Rússia: a retomada da intervenção dos Estados Unidos na Síria, por Virgílio Arraes

Na fase final da Guerra Fria, a Casa Branca costumava afirmar que seria possível confiar no Kremlin nas extenuantes negociações sobre a limitação de armamentos nucleares, desde que houvesse a prévia apuração dos acontecimentos.

Embora potência bélica com apenas um oponente natural, a Rússia, ou antes a União Soviética, mal podia redarguir o sarcasmo aos Estados Unidos em decorrência do cambaleio econômico que por sua vez desaguaria no desmoronamento político inédito na história contemporânea.

Cerca de três décadas depois, Washington, após a indicação dos republicanos durante a campanha presidencial de aproximação diplomática ou ao menos de indiferença à movimentação regional do antigo ferrenho inimigo, nem sequer aguardou apuração independente sobre o emprego de armas químicas na confrontação síria.

O local onde se utilizou o armamento proibido contra a população civil no dia quatro de abril é considerada como da oposição; destarte, a conclusão preliminar de quem seria o responsável. Na análise ocidental, os adversários da ditadura baatista teriam pouca divergência entre si no tocante ao alvo prioritário dos combates, de sorte que eles dificilmente pelejariam uns contra os outros. Isso seria a visão idealizada do confronto.

Diante da divergência sobre quem teria efetuado o ataque, o adequado seria a investigação por comissão multilateral, através da Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo. Contudo, tal proposta de resolução – condenação do uso e colaboração do governo sírio na apuração dos acontecimentos – por Grã-Bretanha, França e Estados Unidos seria rejeitada pela Rússia e também China no conselho de segurança da instituição – no total, seriam dez votos a favor.

No transcorrer do sexto ano da guerra, os dois países costumam opor-se a proposições relativas à disputa lá. Mais uma vez, a contenda aparenta ser solucionada apenas se houver o entendimento mútuo entre Washington e Moscou.

No entanto, sem delongas, a despeito da cortesia diplomática de sido o governo russo avisado da investida, presidente Donald Trump ordenou o bombardeio de território sírio com dezenas de misseis de modo unilateral.

A medida veio como punição à ditadura de Bachar al Assad, em momento de retomada por sua gestão de locais outrora geridas pelos adversários, independente da postura política: moderados próximos do Ocidente ou extremistas religiosos.

Cotejado a seus dois antecessores imediatos, a atual administração demorou a manifestar-se sobre aquele rincão, seminal para a questão energética e, por conseguinte, para a econômica. A investida aérea não veio sob rubrica de tintas mercadológicas como na época de George Bush Jr. – Guerra contra o Terror – nem com a sobriedade inicial de Barack Obama.

O espalhafato, chancela do governo Trump, ocorreu de novo, porém desta vez em ação externa. Entrementes, não houve anúncio de envio de tropas, ineficientes ou insuficientes como foram as duas tentativas de conter a insurgência no Iraque em 2007 e 2009.

Após o cerrado ataque ao regime autoritário sírio, os chanceleres das duas grandes potências encontraram-se na capital russa. Apesar da extensa reunião, eles não chegaram a acerto, mesmo de maneira provisória. Além do mais, Sergei V. Lavrov, diplomata de carreira, queixou-se de diferenças fundamentais sobre diversos assuntos da pauta internacional a Rex W. Tillerson, oriundo do setor energético.

Outrossim, a ocasião serviu aos russos para demonstrar aos norte-americanos sua continuidade no apoio ao governo sírio, ou seja, ela não cederá à pressão externa. A incógnita é como o instável processo de negociação de paz ficará, dado que antigo ator, a Casa Branca, reentra em cena com a aspiração de ocupar o lugar principal do palco dos debates.

Isso depois da repercussão antimuçulmana no começo da gestão republicana, ao dificultar o ingresso de imigrantes de sete países – Iêmen, Irã, Iraque, Líbia, Síria, Somália e Sudão – de tal crença, ao associar de forma indevida islâmicos e extremistas.

De modo simultâneo, a novel administração sustenta o apoio aos demais governantes ditatoriais daquela região como Arábia Saudita, interventora no Iêmen, Egito e Jordânia – estes dois recipientes de constante auxílio financeiro.

Afora isso, constata-se, no entanto, que o país começa a se opor de maneira sistemática ao Estado Islâmico. Década e meia de desastrada presença no Oriente Médio, os Estados Unidos contribuíram para a emergência de diversos movimentos de insurreição, alguns deles integristas, contra governos apoiados pelo Ocidente.

A motivação para o antiamericanismo de tais organizações deriva da permanência em locais considerados por elas sagrados, como os existentes em solo saudita, e da fixação de dirigentes estadunidenses no Iraque, remontante à Primeira Guerra do Golfo.

Por causa disso, Washington não desejou talvez acusar Moscou, ocasional aliado contra o fundamentalismo no rincão médio-oriental, de ter participado – ou de ter tido conhecimento anterior – do recente evento em que houve a utilização de armas químicas, mas, ao mesmo tempo, reafirmou a responsabilidade da atual gestão da Síria.

Afinal, a ampliação da instabilidade daquela área afeta o cotidiano dos países norte-atlânticos não só em função da segurança interna das respectivas populações, haja vista o ataque perpetrado em Paris a poucos dias da acirrada eleição presidencial francesa em que duas pessoas, uma das quais policial, foram assassinadas.

No entanto, há a questão do posicionamento humanitário dos governantes por causa da circulação constante de milhões de refugiados, em especial os provindos da Síria, com a vontade de convergência para Europa ou América do Norte.

A postura bélica de Washington pode ter decorrido do desgaste político das suspeitas de vínculos heterodoxos entre servidores graduados da Casa Branca e diplomatas russos – já houve até baixa significativa, a do general da reserva Michael T. Flynn.

Com a ação, intenta-se desviar a atenção de dois aspectos do dia a dia administrativo norte-americano: a de ausência na guerra civil síria, com benefício momentâneo à Rússia, e a de indevida conexão com o Kremlin, até em decorrência de aparentes inclinações nacionalistas. Aguarda-se, pois, o compasso a ser adotado pelos Estados Unidos com o fito de desviar-se da atual situação interna.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

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Como citar este artigo

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Mundorama. "Rússia: a retomada da intervenção dos Estados Unidos na Síria, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 18/11/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23526>.

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