-se-ia de problemas internos de intensidade grave. Se na campanha eleitoral Donald Trump indicou a possibilidade de maior aproximação com o antigo rival do conturbado período bipolar, hoje a conjuntura é-lhe muito desfavorável para tal intento. Logo, os republicanos precisam distanciar-se de forma incisiva.

Aos olhos dos formuladores washingtonianos, o encaminhamento mais adequado no momento é reviver à provinciana opinião pública local a imagem de um adversário temível como na fase da Guerra Fria. O poderio russo não se resumiria ao estoque nuclear e às forças convencionais, elementos básicos para a disputa na política internacional.

A capacidade cibernética seria o acréscimo aos dois fatores tradicionais mencionados. No entanto, não como fim, mas como meio por possibilitar a aplicação de contrainformação em plano  sofisticado e até em períodos de paz. Assim, a eventual manipulação de dados chegaria a patamar assaz elevado e, simultaneamente, mais disperso.

Ao invés de caríssimos bombardeios reais, haveria os virtuais, de custo muito barato, contra os quais a maioria da sociedade tem pouco tempo para refletir com acuidade e, desta maneira, proteger-se de forma suficiente de imposturas por meio das quais, por sua vez, mentiras cruas, boatos elaborados, exageros ou minimizações sobre eventos reais circulariam de modo bastante intenso, graças à dimensão agigantada das redes sociais.

Na conjugação do arsenal existente com o novo, existiria a agora chamada guerra híbrida. Poder–se-ia substituir, por exemplo, o massacre físico onde há a utilização de torturas ou encarceramentos pelo digital – sega de reputação onde políticos, militares, diplomatas e quejandos não têm instrumentos para proteger-se à altura. O abalo psicológico, individual ou coletivo, pode prejudicar o processo de tomada de decisão.     

A evocação serve para influenciar o Congresso a conceder verbas suplementares aos projetos do Pentágono, vez que a oposição férrea ao terrorismo já teria sido incorporada ao planejamento regular, e atestar o compromisso do presidente boquirroto com o interesse nacional.

Além disso, o Senado aprovou por ampla maioria projeto de lei com a finalidade de ampliar a extensão das sanções contra a Rússia – Bernie Sanders, disputante das últimas primárias do Partido Democrata, foi um dos dois legisladores contrário a ela. A medida encontra-se na Câmara dos Deputados para avaliação.   

Com o propósito de aumentar o espectro russo à alarmada população norte-americana, dispõe-se a anexação da Crimeia de março de 2014, ofertada à Ucrânia em 1954 dentro da configuração da extinta União Soviética, como prova da expansão imperialista da gestão autoritária do dueto Putin-Medvedev. A ampliação dos investimentos militares também é demonstrada como elemento da intenção firme da atual administração.

O ideário integrista persiste na vastidão médio-oriental, porém sua materialização, encabeçada pela organização autodenominada Estado Islâmico, dificulta-se, haja vista a insuficiência de recursos financeiros e de mão de obra qualificada para recuperar as cidades devastadas, em especial a infraestrutura no segmento de saúde e de educação.

Mesmo no Iraque, o retrocesso militar dos fundamentalistas é visível, embora não possa o governo prescindir lá do sustento das forças armadas estadunidenses.

Sem vislumbre imediato de recobramento, a adesão do povo aos novos conquistadores, em que há a participação de inúmeros estrangeiros, ou ao menos a indiferença cotidiana à sua presença não ocorre.  

O recente incremento da atividade norte-americana teve como contrapartida a iraniana, ao lançar misseis no leste da Síria contra milícias extremistas. Destarte, diversas forças externas podem por avaliações diplomáticas isoladas prolongar aquela guerra civil.

Outrossim, adicionem-se de forma interna as justificadas considerações de autonomia – aos setores mais exaltados, as de independência – por parte dos curdos, esquecidos ou ignorados ao longo do tempo em suas aspirações próprias.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: da recreação com o Brasil à concentração com a Síria, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 18/11/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23717>.
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