A reação Militar de Trump ao Ataque Químico na Síria, por Carlos Costa Jr.

Os conflitos armados na Síria, envolvendo rebeldes e oposição ao regime de Bashar al-Assad, no poder nesse país desde 2000, datam de 2011, em meio ao contexto da Primavera Árabe, na qual populações de alguns países localizados no norte da África, no Oriente Médio e na Ásia Central se revoltaram contra os regimes e ditaduras constituídas.

Ao longo de 6 anos de combates, tais conflitos na Síria tornaram-se complexos, tanto em razão do número e tipos de atores políticos envolvidos, como em razão dos interesses em disputa nesse tabuleiro geopolítico, o qual extravasa consequências para além de sua área imediata de influência.

Na presente análise de conjuntura são verificados o contexto geopolítico do conflito sírio, os aspectos de política doméstica e política externa relacionados à decisão de Trump e sua estratégia, além das repercussões na arena da política internacional.

Nesse contexto, pode-se tratar dos atores envolvidos entre aqueles que defendem o regime de Bashar al-Assad e aqueles que lutam por sua queda. Conquanto aparentemente simplista a divisão aqui adotada, os interesses são variados.

No lado daqueles que lutam pela defesa do regime de Damasco, está o Exército Árabe Sírio, sob o comando de Assad e com cerca de 220 mil homens; as Forças Nacionais Sírias, formadas por voluntários e soldados da reserva e são consideradas um braço do exército sírio; e os Comitês Populares, formados por cidadãos sírios treinados e armados pelo regime de Assad. Ademais desse apoio interno, Assad conta com aliados regionais, como o partido xiita Hezbolá, o Partido Social Nacionalista Sírio – fundado no Líbano em 1932 – e o Irã. Na arena internacional, Assad conta com o estratégico apoio da Rússia, aliado desde a Guerra Fria. Somam-se ainda aos aliados de Assad grupos políticos e étnicos residentes em território sírio e que, malgrado tenham projetos políticos próprios e divergentes da visão de poder do regime de Damasco, aliaram-se aos esforços do exército sírio no combate ao Estado Islâmico. Tem-se aqui a minoria palestina, os drusos, as Unidades de Proteção Popular Curdas e a Frente Popular para a Libertação da Palestina – Comando Geral (FPLP-CG). Frisa-se que essa última classe de aliança se sustenta enquanto o objetivo comum se mantiver: desmantelar o Estado Islâmico.

Por sua vez, no lado contrário, em busca da derrubada de Assad do poder, estão o Conselho Nacional Sírio, a Coalizão Nacional para as Forças Sírias Revolucionárias e Opositoras e o Alto Comitê de Negociações, agremiações que gozam de simpatia de parte da população síria que deseja o fim do regime de Damasco. Não conformando uma clara ou direta oposição, mas prejudicando o domínio de Assad, atuam grupos insurgentes que se manifestaram ao longo do conflito na Síria e caracterizados por agendas próprias de poder, destacando-se o Exército Livre da Síria, Ahrar al-Sham (Homens Livres do Levante), Jaysh al-Islam (Exército do Islã), Jaysh al-Fatah (Exército da Conquista), Frente al-Nusra e o próprio Estado Islâmico. Esse grupo de atores fragmenta o domínio de Assad em território sírio, tornando-se uma força para arrefecer o comando de Damasco; contudo, ao mesmo tempo dificulta a ascensão de uma oposição unificada e capaz de encerrar finalmente o regime de Assad.

Além desses atores, há o envolvimento de outros países interessados em combater o Estado Islâmico em território sírio e iraquiano. Trata-se aqui da coalizão liderada pelos Estados Unidos, destacando-se Austrália, Bahrein, Canadá, França, Jordânia, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido, os quais participam dos bombardeios na Síria (SANCHA, 2017).

Portanto, são vários atores locais, regionais e internacionais com diversas agendas, o que aumenta o grau de tensão política e dificulta ações concertadas, em função dos diversos interesses envolvidos.

Em meados de 2016, a aliança com a Rússia permitiu que Assad retomasse o domínio sobre territórios rebeldes, ao mesmo tempo em que a coalizão internacional supramencionada conseguiu diminuir significativamente a presença do Estado Islâmico na Síria e no Iraque.

