Síria: avanço de Moscou e indefinição de Washington, por Virgílio Arraes

A Rússia encontra-se no centro dos veículos de comunicação tradicionais norte-atlânticos, não por sua maciça intervenção aérea no conflito da Síria, mas por ter-se envolvido por suposto na política interna dos Estados Unidos no ano passado.

Contudo, atribuir a Moscou o poderio de influenciar de maneira decisiva o resultado da eleição presidencial seria reconhecer a decadência, malgrado momentânea, de Washington. Não parece crível a inaudita vulnerabilidade exposta em face da sofisticação tecnológica governamental.

A crítica exacerbada à atuação eventual do Kremlin nos assuntos da Casa Branca deriva em parte da decisão dele de ingressar na confrontação síria ao lado da longeva ditadura de al Assad a partir de 2015. Assim, é preciso chamar de algum modo a atenção para a gestão Pútin – vide o destaque midiático à passeata na capital contra a corrupção no dia vinte e seis.

Com o auxílio, o governo baatista pôde recuperar-se a tempo e, logo em seguida, forçar o recuo da oposição armada, emaranhado no qual há de democratas a fundamentalistas sunitas, muitos dos quais financiados e treinados de maneira externa.

De forma recente, os adversários do regime autoritário iniciaram ofensiva de relativo porte na capital, a primeira desde 2012, porém, depois de alguns dias, aparentavam precoces sinais de fadiga. De toda sorte, as batalhas em Damasco simbolizam a fragilidade dos dois bulhentos lados, dado que o esgotamento é visível após vários anos de encarniçados combates; por isso, registra-se a instabilidade na recuperação dos territórios de cada um deles, posto que no norte os inimigos da administração consigam sustentar situação melhor.

Sem a contínua existência de ajuda estrangeira a ambos os pelejadores, chegar-se-ia a um impasse. Especula-se que a arremetida da oposição tenha-se originado do desrespeito da ditadura no tocante ao cessar-fogo, difíceis de cumprir por falta de boa vontade dos contendores.

No entanto, sem a atuação incisiva do governo norte-americano na confrontação, o russo pode contrapor-se sem sérios problemas, através de constantes ataques aéreos nas áreas observadas por Damasco como rebeldes.

A suposta omissão da Casa Branca, envolta em problemas internos de maior repercussão junto à sociedade, apresenta à primeira vista a perspectiva de que a ação bélica intensa de um dos disputadores levaria a guerra a em breve ao encerramento. Mencione-se, no entanto, que o apoio ocidental aos curdos não diminuiu.

Mesmo assim, o recolhimento temporário não contribui para a reflexão do papel castrense dos Estados Unidos ao redor do mundo, dado que o presidente Donald Trump propôs a ampliação de verbas para o Pentágono em quase sessenta bilhões de dólares, a despeito do reconhecimento de que o dispêndio apenas no Oriente Médio acima de cinco trilhões de dólares em menos de duas décadas não satisfez os desígnios diplomáticos e militares.

Acrescente-se que a atenção de Washington mantém-se ainda no conturbado Iêmen, onde a utilização de veículos aéreos não tripulados (VANTs) contra alvos denominados terroristas não pode ser de maneira alguma desconsiderada. O diminuto país tem o controle na prática efetuado pela vontade da Arábia Saudita.

Malgrado a situação de hesitação da administração estadunidense atual persista, o adequado seria a Organização das Nações Unidas (ONU) assumir de modo incisivo o encaminhamento das negociações de paz, haja vista o eco naquela ampla área, de sorte que não se permitisse a preponderância de uma grande potência lá, a Rússia. A quinta rodada entre os beligerantes em Genebra ao cabo de março não parece animadora, a despeito de tópicos como eleição e nova constituição.

Desta feita, a insatisfação com o autoritário regime irá perdurar sem que haja possibilidade de reforma imediata por Assad, vez que a força dos ventos da Primavera Árabe exaure-se e, por conseguinte, a atenção da opinião pública do Ocidente também. Sem acompanhamento externo amiúde, a preocupação com a reverberação de decisões autoritárias apouca.

Outro aspecto a considerar é o grau de retaliação a ser aplicado pela administração baatista, caso retome o controle total do território, apesar de restar a possibilidade de investidas terroristas aqui ou acolá.

Civis bastante afetados pela longa duração da peleja poderão pressionar na medida do possível o governo a ser rigoroso com os derrotados, em especial com os estrangeiros cujos vínculos com seus países de origem, se norte-atlânticos, encontram-se abalados.

Destarte, a implacabilidade no tratamento dos adversários deverá ser a marca, com o propósito de afastar a ocorrência de novo levante em massa, visto que os descontentes permanecerão à espera se houver a tentativa de retomar o status administrativo anterior à irrupção da contenda.

Não há dúvida de que a ideologia integrista resistirá enquanto continuar a sustentar-se o conjunto de problemas vinculado àquele tipo de gestão – autoritarismo profundo, anacronismo administrativo e desigualdade social.

Encerrada de forma hipotética a guerra, os depoimentos dos estrangeiros cativos serão importantes durante a apuração judicial, dado que se poderia verificar a intensidade da colaboração de grupos ou mesmo países no desenvolvimento da confrontação. Assim, poder-se-ia compreender melhor de que maneira o denominado Estado Islâmico (EI) teria sido auxiliado, em especial na parte financeira e armamentista.

Concernente ao tópico bélico, desconfia-se do emprego de equipagem norte-americana, através do fornecimento de sauditas. A identificação majoritária do treinamento é pública: em sua maioria, de iraquianos desalojados das forças armadas ou da polícia a partir da Segunda Guerra do Golfo, no começo de 2003.

Os adeptos da primeira hora eram de extração sunita, dada a hostilidade xiita ao chegar ao poder com auxílio estadunidense quando da invasão em 2003. O tratamento ruim concedido de forma geral a eles reverteu-se no estímulo da constituição de milícias com o propósito incipiente de autodefesa. À proporção que o tempo passou, elas tentam recuperar o poderio de novo.

Ponto a ser valorizado no Iraque e na Síria no cálculo da atuação das grandes e médias potências envolvidas com a luta fratricida: a influência política do Irã sobre as gestões estatais ou sobre as agremiações de características xiitas.

Embora inclinado às administrações atuais, Teerã preocupa-se com a falta de estabilidade na região após quase década e meia da desnecessária circulação norte-americana naquele rincão e dos efeitos, malgrado declinantes, dos ventos politicamente primaveris.

Outra consequência vincula-se ao posicionamento da Arábia Saudita. Posto que abastecida pela atual fartura petrolífera, Riade tem ciência da intermitência disso, em função do ritmo do crescimento da economia global nos anos recentes. Destarte, não há garantia de apoio logístico ininterrupto a seus parceiros médio-orientais.

Por último, o posicionamento aleatório de Ancara desde o desdobrar do conflito síriaco, por causa da necessidade singular de acompanhar o fortalecimento dos desrespeitados curdos, independente da questão fronteiriça, de modo que ela possa neutralizá-lo, a fim de resguardar sua composição territorial. Autonomia ampla a eles, por exemplo, na parte síria significa-lhe turbulência em seu próprio solo.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br)

Como citar este artigo

​​

Mundorama. "Síria: avanço de Moscou e indefinição de Washington, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 28/06/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23443>.

Seja o primeiro a comentar

Top