Estado de guerra, golpes e democracia, por Thiago Gehre e Carlos Siqueira

Três processos até então com dinâmicas históricas paralelas parecem se encontrar neste momento do século 21, transformando os tempos interessantes (HOBSBAWN 2007) das relações internacionais em um emaranhado complexo de atuações envolvendo democracias, golpes e estados de guerra

Visão crítica sobre a política internacional no século 21

O retorno de ideias conservadoras desencadeou lógicas comportamentais semelhantes àquelas dos anos da Guerra Fria como o patrocínio de golpes e o fomento de guerras localizadas (BANDEIRA 2016). Processos eleitorais nos EUA e na Europa, bem como o retorno da política de poder da Rússia de Vladimir Putin reforçam processos belicistas, como a guerra na Síria, ou desintegradores, como o Brexit (saída da Grã-Bretanha da União Europeia). Ao mesmo tempo, o cerceamento à livre circulação de pessoas, a vigilância informacional e o abandono dos imigrantes vindos de zonas de conflito à sua própria sorte desafiam o comprometimento das democracias com a proteção da pessoa humana e garantia das liberdades individuais.

O mundo encontra-se em uma condição de alerta pela alta carga de retórica presente nos discursos e ações das grandes potências. Sob a retórica da promoção e exportação da democracia, as libertações de Iraque e Afeganistão e a chamada primavera árabe, ao reposicionarem a preponderância ocidental na região, geraram convulsão social e instigaram o recrudescimento do sentimento antiamericano mundo a fora.

Tal estratégia, contudo, esbarrou na proeminência de dois gigantes da política internacional, China e Rússia, que ainda conseguem conter os ímpetos ocidentalistas, tanto pela capacidade militar de agir nos contextos de guerra como na conformação de uma multipolaridade econômica mundial

A musculatura da China é um aspecto histórico e parte de sua singularidade (KISSINGER 2011). Habituada a lidar com as adversidades domésticas e externas, desde a formação da República Popular da China, soube movimentar-se em um ambiente regional de hostilidades e disputas territoriais, de pressões econômicas, no jogo bipolar entre soviéticos e norte-americanos durante a guerra fria. Aliada da União Soviética na afirmação da liderança do Partido Comunista Chinês, garantiu dos EUA um assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas e atenuou a ingerência de Moscou em assuntos chineses. Nos anos 1970, ao receber os emissários de Washington (Nixon e Kissinger) inaugura a fase de acercamento e abertura econômica e resiste aos ventos que varreram o socialismo soviético e o leste europeu, além de suportar os ataques constantes da mídia ocidental quanto à liberdade e a democracia em seu território Taiwan se mostra como um símbolo para entender a relação de aproximação ou beligerância com o ocidente (VISENTINI 2013).

A Rússia, por sua vez, esbanja o traço identitário de estabilidade civilizacional histórica, com uma engenharia constitucional e política de democracia iliberal (ZAKARIAS 2004), constituída pela centralização decisória e com papéis hierarquicamente definidos. A ideia de democracia ocidental foi adaptada aos desígnios estratégicos de potência, controlando tanto os pleitos por participação interna da sociedade como as tentativas de levante em sua vizinhança próxima. Tanto o avanço sobre a Ossétia do Sul (2008) como a reação ao levante dito democrático na Ucrânia instauram um estado de guerra sem termo no horizonte próximo, o que reforça o caráter de bipolítica, ou seja, de ênfase em uma noção vaga sobre um tipo russo de ser e de viver encapsulando um conjunto de populações em suas imediações diretas. (CASSULA 2017).

A espaço latino-americano em águas turbulentas

A América Latina estaria “pescando em águas turbulentas” (fishing in troubled Waters) ao se deixar contaminar pelas agitações do grande jogo da política internacional. As mudanças políticas em Honduras (2009), no Paraguai (2012) e no Brasil (2016) foram consideradas (por narrativas concorrentes) como golpes brancos ou mudanças suaves de regime. Pareciam ao mesmo tempo produto da máquina de exportação de democracia e produto das instituições domésticas carcomidas pela corrupção (BANDEIRA 2016).