Em um movimento que sugere confiança em assumir riscos, no dia 04 de abril de 2017, Assad ordenou um ataque químico do exército sírio contra a população da cidade de Khan Sheikhoun, localizada na província de Idlib, no noroeste da Síria, o qual foi responsável pela morte de cerca de 80 civis.

Supostamente usando como agente químico o gás Sarin, o ataque tem o sentido de criar terror local e eliminar o apoio da sociedade civil síria aos grupos insurgentes ou de oposição, facilitando a tarefa do exército sírio de rastrear, identificar e combater movimentos rebeldes.

Ademais, sobre a autoria do ataque, por um lado nenhum grupo insurgente, nem mesmo o Estado Islâmico, assumiu a responsabilidade. Por outro, o embaixador russo no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) afirmou que o governo sírio bombardeou um depósito de armamento dos rebeldes e que lá estava guardado o gás que vazou e contaminou a população (G1, 2017).

Considerando as semelhanças com o ataque químico ordenado por Assad em 2013, para o governo de Donald Trump a autoria foi de Assad, o que gerou a reação norte-americana apresentada no dia 06 de abril de 2017, ao lançar 59 mísseis Tomahawks contra a base aérea de Shayrat, de onde teria sido lançado o ataque químico em Idlib.

Frisa-se que a reação de Trump contrasta diametralmente com suas declarações, feitas desde a corrida eleitoral nos Estados Unidos, de que o objetivo dos Estados Unidos é eliminar o Estado Islâmico e que o destino de Assad deve ser resolvido pelo povo sírio (CBS, 2016).

Do ponto de vista de política doméstica norte-americana, a mudança de Trump atende alguns elementos estratégicos para sua sustentação e governabilidade, de modo a avançar seus objetivos de campanha eleitoral.

Primeiramente, a reação de Trump marca com apelo humanitário uma mudança radical de posição dos EUA em relação à guerra civil na Síria, demonstrando ser ativo enquanto Obama foi passivo e deixou o Estado Islâmico ganhar terreno.

Destarte, dois aspectos devem aqui ser frisados. Esse movimento demonstra que Trump não assumirá um viés isolacionista acrítico, sabendo mensurar quais palcos da cena internacional pretende agir e em quais preferirá a distância, considerando que seus palcos de preferência, pela reação aqui em análise, é por áreas geopolíticas em que a segurança dos Estados Unidos está diretamente ameaçada, como na região do mar da China, na Coreia do Norte e no Irã.

O segundo aspecto é que a ação de Trump vai ao encontro de seu discurso de crítica à administração Obama, argumentando que o pretérito presidente norte-americano foi leniente e pouco ativo com Coreia do Norte, Síria e Irã, e que ações mais claras de força são necessárias para erradicar ameaças aos interesses dos Estados Unidos.

Ressalta-se que a ação de Trump foi de avisar Assad que uso de armas químicas não será tolerado; sem, contudo, querer efetivamente derrubar o governo sírio. O fato de os ataques com Tomahawk terem sido dirigidos especificamente contra a base aérea de Shayrat simboliza expressamente a intenção imediata de Trump e o exime da alcunha de imprevisível ou mesmo contraditório.

Ademais, Trump, em sua declaração à nação norte-americana sobre resposta ao ataque químico de Assad (GLOBO, 2017), deixa claro que a ação militar se deve à não tolerância do uso de armas químicas. Ora, se essa é a reação adotada para esse tipo de arma, no mínimo será a mesma para o uso alheio de armas biológicas e nucleares. O discurso e a ação de Trump combina com sua imagem de empresário determinado e bem sucedido, imagem essa que o levou à vitória nas eleições em 2016.

Outrossim, a atitude de Trump no discurso foi justificada em defesa da segurança nacional dos Estados Unidos – o que apela para maior simpatia do público norte-americano, aumentando por corolário o capital político de Trump junto ao Congresso dos Estados Unidos, o que é fundamental para avançar a agenda governamental de Trump.

Também justificou a ação em defesa do direito internacional e do Conselho de Segurança, buscando tanto conferir legitimidade ao uso unilateral da força como evitar melindres na Organização das Nações Unidas (ONU).

Outro aspecto importante é que Trump não declarou guerra à Síria, o que, por um lado, evita um acirramento com a Rússia – que tem na Síria importante aliado para barganhar interesses no Oriente Médio com EUA e Europa, a fim de avançar posições russas no Leste Europeu. Caso declarasse guerra, a Rússia deveria se preparar para mais ações militares norte-americanas, aumentando a tensão política.

