Os BRICS e a distribuição de poder na mídia global, por Diogo Ives

Em 7 e 8 de junho, foi realizado, em Pequim, o I Fórum de Mídia dos BRICS, evento que reuniu representantes de 27 grupos de imprensa dos cinco países-membros para elaborar uma plataforma de diálogo que promova, segundo seu lema, “justiça na opinião pública mundial” (XINHUA, 2017). O fórum resultou na elaboração de um plano de ação em torno de seis objetivos: afirmar um espaço para os BRICS nas redes internacionais de comunicação, desenvolver mídias digitais, prover serviços de informação financeira, fortalecer o senso de responsabilidade social dos órgãos de mídia, promover interações entre os povos e trabalhar pela expansão da cooperação. Para sustentar a iniciativa, foi criado o Fundo de Mídia dos BRICS, que contará com um capital inicial de US$ 1 milhão, investido pela agência chinesa de notícias Xinhua (XINHUA, 2017b).

Liu Yunshan, membro do Politburo chinês, declarou que o estímulo a esse tipo de cooperação tem a intenção de “contar boas histórias dos BRICS e injetar mais energia positiva” a respeito da coalizão, dado que haveria, na mídia global, “muitas vozes que são céticas e interpretam erroneamente as perspectivas de desenvolvimento” dos cinco países (XINHUA, 2017c). Liu também indicou que passos seguintes na estratégia podem incluir o intercâmbio de jornalistas, a condução conjunta de entrevistas, a criação de prêmios na área e o estabelecimento de um escritório do bloco dedicado a ela (XINHUA, 2017d). No plano de ação, constam ainda as disposições de coproduzir declarações de imprensa sobre assuntos internacionais relevantes, criar canais de televisão, coordenar a formulação de tópicos a serem transmitidos, aproximar think tanks e ampliar o senso de uma identidade dos BRICS (XINHUA, 2017e).

O fórum foi uma sequência da Cúpula de Mídia dos BRICS, realizada entre 30 de novembro e 1º de dezembro de 2015, também em Pequim. Esta cúpula foi proposta pela Xinhua em parceria com a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), do Brasil; Russia Today, da Rússia; Hindu Group, da Índia; e Independent Media, da África do Sul (XINHUA, 2015). Na ocasião, o presidente da Xinhua, Cai Mingzhao, declarou que as mídias dos BRICS deveriam aumentar sua presença internacional para “salvaguardar o interesse comum de mercados emergentes e dos países em desenvolvimento” (XINHUA, 2015b). Em 2017, Cai acrescentou que “a popularização da informação quebra o monopólio da informação tradicional e nos coloca na mesma linha de ação dos Estados Unidos e de países europeus” (XINHUA, 2017c).

Em estudo publicado em 2015, intitulado Mapping BRICS media, Nordenstreng e Thussu apostavam que os cinco países emergentes tentariam ganhar espaço no sistema internacional de mídia devido à sua tendência inerente de confrontar a hegemonia de instituições ocidentais em favor de uma maior distribuição de poder, à semelhança do que o Movimento Não-Alinhado (MNA) havia tentado fazer nos anos 1970. Durante a primeira década de existência dos BRICS, seu foco de ação recaiu na reforma dos organismos econômicos criados na Conferência de Bretton Woods de 1944 – Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional –, relembrando desejos do MNA de fundar uma Nova Ordem Econômica Internacional, que daria mais autonomia aos países em desenvolvimento.

Paralelamente, a mídia global, nesses anos, continuou dominada pelos Estados Unidos, líder na promoção de notícias, entretenimento, softwares e hardwares de comunicação. O enorme soft power para difundir o estilo de vida estadunidense cresceu sobretudo após a liberalização mundial dos fluxos econômicos nos anos 1990 ter facilitado a penetração de suas companhias em mercados anteriormente fechados à sua influência e levado à difusão de dispositivos eletrônicos que ampliaram a informação de massa. Diante desse cenário, Nordenstreng e Thussu (2015) entendem que a segunda década dos BRICS poderia recuperar a agenda da Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, também avançada pelo MNA, que estendia a noção de colonização ocidental à esfera da cultura e defendia políticas nacionais de mídia.

