Transições estruturais na economia chinesa e a Nova Rota da Seda: uma ideia convenientemente vaga, por Bruno Hendler

Nos dias 14 e 15 de maio a China recebeu vinte oito chefes de Estado e dezenas de outros líderes mundiais em um encontro em Beijing para promover sua iniciativa de integração da Eurásia conhecida como “A Nova Rota da Seda” ou “One Belt and One Road” (OBOR). Ninguém, nem mesmo os chineses, tem uma definição clara e objetiva desse projeto, tornado público pela primeira vez em 2013 pelo presidente Xi Jinping e aderido, pelo menos formalmente, por outros sessenta e quatro países desde então. A fluidez do conceito pode ser sua própria vantagem por não vincular seus membros a alianças políticas de longo prazo nem expô-los às contradições que inevitavelmente emergirão no futuro. À princípio, é uma noção vaga que poderá ser acionada de acordo com os interesses econômicos e de segurança da China, mas uma coisa é certa: a grande repercussão dessa ideia que praticamente ainda não saiu do papel só é possível porque encontra respaldo no mundo real. E esse mundo real mostra que a China tornou-se o principal motor de crescimento da Ásia Oriental acompanhado (ou guiado) por um projeto de segurança nacional.

O esgotamento do modelo de desenvolvimento chinês baseado nos investimentos públicos e no superávit das exportações, acentuado pela crise de demanda no Ocidente desde a crise de 2008, sugere um cenário de transição estrutural, uma terceira fase da “dinastia” do Partido Comunista. Após a primeira fase (a Era Mao, voltada para a agricultura e para reformas sociais de base) o país viveu na Era Deng (de 1978 a finais dos anos 2000) um processo avassalador de industrialização com suporte de investimento externo direto e do próprio Estado que gerou forte crescimento, mas também desequilíbrios econômicos, sociais e ambientais (HOFMAN, 2016). A transição da Era Deng para essa terceira fase, a “Era Xi”, tem sido marcada pela desaceleração do crescimento e por uma mudança do protagonismo da indústria para o setor de serviços, por um papel mais efetivo de empresas chinesas privadas, pelo fomento do mercado interno com a elevação dos salários e pela tentativa de redução das desigualdades regionais e sociais. A palavra-chave que tem sido difundida pelas fontes oficiais é “o sonho chinês”.

Uma das características dessa nova fase é a sofisticação das relações econômicas da China com o exterior. Se na Era Deng elas foram pautadas pelo comércio exterior, nessa nova era o comércio continua importante, mas divide as atenções com outros setores que compõem uma grande “caixa de ferramentas” de economic statecraft. Segundo James Reilly (2011), economic statecraft consiste no “uso de recursos econômicos por líderes políticos para exercer influência em busca de objetivos de política externa” e Leonard (2016) aponta as cinco grandes ferramentas da China: comércio, investimentos, serviços financeiros, internacionalização do Renminbi e integração blogística pela Nova Rota da Seda.

Quando os objetivos de política externa se acoplam à própria reprodução ampliada dos recursos econômicos, tem-se aí um ciclo virtuoso de expansão de poder e riqueza – que parece ser o caso da China na última década, agora sob uma roupagem ainda mais complexa. Essa fusão fica mais clara quando se nota que a Nova Rota da Seda, se efetivamente executada, tende a impulsionar os outros elementos do economic statecraft, pois engloba comércio, facilitação de investimentos diretos, internacionalização do Renminbi e atuação de bancos chineses (Ex-im Bank e China Development Bank) e multilaterais (AIIB). Em contrapartida, o adensamento desses laços econômicos reforça interesses estratégicos da China, como a manutenção da estabilidade nas regiões próximas e a prevenção de alianças que façam contrapeso a sua projeção. Não por acaso, muitos analistas comparam a iniciativa chinesa com o Plano Marshall, quando os EUA forjaram instituições, projetos de infraestrutura e linhas de crédito favoráveis a reconstrução de países destruídos pela Segunda Guerra Mundial para cooptar aliados políticos e vincular suas economias à norte-americana – uma verdadeira “obra de arte” de economic statecraft reforçada pela assimetria do poder “duro” dos EUA em relação ao resto do mundo.