Assim, Trump marca seu tom de intervenção isolada e específica condicionada ao uso de armas químicas por Assad, afastando qualquer posição mais contundente no longo prazo e evitando reações mais incisivas de Moscou.

Por outro lado, um Estado somente declara guerra a outro Estado, culminando com uma situação em que a ação de Trump, por conseguinte, não foi dirigida contra Assad e nem desce ao nível de discutir a legitimidade deste no comando da Síria. Por consequência, Trump evita também uma retaliação da Síria ou, pelo menos, que essa retaliação tenha legitimidade e justificativa. Se Assad, segundo Trump, não usar mais armas químicas, ações militares norte-americanas estariam afastadas e não pairaria mais qualquer ameaça dos Estados Unidos à continuidade do regime de Damasco.

Um último ponto a esse aspecto se refere ao fato de que, ao não declarar guerra, Trump evita discutir e buscar autorizações do Congresso dos EUA para ações militares, já que esta declaração é uma competência exclusiva do referido congresso.

Nota-se que Trump, para agir com rapidez, prescindiu de qualquer autorização do Congresso para uso da força militar na Síria, o que, para isso, demandou que se evitasse a declaração de guerra. Do contrário, Trump perderia o timing do ataque químico e a legitimidade da ação em favor da defesa humanitária, além de correr o risco de ser encapsulado pelo debate político interno e pela oposição ao seu governo, somando-se a isso a oposição na ONU pelo uso unilateral da força e contra o princípio de não intervenção em assuntos internos de outros Estados.

Deve-se considerar que aparentemente existirá uma possível fricção de Trump com o Congresso dos EUA, já que este pode esperar daquele ações no mesmo padrão, isolando assim o Poder Legislativo das questões de segurança nacional.

Contudo, Trump tem elementos favoráveis para atenuar críticas no Congresso. Primeiramente, foi uma ação justificada na segurança nacional, em defesa das normas de proscrição de armas químicas e em defesa da segurança internacional, já que Nikki Haley, embaixadora dos EUA no CSNU, argumentou que os EUA, em situação de paralisia desse órgão por força de vetos dos demais Estados-membros permanentes, agirá em defesa da segurança internacional (VEJA, 2017).

Segundo que a ação militar de Trump foi específica e com precisão cirúrgica, ao atacar somente a base de Shayrat, em defesa da eliminação de armas químicas, inviabilizando o reuso da base no curto prazo, sem causar danos a soldados russos ou danos colaterais a outros grupos militares ali localizados.

Dessa forma, o apelo humanitário, a inação do CSNU e não uso do vocábulo “guerra” tornará viável a defesa de Trump perante oposições no Congresso. Ademais, dificilmente algum deputado ou senador norte-americano vai apostar em uma clara oposição à ação de Trump, pois corre o risco de ganhar imagem de ser oposto à defesa dos direitos humanos, das vítimas do ataque químico e da própria segurança nacional. O discurso de Trump fez várias referências à violência do ataque químico contra civis, de modo a sensibilizar a opinião pública e ganhar mais popularidade.

Assim, Trump não deve ter maiores problemas com o Congresso a esse respeito, vez que ele depende desse mesmo órgão para avançar uma controversa agenda política doméstica, incluindo medidas protecionistas, a construção do muro na fronteira com o México e o banimento de imigrantes ilegais.

Outro aspecto de política doméstica é que Trump, ao agir assim, ganha a confiança das instituições norte-americanas, em especial dos órgãos de inteligência, após o desgaste com o ex-conselheiro de Segurança Nacional do presidente, o general Michael Flynn, que caiu dessa posição em função da relação próxima com empresas russas e com o próprio governo Vladimir Putin. Dessa forma, a ação de Trump resgata a posição racional e de segura distância que o Congresso e a inteligência norte-americana estão acostumados a adotar em relação à Rússia.

Portanto, em termos de política interna, a ação de Trump resgata a imagem de confiança do público norte-americano – sensível a aspectos de segurança nacional, resgata a imagem de racionalidade junto aos órgãos de inteligência – assumindo posição contrária a Moscou, e força o Congresso a rever sua posição perante as medidas políticas de Trump, vez que o Congresso é sensível à legitimidade popular e à popularidade do presidente dos Estados Unidos.