Um sistema internacional com hegemonia das democracias de mercado (VIOLA & LEIS 2007) pressuporia que, juntas como democracias de mercado consolidadas, a democracia seria o modelo político ideal, o capitalismo de mercado sua ordem definidora e a globalização seu veículo de manutenção ou transformação da ordem. A resistência de países como a Venezuela, desde a chegada de Hugo Chaves ao poder, causa não apenas desconforto político e diplomático, mas a necessidade de intervir, às vezes, pela promoção de guerras, golpes de estado ou promoção forçada da democracia. À guerra midiática, sucederam ações orquestradas na Organização dos Estados Americanos por Washington, Brasília e Buenos Aires contra o governo de Nicolás Maduro. A sistemática desqualificação com base em chavões como falta de liberdade, autoritarismo e perseguição política, aponta para uma linguagem construída com a única finalidade de remover Maduro do poder a qualquer custo.

Considerações finais

Giovanni Sartori (1965), alerta para o fato de que precisamos reinventar a democracia. O simples encontro com a pluralidade, ou o restabelecimento dos mecanismos de freios e contrapesos dos Federalistas com o intuito de conter as maiorias eventuais que jogam no pork barrel (troca suja); ou ainda a supervalorização do poder judiciário, talvez não sejam mais os caminhos naturais em um quadro de globalidade das relações sociais, políticas, econômicas e culturais.

De fato, o jogo das grandes potências no século 21 se estabelece mais claramente em torno da instalação de um estado permanente de guerra, da utilização sistemática de golpes para mudanças de regime e pela preservação da democracia de mercado como condição sine qua non para o avanço da globalização e da interdependência econômica. Ao capitanear o arranjo do BRICS, em especial de um Novo Banco de Desenvolvimento, criou-se uma trincheira de resistência ao poder estrutural hegemônico. Em contrapartida, abriu espaço para a contaminação e infiltração hegemônica contra a resistência, tanto nos golpes como no estado permanente de guerra. Sem necessariamente se dobrar a um poderio militar, regiões como África e América Latina sofrem das doenças do corpo político global associadas à guerra, aos golpes e às debilidades da democracia.

Referências

AYALDE. FISHING IN TROUBLED WATERS WITH LUGO. Telegram (cable). 2009 March 5, CONFIDENTIAL. From: Paraguay Asunción. To: Secretary of State. USA. https://wikileaks.org/plusd/cables/09ASUNCION143_a.html

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A desordem mundial: o espectro da total dominação: guerras por procuração, caos e catástrofes humanitárias. 1 ed. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

CASSULA, Philip. Russia’s Foreign Policy from the Crimean Crisis to the Middle East: Great Power Gamble or Biopolitics?. Volume 2, Issue 1 (Russia’s Dual Roles in Global Politics as a Traditional Great Power and a Rising Power), Feb. 2017, pp. 27-51.

HOBSBAWM, Eric J. Globalização, democracia e terrorismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

KISSINGER, Henry. Sobre a China. São Paulo: Objetiva, 2011.

SARTORI, Giovanni. Teoria Democrática. Fundo de Cultura, 1965.

VIOLA, Eduardo & LEIS, Hector Ricardo. Sistema internacional com hegemonia das democracias de mercado: desafios de Brasil e Argentina. Florianópolis: Insular, 2007. 232p. ISBN: 978-85-7474-339-4.

VISENTINI, Paulo [et al]. BRICS: as potências emergentes: China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul/- Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

ZAKARIA, Fareed. O futuro da liberdade: A Democracia Liberal nos Estados Unidos e no Mundo. São Paulo: Gradiva, 2004.

Thiago Gehre é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasilia (gehre.unb@gmail.com)

Carlos Eduardo Siqueira é Doutorando em Relações Internacionais pelo DINTER UnB/UFPA (kadufibra@gmail.com)

Editoria Mundorama. "Estado de guerra, golpes e democracia, por Thiago Gehre e Carlos Siqueira". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 19/10/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23457>.

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