Rússia: constrangimento aos Estados Unidos, por Virgílio Arraes

Malgrado a incontestável vitória dos Estados Unidos sobre a União Soviética na Guerra Fria há um quarto de século, Washington continua a observar Moscou com bastante assombro, seja de maneira positiva a ele como ao longo da ruinosa gestão para os russos do pouco morígero neocosmopolita Bóris Yeltsin – seja negativa – ao correr da administração do enigmático nacionalista ou antes do pragmático Vladimir Putin.

Embora o atual governo moscovita não seja a antítese plena do antecessor, haja vista a ausência de estatizações dos segmentos observados como estratégicos, é inegável a elevação do status real da Rússia no quadro global, por exemplo ao recuperar parte das áreas perdidas quando da passagem da União Soviética para a Federação Russa e ao fixar-se no Oriente Médio como potência de fato, ao apoiar a cambaleante ditadura síria.

Reavive-se que durante a transição de regime no alvorecer dos anos noventa o Kremlin entreteve por algum tempo a Casa Branca através de privatizações maciças por valores risíveis e da desintegração territorial para formar países próximos do eixo norte-atlântico como os do Báltico – Letônia, Lituânia e Estônia – ou os do CáucasoArmênia, Azerbaijão e Geórgia.

A despeito das generosas concessões ao Ocidente, isto não impediu a eclosão de severa crise econômica em 1998, ainda que elas tenham contribuído para a reeleição de Yeltsin em 1996. A consequência do temerário novo mandato seria seu encerramento antes do prazo previsto através de renúncia quando seu índice de popularidade situava-se em torno de um dígito apenas.

Quase duas décadas mais tarde, a estabilidade política na Rússia mantém-se porque não existe dificuldade à vista, uma vez que o revezamento oficial entre Putin e Medvedev nos cargos principais se consolidou em termos eleitorais, ainda que haja denúncias vez ou outra de práticas heterodoxas para a obtenção de votação expressiva.

Afora isso, a Rússia fornece bons subsídios para matérias jornalísticas há vários meses em decorrência de dois itens básicos: o ingresso na guerra (civil) síria e a suposta intromissão nos assuntos internos norte-americanos, em especial no transcorrer do pleito para a Casa Branca em face da derrota dos democratas.

Quanto ao segundo tópico, suspeita-se de que o círculo político e mesmo familiar do presidente Donald Trump interagiu de modo pouco comedido com burocratas e empresários russos. Veiculam-se informações de que de maneira inadvertida até o supremo mandatário teria propiciado dados secretos da segurança nacional ao Kremlin em nome da oposição comum ao terrorismo e da necessidade de proximidade diplomática.

A aproximação inconsequente ter-se-ia reforçado ao longo da transição de administrações no ano passado. A preocupação central conectava-se com a situação da Síria. Por isso, a presença do general da reserva Michael Flynn nas conversas oficiosas. Ele seria o primeiro a tombar, ao exonerar-se por conta da má repercussão dos contatos prévios.

Em adição a isso, crimina-se, por outro lado, o governo russo de ter influenciado o resultado da eleição presidencial estadunidense. Soa pouco crível que a Casa Branca estivesse tão frágil do ponto de vista de defesa digital, de sorte que outro país pudesse adulterar o resultado do certame de maior importância do globo.

Durante a administração Obama, Washington chegou a identificar Moscou como mera potência regional, afirmação considerada desairosa para a opinião pública de lá. Evocações de corrupção no cotidiano político do recém-convertido aos valores norte-atlânticos são corriqueiras.

Destarte, seria pesaroso para os Estados Unidos admitir que país desprezado por eles conseguisse imiscuir-se em seus assuntos internos sem contraposição à altura. Ademais, o acontecimento contribuiria para enfraquecer a liderança norte-americana. Especula-se que o presidente Trump poderia ser objeto até de processo de destituição no Congresso.

É possível que a séria imputação seja manobra de (simpatizantes) democratas com o propósito de isentar sua agremiação do fracasso diante do inconsistente e espalhafatoso, embora milionário, oponente republicano em 2016.

Relembre-se de que a candidata Hillary Clinton era em alguns aspectos mais reacionária que seu adversário fanfarrão, apesar de ter tido projeção de imagem progressista quando apresentada ao eleitorado pelos meios de comunicação tradicionais como jornais do Nordeste estadunidense – New York Times.

Em regiões economicamente decadentes, como as dependentes da indústria automotiva, eleitores vinculados aos democratas podem ter-se deslocado de forma excepcional para os republicanos, em função do discurso nacionalista, menos neoliberal.

No tocante ao conflito sírio, as duas superpotências atômicas parecem chegar a entendimento melhor, visto que o Estado Islâmico é considerado nos dias de hoje inimigo comum, não obstante o contínuo recuo militar até no Iraque.

Seu momentâneo enfraquecimento territorial leva-o a deslocar seus integrantes para a turbulenta

Líbia. Todavia, o retorno de alguns combatentes para seus países de origem, em especial no continente europeu, preocupa também a Casa Branca e o Kremlin.

Por conseguinte, a imperiosa necessidade de concerto sobre a contenção da entidade extremista, a despeito da discordância do papel de Bashar al Assad no futuro da devastada Síria e da participação presente de Ancara e de Teerã. Diante de tal configuração, ambos evitam atacar grupos com os quais um ou outro tem identificação maior.

Assim, combinam-se as escalas das operações aéreas, de maneira que não haja a possibilidade de danos como os ocorridos entre Rússia e Turquia, ao tempo do ingresso daquela na confrontação – jato abatido. O alvo dos dois países parece concentrar-se em Raqqa, estimada como a capital dos integristas em solo sírio.

Por isso, o aviso cortês de Washington a Moscou quando do ataque de mísseis a uma base militar da Síria como severa resposta à utilização de armas químicas há algumas semanas por parte da ditadura baatista.

No fim, inquietam-se os norte-americanos por cogitar se os russos teriam informações comprometedoras sobre a vida particular de seu presidente, de sua administração ou de seus negócios em que suas alianças externas poderiam fragilizá-lo politicamente.

Nesse sentido, quanto à atividade empresarial do titular da Casa Branca, conjectura-se se teria havido relação muito próxima entre ele e algum oligarca – eufemismo para classificar cidadãos russos de fortuna originada de modo controvertido – a ponto de tornar a parceria sem recuo como a de financiar de forma maciça empreendimentos imobiliários. Por extensão, a conexão econômica poderia estender-se à política também, com resultados positivos pouco estimados pela oposição aos republicanos.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: constrangimento aos Estados Unidos, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 19/10/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23658>.
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