No campo da política externa, a ação de Trump segue de modo harmônico com seu discurso de altivez e demonstração de persuasão. Ademais, visa, por meio do uso de dissuasão, preparar o palco internacional para pressionar Rússia e China em contextos geopolíticos específicos, de modo a alcançar objetivos de segurança nacional sem um envolvimento direto em tais contextos. Resta aqui, portanto, verificar os elementos de política internacional que a ação de Trump implica.

Primeiramente, com ação militar na Síria, sempre justificada em defesa do Direito Internacional, conclamando as nações civilizadas, Trump ganha não só respaldo do eleitor norte-americano como acessa a popularidade internacional, fundamental para otimizar as relações dos EUA com seus parceiros europeus, sensíveis à questão síria não só pela desumanidade do ataque químico em Khan Sheikhoun, como também pela questão da crise migratória na Europa.

Em seu discurso, ao fazer referência à crise migratória na Europa, Trump busca legitimar sua ação militar como um caminho para resolver os conflitos na Síria, o que atenuaria significativamente a pressão política e econômica exercida pela crise migratória na Europa.

Ironicamente isso pode agradar governos e partidos europeus de esquerda, centro, direita e ultraconservadores.  Por um lado, a solução da crise síria abriria espaço para retorno dos sírios emigrados, diminuindo a crise migratória europeia e arrefecendo a pressão popular sobre governos europeus, como a Merkel. Por outro lado, também partidos ultraconservadores veriam atendidos seus anseios pela saída de refugiados e imigrados sírios, gerando, ao cabo, maior estabilidade à Europa e à União Europeia, a qual enfrenta dificuldades econômicas e a questão do Brexit.

No caso específico da Alemanha, a ação de Trump, ao buscar respaldo na defesa da vida de civis, o aproxima da posição humanitária de Merkel. Adiciona-se a isso o fato de que Trump, em seu discurso, conclamou as “nações civilizadas”, referindo-se às potências ocidentais e, mais especificamente, aos países-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Por corolário, a pauta dos EUA com os países europeus tende à distensão e reforça os laços da OTAN. Aqui cabe ressaltar um aspecto estratégico. A ação militar dos EUA deverá vir acompanhada de reações da China e especialmente da Rússia, o que exigirá que a OTAN esteja alinhada e concertada com a visão estratégica de Washington.

Como já informado, Trump, pelo seu perfil de agressivo negociador, enxerga no uso de dissuasão e na barganha elementos fundamentais para alcançar melhor posição com Moscou e Pequim, tanto para resolver a crise síria e o Estado Islâmico, como para definir as questões nucleares de Irã e Coreia do Norte. Ter a OTAN nesse tabuleiro é crucial para isolar Rússia e China e aumentar, assim, o poder de pressão e de negociação norte-americano.

Nesse sentido, o lançamento de Tomahawks não visa meramente defender os direitos humanos, coibir o uso de armas químicas ou mesmo vingar a morte de civis. A ação de Trump só pode ser compreendida em uma agenda sistêmica, que busca atingir objetivos em outras regiões e alcançar metas complexas de segurança nacional. Até mesmo porque, com essa ação militar dos EUA, as reações internacionais serão diversas e profundas, o que, por conseguinte, geraria enorme desgaste apenas pelo objetivo simplista de coibir uso de armas químicas.

Destarte, a ação de Trump em Shayrat foi um aviso, um movimento de dissuasão direcionado ao Irã, Coreia do Norte, China e Rússia. Cabe aqui, portanto, analisar esses elementos.

De início, deve-se considerar novamente que o ataque foi na base aérea de Shayrat, onde teria saído o lançamento do ataque químico, com uso de Tomahawks, os quais, inclusive, não foram detectados por forças inimigas.

Isso significa que Trump demonstrou possuir capacidade bélica para agir em curtíssimo prazo, perpetrando ataque à segura distância, com elevada eficiência e sem danos colaterais, vez que não houve incursão de tropas norte-americanas. Trata-se de uma demonstração de força para o Irã – cujo acordo feito por Obama com Hassan Rouhani foi duramente criticado por Trump – e para a Coreia do Norte, caso essas duas potências resolvam avançar seus programas nucleares.

Outro aspecto é que o método da ação militar dos EUA indica para a Rússia que Washington não tem interesse na queda de Assad e, portanto, é sensível à importância que Síria tem para a Rússia no Oriente Médio. Lembra-se que nessa região prevalecem aliados norte-americanos, como Arábia Saudita, Israel, Emirados Árabes Unidos e Turquia, e, portanto, a Síria – sendo o único aliado russo na região – ganha relevância estratégica para Putin.

