RBPI: Uma revista brasileira internacionalizada, por José Flávio Saraiva

A comunidade acadêmica das relações internacionais no Brasil está em festa. Comemoramos nesses dias a evolução histórica de uma revista de 60 anos, voltada para o escrutino da política internacional, lançada originalmente criada na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1957. A Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI) é atualmente publicada em Brasília, desde os inícios da década de 1990. O ano de 2017 está para os internacionalistas brasileiros a lembrança histórica dos inícios da RBPI bem como a evolução extraordinária da moderna RBPI de hoje no conjunto da produção científica de alta qualidade internacional. A RBPI vem sendo um case de avanço importante de publicação na área ampla das relações internacionais.

A sua animada equipe editorial vem criando meios inéditos na difícil corrida de uma revista brasileira internacionalizada nas métricas mais relevantes do mundo. É a única no Brasil, no campo internacionalista, considerada de projeção acadêmica global nesse campo acadêmico e qualificada às grandes revistas dos norte-americanos, ingleses e dos europeus continentais.

A RBPI já nasceu internacionalizada. Ao folharmos o segundo número publicado, no tempo do Rio de Janeiro, editada em junho de 1958, despontava abertamente a preocupação de Oswaldo Aranha ante o problema do restabelecimento das relações diplomáticas com a União Soviética. O grande estrategista chamava em seu artigo na RBPI a atenção do interesse da opinião pública da controvérsia tanto na imprensa como no meio parlamentar.  Exarava Aranha, antecedendo os novos mundos da política internacional em suas palavras na RBPI: “esse fato, por um lado, dá a medida da importância do problema e da sua natural repercussão na política interna. Por outro lado, revela o crescente interesse da opinião pública pela política exterior. É um interesse da opinião pública pela política exterior. É um interesse indicativo de que já temos plena consciência da nossa maioridade para a vida internacional”.

Interessou-se o público da RBPI o seu número 55/56, lançados entre setembro e dezembro do ano de 1971, sob o profissionalismo de Cleantho de Paiva Leite. Artigos fortes e temas como as forças de mudança na América Latina e sua relevância com os Estados Unidos da América, os pontos de fricção na América Latina, além do dos estágios do desenvolvimento econômico no Brasil, apesar dos fatores de dependência do Brasil, estavam na RBPI daquela quadra. Eram os tempos de um  sonho de autonomista que carregavam os nacionalistas, na RBPI, em vários autores e articulistas, a  despertarem as linhas de condutas voltadas ao entendimento do  sistema internacional que o Brasil deveria navegar.

Após o falecimento de Cleantho, um grupo de intelectuais e diplomatas conseguiu manter, com amor e dedicação a RBPI. Trouxeram a Brasília esse tesouro. Surgiu o novo editor, o historiador Amado Luiz Cervo, da UnB, para renovar a revista para os novos tempos. No ano 37 da RBPI, no primeiro número da RBPI no ano de 1994, o diplomata Paulo Roberto de Almeida ofereceu um importante índice remissivo geral da RBPI do ano de 1958 e 1992.

A modernização da RBPI, com Cervo, até os inícios dos anos 2000, é reconhecido por todos que lerem aquela quadra de transformação do  Brasil no sistema internacional e as novidades da globalização econômica. Importante nessa área foi a relevância crescente de um conselho editorial de brasileiros que conheciam o mundo. Composto o conselho editorial com Helio Jaguaribe, Moniz Bandeira, Celso Lafer, Celso Amorim, Sérgio Bath, Antonio Augusto Cançado Trindade, entre outros intelectuais e internacionalistas, o balanço foi de avanço importante para os estudos específicos em um momento de transição sistêmica no sistema internacional.

A nova quadra, após os 60 anos de vida de uma revista brasileira de política internacional do Brasil, exige celebração. A nova dos 60 anos é o esforço nesses últimos anos de caminho na internacionalização da RBPI e avançar nos melhores ranks mundiais. Destaco nestes últimos anos o volume 55, publicada em 2015, em uma edição especial voltada ao tema do “global climate governance and transition to a low-carbon economy”. Já publicada em inglesa, desde 2012, a RBPI está no mundo.  Devemos a cada um dos colaboradores, grandes editores de ontem e de hoje, aos conselhos editoriais de alto nível da revista internacionalizada.

Porém – se não houvesse a melhoria constante do avanço crítico e editorial da RBPI que se criou pela própria revista nesse longo tempo e a crescente competência dos artigos submetidos – não existiria uma RBPI tão competente e representativa com ela é. Um gol do Brasil. Outro gol no mundo.

Sobre o autor

José Flávio Sombra Saraiva é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e Diretor do seu Instituto de Relações Internacionais.

Como citar este artigo

Mundorama. "RBPI: Uma revista brasileira internacionalizada, por José Flávio Saraiva". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 25/05/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23567>.

Seja o primeiro a comentar

Top