Com esse reajuste da política externa chinesa, África e América Latina tendem a perder importância relativa para Ásia Central e Sudeste Asiático, os dois pontos nevrálgicos da OBOR (GARLICK, 2017). A Ásia Central tem recebido crescente atenção da China não apenas pela exploração de recursos energéticos (petróleo e gás natural), mas também porque é um dos caminhos alternativos à Rússia para chegar a Europa via estradas de ferro. Ademais, inserir a província de Xinjiang no mapa do desenvolvimento econômico é uma forma de conter o separatismo da região mais a oeste do país, embora as conexões logísticas possam também facilitar a circulação ilegal de pessoas e armas, principalmente nas fronteiras com Afeganistão e Paquistão.

A questão mais relevante no tocante ao Sudeste Asiático é a importância das rotas de comércio marítimo que conectam a China à África e ao resto da Eurásia. Para garantir a continuidade e a segurança desses fluxos, o economic statecraft chinês aparece com a proposta do “colar de pérolas” – uma sequência de portos que passam pelo SE Asiático, pelo Oceano Índico e chegam aos litorais da África e da Europa. O poder “duro” chinês, acoplado ao viés econômico, também cresce junto com a projeção de sua marinha em águas internacionais – mas pode se tornar um tiro no pé caso seja usado para coagir vizinhos que disputam as ilhotas do Mar do Sul da China. Por fim, os tópicos anteriores costumam ofuscar a própria relevância das nações do SE Asiático que, em sua maioria, se tornaram Estados fortes, com bons índices de crescimento e que formaram uma comunidade de segurança em torno da ASEAN sem grandes conflitos entre si. Em suma, são também fornecedores e consumidores de grande potencial para o economic statecraft chinês.

Se Ásia Central e SE Asiático são as principais plataformas de projeção da “Era Xi”, as potências que antes tinham primazia nessas regiões tendem a ser ofuscadas. Isso vale para Japão e EUA no SE Asiático e Rússia na Ásia Central. A Índia é outra potência regional que pode sofrer indiretamente com a projeção chinesa, não só no Oceano Índico, mas também no próprio Sudeste e Sul Asiáticos – e, por sinal, foi a ausência mais sentida no encontro deste ano.

Nesse novo cenário, surgem alguns objetos de pesquisa interessantes a serem destrinchados: i) compreender a transição econômica pela qual a China está passando no plano doméstico, buscando as rupturas e continuidades entre a “Era Deng” e a “Era Xi”; ii) entender como essa transição impacta na relação do país com o exterior, seja pelo economic statecraft ou pelo ótica de segurança e estratégia; e iii) entender como e em que medida os pontos anteriores são variáveis que moldam comportamentos de política econômica e política externa das demais nações, tanto das grandes potências quanto dos países menores. No Brasil, política externa não costuma fazer parte da agenda pública e dos debates eleitorais e embora o peso da China esteja crescendo, estamos longe de um consenso sobre a formulação de estratégias coerentes para obter benefícios na interação com o gigante asiático. Talvez o primeiro passo necessário seja compreender como nações que têm uma interdependência (econômica e de segurança) ainda maior com a China têm lidado com esse desafio, seja na Ásia Central, Meridional ou na orla do Pacífico.

 

Referências

FERCHEN, Matt. How New and Crafty is China’s New Economic Statecraft? Carnegie-Tsinghua Center for Global Policy, Department of International Relations, Tsinghua University. Sem data.

GARLICK, Jeremy. Can China’s Belt and Road Initiative Successfully Lead to a New Eurasian Economic Zone? All China Review, 2017.

HOFMAN, Bert. China’s medium-term Outlook: 2016-2020. In: Geo-economics with Chinese Characteristics: How China’s economic might is reshaping world politics. World Economic Forum, Regional Agenda, 2016.

LEONARD, Mark. Introduction. Geo-economics with Chinese Characteristics: How China’s economic might is reshaping world politics. World Economic Forum, Regional Agenda, 2016.

REILLY, James. China’s economic statecraft: turning wealth into power. Sidney: Lowy Institute For International Policy, 2011.

Sobre o autor

Bruno Hendler é Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (bruno_hendler@hotmail.com).

Como citar este artigo

Mundorama. "Transições estruturais na economia chinesa e a Nova Rota da Seda: uma ideia convenientemente vaga, por Bruno Hendler". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/08/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23666>.
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