A Rússia, sendo exportadora de gás natural e petróleo, não tem na Síria um curto interesse econômico, mas estratégico, vez que manter uma posição no Oriente Médio permite a Putin barganhar posições no Leste Europeu, que é a sua área geopolítica sensível, em virtude das bases militares e nucleares da OTAN na Europa e na Turquia.

Estar presente em uma região caracterizada por uma agenda de elevada relevância para os EUA e para OTAN, incluindo interesses sobre o petróleo e sobre os investimentos, a questão do terrorismo e o problema da crise migratória, confere a Putin capital político para demandar contrapartidas e concessões no Leste Europeu. A conquista da Crimeia em 2014 pelos russos e o acordo energético com a China no mesmo ano, de modo a neutralizar as sanções unilaterais europeias (G1, 2014), demonstram que o padrão de Putin é conseguir espaços geopolíticos sob posição de barganha.

Dessa forma, EUA sinalizam para a Rússia que pretende assumir posição mais agressiva em relação àquelas potências que desenvolvem ou pretendem usar armas químicas, biológicas e, principalmente, nucleares, sem, contudo, indicar uma disputa direta por espaços de poder contra Moscou. Do contrário, a Rússia se veria pressionada na Síria de tal modo que a única resposta seria a militar, porquanto perder a Síria seria o mesmo que perder pressão negociadora no Leste Europeu.

Trata-se, portanto, de atrair de modo forçado Putin e Xi Jiping para a mesa de negociação, de modo a eliminar ameaças iranianas e norte-coreanas em troca de concessões norte-americanas, como, por exemplo, de não usar mais a força. A rigor essa estratégia está em acordo com o discurso eleitoral de Trump, ao defender que os EUA precisam assumir uma posição de força, para pressionar grandes potências a agirem conforme o objetivo de Washington.

Ao contrário da administração Obama, em que houve uma tímida liberalização da agenda internacional, na qual o presidente norte-americano se afastou gradualmente de agir direta e militarmente no Oriente Médio, firmando acordos e delegando tarefas para países parceiros, a administração Trump busca também evitar envolvimentos diretos e delegar tarefas – como exigir da China que administre Kim Jong-un – assumindo, contudo, a estratégia da pressão e da dissuasão.

Assim, Obama e Trump buscam o mesmo objetivo geopolítico – salvaguardar a segurança nacional com o menor custo econômico e militar – mas o primeiro usa a diplomacia para firmar parcerias (como a havida entre EUA e Rússia na Síria), enquanto o segundo prefere a dissuasão e a barganha, métodos que ressoam na estratégia negociadora da carreira empresarial de Trump.

Além de Rússia, a ação de Trump objetiva enviar sinais para Irã e Coreia do Norte. Como já comentado, o uso da força norte-americana para coibir o uso de armas químicas será o mesmo ou maior para aquelas potências que desenvolvam ou usem armas nucleares. Nesse sentido, a dissuasão visa intimidar esses regimes a fazerem concessões para Washington.

Aqui cabe mencionar que o mesmo intento aplicado à Rússia se reproduz para a China. No dia 08 de abril de 2017, os EUA deslocaram o porta-aviões Carl Vinson para a península coreana (EL PAÍS, 2017), simulando o mesmo modus operandi aplicado à Síria. Significa que, se Xi Jiping não agir em busca de neutralizar Kim Jong-un, os EUA poderão atacar o regime norte-coreano de modo a destruir a capacidade nuclear deste. Novamente, o objetivo de Trump não é propriamente derrubar Kim ou conquistar a Coreia do Norte, mas eliminar a ameaça nuclear desse país, garantindo a segurança nacional do EUA, da Coreia do Sul e do Japão.

Ressalva-se aqui que o interesse da China em Pyongyang é o mesmo da Rússia em Damasco: possuir posição geopolítica e capacidade de barganha perante Washington para avançar agendas regionais. Portanto, economicamente uma Coreia do Norte capitalista interessaria mais para o investimento chinês, mas o significado de Pyongyang é geopolítico, porquanto a China tem no regime de Kim Jong-un importante posição para negociar a defesa do Mar da China e as relações com a província rebelde de Taiwan.

