Rússia: embaraço ao poderio dos Estados Unidos, por Virgílio Arraes

Laços diplomáticos estreitos entre Washington e Moscou devem existir no cotidiano, a despeito do perfil dos governantes, até em decorrência da estrutura militar nuclear e da extensa geografia de ambas as superpotências.

Na administração de Barack Obama, em virtude da política externa incisiva do Kremlin em direção à Ucrânia, recomposição territorial por causa da Crimeia, e Síria, necessidade de reconfiguração geopolítica, o relacionamento havia-se desgastado.

A materialização do distanciamento foi a aplicação de sanções econômicas em julho de 2014 nos ramos energético, militar e bancário. Acompanharam a medida da Casa Branca União Europeia, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

Durante a disputada campanha do ano passado, o espalhafatoso sebastianista Donald Trump advogava ao eleitorado a modificação da relação dos Estados Unidos com a Rússia. O estremecimento deveria ser superado em vista de temas mais importantes como a oposição ao terrorismo fundamentalista.

Além da suspensão da punição material, outro ponto de interesse russo vinculava-se com o hipotético posicionamento norte-americano diante da atuação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

O arrebatado candidato republicano defendia maior divisão dos custos de operação entre os componentes da instituição, quase três dezenas, posicionamento, caso aplicado, limitador de futura ampliação rumo ao leste europeu.

Todavia, depois da posse no cargo em janeiro, não foram de suas promessas o motivo de acerba polêmica atual sobre sua visão acerca da interação com o adversário europeu desde o tempo da Guerra Fria.

No momento, objetiva-se esclarecer qual tipo de vínculo se havia pretendido firmar entre o governo de Vladimir Putin e o dele, Trump, antes da assunção à titularidade presidencial, no alvorecer de dezembro de 2016.

A princípio, a conexão havia sido feita entre o embaixador russo, Sergey Kislyak, e o genro do empresário, hoje assessor bem graduado da presidência da República, Jared Kushner, e Michael Flynn, oficial general da reserva, por meras semanas titular do posto da assessoria de Segurança Nacional. Um representante de banco submetido à punição teria sido também contactado pelo familiar do dirigente-mor norte-americano.

Chama a atenção dos meios de comunicação – e de instâncias de investigação – o fato de ter-se utilizado a embaixada russa como o proscênio dos eventuais encontros bilaterais. Sem dúvida, compreende-se a discrição, mas não o local escolhido pela equipe do mandatário eleito.

Em que pese a inexperiência diplomática do grupo de Trump, ela não poderia ser invocada como pretexto, dada a expertise política do grupo demonstrada no correr da acirrada eleição. Além disso, o Departamento de Estado é estruturado para efetuar as transições governamentais por meio das quais ele poderia recomendar nomes de toda a representação chancelar oficial em solo pátrio e formas de comunicação aos entrantes na Casa Branca.

O peso da Rússia faz com que os Estados Unidos acompanhem a movimentação em seu território, de sorte que a polícia federal (FBI) monitore a circulação ao redor da embaixatura, por exemplo – basta lembrar no centenário do nascimento do presidente John Kennedy que seu assassino, o fuzileiro Lee Harvey Oswald, havia residido na antiga União Soviética. Destarte, não seria possível deslocar-se a ela sem ser notado pela costumeira vigilância.

No exterior, a espionagem física fenece à medida que progridem os avanços técnicos digitais.  No caso estadunidense, a agência responsável  é a de Segurança Nacional (NSA), tão afamada e temida após a divulgação do Wikileaks de seus relatórios pormenorizados.

No jogo de poder entre as grandes potências, a bisbilhotice mútua é frequente – o próprio Brasil teria sido palco disso durante o tíbio governo de Fernando Henrique Cardoso por causa de bilionária disputa comercial entre Paris e Washington. A rixa ocasionaria até a expulsão de diplomatas ou na prática de espiões dos dois países.

Até o momento, o Kremlin manifesta-se de modo irônico sobre as incisivas suspeitas de relacionamento impróprio entre seus diplomatas e burocratas americanos e sobre suas consequências. Lembra enfático que as sanções perduram. Assim, não haveria de sua parte influência suficiente para alterar o rumo indesejado. Concernente ao país, tudo seria especulação deletéria, preconceito ou ainda incompreensão.

No entanto, tópico de preocupação para a burocracia washingtoniana seria o de que os encontros não abordaram só assuntos públicos, mas privados também em torno dos quais o novo status adquirido pela família Trump poderia beneficiá-la bastante.

Diante de tamanha dúvida, a investigação oficial seria medida prudente, com o propósito de esclarecer se teria havido ou não postura patrimonialista por parte dos republicanos envolvidos. Seria necessário o acompanhamento natural do Congresso, vez que os contatos heterodoxos poderiam prejudicar o interesse nacional.

Além do estabelecimento incomum de laços entre os novos dirigentes norte-americanos e a burocracia russa, irrompem dúvidas sobre a segurança do processo eleitoral. Especula-se que Moscou teria conseguido acesso ao cadastro dos votantes, ao infiltrar-se em uma das empresas – terceirizadas -responsáveis pela organização do pleito.

No entanto, a oposição aos republicanos não se contentaria com isso. O objetivo seria o de comprovar que a Rússia teria interferido no resultado final, em desfavor dos democratas, nos chamados estados pendulares – próximos de dez. Os vencedores retrucam, ao afirmar que a suposta intervenção seria mero rumor.

A Flórida, com vinte e nove votos do colégio, teria sido um dos eventuais alvos da indevida intromissão estrangeira. Em 2012, Barack Obama derrotou Mitt Romney lá; em 2016, Donald Trump superou Hillary Clinton.

Uma das ocasionais maneiras de embaraçar o processo seria a de atrasar a verificação da identidade dos eleitores em distritos onde democratas tinham, segundo as pesquisas, maiores chances de vencer.

A verificação poderia ser, por exemplo, através do sistema de seguridade social, órgão federal. Devido à demora, cidadãos em se deparando com longas filas desistiriam de participar da votação – a eleição não é feriado nacional.

Enfim, conforme prometido por Donald Trump, houve a modificação no vínculo dos Estados Unidos com a Rússia. A surpresa é isso ser-lhe tão desvantajoso, a ponto de estimular nos opositores mais exaltados o desejo de destituí-lo ainda no início de seu mandato, fato inédito na história recente do país.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: embaraço ao poderio dos Estados Unidos, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 28/06/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23670>.

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