Da perspectiva brasileira, ainda não está claro qual empresa lideraria a estratégia no âmbito doméstico. Se, na cúpula de 2015, a EBC recebeu status destacado nos trabalhos, nas discussões do fórum de 2017 tal deferência foi dada ao Grupo CMA, empresa privada especializada em notícias do mercado financeiro com presença em mais de 30 países (CMA, 2008). No plano de ação, o Grupo CMA consta como articulador do fórum ao lado das companhias anteriormente mencionadas, ao passo que a EBC aparece apenas como presente, junto a Correio Braziliense, Monitor Mercantil, Grupo Estado e Valor Econômico. Os demais participantes foram People’s Daily, China Daily, China Central Television, China Radio International, TASS Russian News Agency, Rossiyskaya Gazeta, Russia Today TV, Interfax Information Services Group, Press Trust of India, India Today Group, ABP News Network, Indo-Asian News Service, Media 24, Independent Online, Sunday Tribune, Times Media e E Media Investments (XINHUA, 2017e).

O envolvimento de empresas nacionais na estratégia de mídia do BRICS, mesmo que inicialmente privadas, pode levar à atenuação do que Samuel Pinheiro Guimarães chama de “vulnerabilidade ideológica” do Brasil. No seu livro Desafios brasileiros na era dos gigantes (2006), o diplomata defende a necessidade de se conceber um projeto desenvolvimentista que leve em consideração, para além de assimetrias econômicas e militares, a disparidade de poder ideológico que os diferentes países têm no sistema internacional para impor uma visão interpretativa da realidade, a qual seria essencial, por sua vez, para se pensar inserções no mundo.

Guimarães também vê o poder ideológico como estando concentrado atualmente nos Estados Unidos, onde a imprensa, o governo e as universidades propagam teorias neoliberais que são reproduzidas em outras sociedades e apoiadas pela população sem que seja oferecida a esta um contraponto crítico na mesma escala. As consequências, para o Brasil, seriam um déficit democrático no debate sobre os rumos do país e a continuidade da economia em uma posição desvantajosa na divisão internacional do trabalho. Se amparada pelo poder público, a proposta dos BRICS no campo da mídia pode vir a funcionar como um estímulo a mudanças na linha ideológica predominante dos veículos brasileiros e a debates maiores sobre a sua diversificação no futuro.

 

Referências

CMA. CMA chega aos 35 anos dominando 91% dos sistemas de negociações eletrônicas nas bolsas nacionais. CMA. Publicado em agosto de 2008. Disponível em http://www.cma.com.br/marketingCMA/CMA/marketing/imprensa/releases/release11.html. Acesso em 16 de junho de 2017.

GUIMARÃES, Samuel Pinheiro. Desafios brasileiros na era dos gigantes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.

NORDENSTRENG, Kaarle; THUSSU, Daya Kishan. Mapping BRICS media. Nova York: Routledge, 2015.

XINHUA. 2015. BRICS media leaders gather in Beijing for cooperation. Xinhua. Publicado em 1º de dezembro de 2015. Disponível em http://news.xinhuanet.com/english/2015-12/01/c_134872300.htm. Acesso em 16 de junho de 2017.

________. 2015b. BRICS media urged to enhance int’l presence. Xinhua. Publicado em 1º de dezembro de 2015. Disponível em http://news.xinhuanet.com/english/2015-12/01/c_134872998.htm. Acesso em 16 de junho de 2017.

________. 2017. BRICS Media Forum to be held in Beijing next week. Xinhua. Publicado em 3 de junho de 2017. Disponível em http://news.xinhuanet.com/english/2017-06/03/c_136337626.htm. Acesso em 16 de junho de 2017.

________. 2017b. Xinhua sets up BRICS Media Fund. Xinhua. Publicado em 7 de junho de 2017. Disponível em http://news.xinhuanet.com/english/2017-06/07/c_136347237.htm. Acesso em 16 de junho de 2017.

________. 2017c. BRICS media united on action plan. Xinhua. Publicado em 8 de junho de 2017. Disponível em http://news.xinhuanet.com/english/2017-06/08/c_136350514.htm. Acesso em 16 de junho de 2017.

________. 2017d. BRICS media leaders gather in Beijing for practical cooperation. Xinhua. Publicado em 7 de junho de 2017. Disponível em http://news.xinhuanet.com/english/2017-06/07/c_136347643.htm. Acesso em 16 de junho de 2017.

________ 2017e. Action plan of promoting BRICS media cooperation. Xinhua. Publicado em 8 de junho de 2017. Disponível em http://news.xinhuanet.com/english/2017-06/08/c_136350356.htm. Acesso em 16 de junho de 2017.

Sobre o autor

Diogo Ives é doutorando em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – IESP-UERJ (diogoives@gmail.com).

Como citar este artigo

Mundorama. "Os BRICS e a distribuição de poder na mídia global, por Diogo Ives". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 23/09/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23698>.
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