Assim, Trump envia recado à China de que manter a Coreia do Norte incólume pode custar caro e que os EUA não têm medo de agir unilateralmente. Isso está de acordo com o discurso de Trump de esperar muito dos chineses. Ademais, também denota que as opções da administração Trump em relação à China são limitadas, porquanto uma guerra comercial dos EUA com a China, para forçar esta a agir contra Kim Jong-Un, pode ser prejudicial à manutenção da inflação em patamares baixos nos EUA, evitando um colapso de apoio popular ao governo Trump.

A estratégia de Trump, por outro lado é grave, pois pode ser um precedente para que Rússia faça o mesmo em território de países da OTAN, daí por que Trump avisar China e Rússia sobre o ataque na Síria. O aviso teve tanto a intenção de evitar feridos ou mortos russos (o que desencadearia repercussões inaceitáveis para Washington a partir de retaliação militar russa), como também manter um canal de comunicação confiável entre Washington, Pequim e Moscou.

Em relação à ONU, a ação de Trump pode ser interpretada com mais gravidade. Conforme asseverado por Nikki Haley, os EUA demonstraram para além do discurso que poderá agir unilateralmente, o que significa que Trump não enxerga na ONU uma via possível de gerenciamento de crises internacionais, nem mesmo como um elemento de inserção internacional, considerando os vetos de China e Rússia no CSNU.

Por corolário, esse efeito gerará mais insegurança dos demais países, em especial daqueles que dependem da ONU para serem ouvidos e se defenderem. Também sinaliza para Rússia e China que os vetos no CSNU serão inócuos e que a mesa de negociação não é no CSNU, mas na mesa bilateral.

Isso, por um lado, simplifica o processo negociador para os EUA, higienizando a pauta de negociação da influência de possíveis terceiros países, tal como ocorre no CSNU com seus 15 países-membros. Ademais, isolando China e Rússia dos demais países encerra por aumentar o poder de barganha de Trump (juntando diplomacia com vigor econômico e poder de dissuasão) e evita desgastes desnecessários com países terceiros.

Vistos o contexto geopolítico da crise síria e os aspectos de políticas doméstica e externa de Trump, cabe como última fase dessa análise de conjuntura refletir sobre as possíveis repercussões da ação militar assumida pelos Estados Unidos.

Primeiramente, Assad chamou de agressão o ataque dos EUA e deve considerar isso inclusive intervenção em assuntos internos. Essa posição de Assad é fundamental para passar uma imagem de altivez e indignação dentro do país, de modo a manter a confiança de suas tropas e grupos aliados e evitar colapso da estratégia de aterrorizar os dissidentes. Uma demonstração de fraqueza pode inspirar a oposição a seguir de modo mais determinado.

Ademais, a reação de Assad internamente será forte para evitar que civis e rebeldes acreditem que o envolvimento dos EUA encerrará de uma vez seu regime. Portanto, essa reação será militar e convencional contra civis e rebeldes, pois nesse caso não se estaria ultrapassando a linha vermelha das armas químicas.

Por outro lado, Assad deve cobrar uma resposta diplomática de Moscou para conseguir a neutralidade de Trump e a pressão para que EUA se afastem e cumpram o discurso de que a intervenção foi somente em razão das armas químicas. O regime de Damasco não tem outras opções que não manter severidade internamente e exigir respostas de Moscou. A ONU não é uma opção para Assad, em virtude da crise humanitária em curso na Síria, a qual concorre contra seu governo.

Entretanto, o discurso de Trump conclamando nações civilizadas remete a uma possível ação militar mais significativa dos EUA na Síria e no Iraque, até mesmo porque Trump tem como meta encerrar o Estado Islâmico, o que exigirá um apoio contundente de Putin em defesa de Assad.

No caso da Rússia, a ação dos EUA é grave, pois é uma intervenção em zona histórica de influência russa, indicando para Moscou que novas Crimeias podem vir a ser mais custosas. Contudo, Trump ao avisar o ataque, demonstra cuidado e estar aberto ao diálogo diplomático para rever a Síria, considerando que tanto Putin como Trump ainda buscam eliminar o Estado Islâmico.

Salienta-se inclusive que Putin entrou no conflito sírio para desmantelar o Estado Islâmico, mas acabou adicionando a isso uma clara defesa de Assad e, portanto, o ataque dos EUA não afeta a lógica da ação. Putin deve compreender a ação norte-americana em um contexto maior, direcionado para revisar posições em outros contextos geopolíticos.

Assim, Putin deverá agir em vários fronts antes de tomar qualquer decisão. Ele deve manter a defesa no CSNU de que os ataques químicos não vieram de Assad e manter o veto em qualquer possível resolução de intervenção na Síria. Em primeira instância, é vital para Putin manter sua influência sobre a Síria, caso contrário, como visto, pode arriscar sua estratégia no Leste Europeu.

Na medida em que, caso aprovadas missões técnicas da ONU para investigar o ataque químico, vá se comprovando que Assad foi autor, Putin se preparará para rodadas no CSNU para estabelecer sanções contra Damasco e deverá barganhar com as medidas de sanção em troca de não intervenção dos EUA ou da OTAN na Síria e, em último caso, se comprometendo a de fato desmantelar o Estado Islâmico.

Nesse aspecto, Rússia deverá ter apoio da China no CSNU e os dois países deverão buscar uma solução diplomática que neutralize o movimento de Washington, o que, no caso da Síria deve incluir um compromisso de Assad em desmantelar sistema de armas químicas, ação multilateral com os EUA para encerrar o Estado Islâmico e o respeito à soberania síria. Esse mesmo modelo pode ser buscado pela China no CSNU para o caso norte-coreano.

Com a Síria, Putin renovará o discurso de apoio a Assad, cobrará de modo contundente explicação de Washington para os ataques com Tomahawks, de modo, por um lado, a dar uma resposta a Assad e de outro defender poder de negociação com Trump, pois qualquer comportamento de aceitação de Putin poderá gerar repercussões de fraqueza e ilegitimidade no povo russo, diminuindo sustentação política de Putin, além de incentivar oposição no Leste Europeu.

Além disso, Putin não retirará tropas da Síria, pois seria uma demonstração de enorme fraqueza, o que comprometeria a política russa para o Leste Europeu pelo precedente; pelo contrário, reforçará presença na Síria e defesa de Assad, argumentando a Trump que mantenha sua posição de atacar Estado Islâmico e seu compromisso de não intervir em Damasco. Para a Rússia, a via mais rápida de gerar estabilidade no Oriente Médio é com a manutenção de Assad, o que, com a eliminação do Estado Islâmico, atenuaria a crise migratória na Europa.

A opção de uma ação militar de Putin contra Trump tem custo elevado e inaceitável para Moscou e está fora de cogitação, e essa é a mesma percepção de Trump, caso contrário, uma resposta militar já teria sido executada no curtíssimo prazo.

No caso da Europa, a OTAN demonstra cautela, mas apoia os EUA (OTAN, 2017a), vez que Washington assume significativa parte do orçamento da aliança. Frisa-se que a OTAN permanece em apoio a Ucrânia e continua afirmando que é inaceitável a anexação da Crimeia por parte da Rússia (OTAN, 2017b), de tal modo que a organização atenderá o pedido de Trump de unir nações civilizadas.

Por sua vez, os países europeus estão cautelosos porque a União Europeia enfrenta o Brexit, os movimentos nacionalistas, o possível referendo escocês, as eleições na Alemanha e na França, a questão da Crimeia e Ucrânia, a questão migratória e crise econômica em Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha. Dada uma agenda regional tão conturbada, os governos europeus preferirão a cautela, de modo a avaliar as repercussões internacionais e evitar contaminar as suas respectivas políticas domésticas.

Entretanto, suas sociedades exigirão a condenação de Assad, mas estão mais interessadas em resolver a crise migratória e questões econômicas do que apoiar ações militares com os EUA. Destarte, não haverá posicionamento comum entre os governos europeus, salvo o compromisso deles com a OTAN.

Portanto, nessa análise de conjuntura se verifica que a ação de Trump só é compreensível se verificadas as suas repercussões no sistema internacional, vez que os Estados Unidos possuem uma agenda global, voltada para remodelar a cena internacional conforme demanda sua segurança nacional.

 

Referencial Bibliográfico

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Sobre o autor

Carlos Costa Jr. é Coordenador do Curso de Relações Internacionais do Centro Universitário do Distrito Federal – UDF (carlos.udf@gmail.com).

Como citar este artigo

​​

Mundorama. "A reação Militar de Trump ao Ataque Químico na Síria, por Carlos Costa Jr.". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 25/05/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23512>.

 

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