As eleições gerais nos Países Baixos no contexto europeu, por Giorgio Romano Schutte

Raras vezes processos eleitorais nos Países Baixos, que é do tamanho de Sergipe e tem dezessete milhões de habitantes, chamaram tanto a atenção, em particular na própria União Europeia (UE). Era o primeiro de uma série de países a realizarem eleições neste ano, seguido por França, Alemanha e, provavelmente, Itália, que, em seu conjunto, definirão os rumos da UE. Embora não tenha influência direta sobre os demais, o resultado na Holanda deveria funcionar como um termômetro da capacidade da direita populista de levar a onda Brexit e Trump para a Europa continental. No dia seguinte, o mundo respirou aliviado, e as manchetes e comentários dos principais jornais de opinião foram na mesma linha que os do jornal Valor Econômico, no Brasil: “Holanda rejeita extrema-direita e fortalece o centro” ou os da BBC: “Dutch election: European relief as mainstream triumphs”. Neste ensaio, tentaremos entender melhor a dinâmica dessas eleições, realizadas em 15 de março passado.

A tradição política holandesa

Ian Buruma, autor do livro Murder em Amsterdam, publicou um artigo de opinião no New York Times com o título How the Dutch Stopped Being Decent and Dull. O autor se refere à previsibilidade que marcou a dinâmica política no pós-guerra até o final do século XX. Na Holanda, uma monarquia com sistema parlamentarista, havia uma dinâmica política bem definida. O jogo se dava tradicionalmente entre os três grandes partidos: os social-democratas (Partido do Trabalho -PvdA), o centrista Democracia-Cristã (CDA) e os liberais de centro-direita (Partido do Povo pela Liberdade e Democracia – VVD). Este último ficava sempre em terceiro, enquanto os outros dois disputavam o primeiro lugar. O CDA, na verdade, foi criado somente em 1980, a partir dos dois principais partidos protestantes e o partido católico, embora já atuassem juntos politicamente. Assim, dependendo das eleições, forma-se ora um governo do centro-esquerda ora do centro-direita. Os três, inclusive, mantiveram historicamente certo consenso a respeito das grandes questões, entre as quais a integração europeia.

A partir das eleições de 1998, o comportamento do eleitor mudou no sentido de abandonar sua lealdade e tornar-se um eleitor flutuante, provocando grandes oscilações entre os resultados eleitorais. Foi nessa eleição que a Democracia-Cristã ficou em terceiro, dando lugar a uma coalizão atípica entre a centro-direita e a centro-esquerda. Também começou a haver flutuações na percentagem de absenteísmo. Não sendo obrigatório o voto, o absenteísmo havia ficado, historicamente, na marca de 20%, e começou a flutuar em torno de 25%, às vezes diminuindo, às vezes aumentando. Esse processo refletiu a perda de lealdade a priori, por um dos partidos, por ser cristão, trabalhador ou profissional livre. O eleitorado, e, sobretudo, os jovens, começaram a desenvolver um comportamento eleitoral mais pragmático e a flertar cada vez mais com um dos tantos partidos menores que nunca faltaram na política holandesa, diminuindo o peso das três grandes e complicando, assim, a formação de uma coalizão para sustentar um governo durante quatro anos.

Migração e populismo da direita

Há uma longa tradição de tolerância com os migrantes que marca a história de Amsterdam, o que, inclusive, diferencia a capital do resto do país. Judeus, hugenoten, armênios, entre vários outros, encontraram em Amsterdam um refúgio de tolerância religiosa. Essa é a imagem que o país gosta de vender de si mesmo: tolerante e liberal. Isso, porém, sempre refletiu somente parte da experiência histórica. Ao final houve atrocidades e racismo que acompanharam a experiência colonial, em particular na Indonésia, nas Antillas, no Suriname, sem falar da palavra holandesa mais conhecida no mundo: apartheid, introduzida na África do Sul por colonos holandeses. Um passado colonial que provocaria, depois, ondas de migração. Houve também a vergonha, sempre bem escondida, da colaboração passiva com a ocupação nazista, que resultou, ao longo da Segunda Guerra, na morte de cerca de cem mil judeus. Embora houvesse atos de resistência e solidariedade com os judeus, como na greve dos operários de Amsterdam, em 25 de fevereiro de 1941, os alemães encontraram facilidades e colaboração demais, o que lhes permitiu, com pouca presença do aparato repressivo, exterminar mais de 85% da população judaica do país, algo que perturbou a consciência nacional no pós-guerra.

No pós-guerra, com a descolonização e a necessidade de mão de obra, houve uma migração, primeiro de trabalhadores do sul da Itália e, depois, de turcos e marroquinos. Eram vistos como solução para a construção da prosperidade, e a visão consensuada era dar espaço a uma multiculturalidade. Ao final, o país tinha, no início do século dezenove, pacificado suas disputas religiosas entre protestantes, católicos e laicos, e deveria ser capaz de incluir também outras culturas e religiosas.

Com a reestruturação produtiva, o deslocamento de parte das indústias, como a naval, para países de mão de obra barata e a recessão econômica, surgiu, no início da década de 1980, pela primeira vez, um partido abertamente racista, com o nome de Partido do Centro (CentrumPartij), que chegou a conquistar vereadores nos grandes centros urbanos e um deputado no Congresso. Embora de pouca expressão eleitoral, ele conseguiu provocar grandes debates, mas enfrentou uma defesa quase unânime e total do conceito da sociedade multicultural. Uma rara exceção foi um partido na época nanico, sem representação parlamentar, o Partido Socialista (SP), que, na década de 2010, iria alcançar votações expressivas em torno de 10%. Ele se distanciou do resto da esquerda moderada e radical ao alertar para as contradições que o modelo multicultural estava provocando e o sentimento de abandono por parte da classe trabalhadora autóctone. Por muito tempo o SP ficou isolado nesta posição. Ou seja, ao contrário do que iria acontecer mais tarde, esses elementos racistas não tiveram nenhuma possibilidade de contaminar os demais partidos. Em poucos anos, o partido disapareceu, em um contexto de retomada da economia e do emprego.

Demorou até o início da década de 2000 para que o debate sobre migração ganhasse novamente um espaço de destaque. Mas, desta vez, com força eleitoral, na figura do professor universitário, abertamente gay, o carismático Pim Fortuyn, que chegou a militar no partido social-democrata, mas se apresentou com uma lista própria (LPF), com um discursos populista contra o perigo do que ele chamou de islamização do país. Contra o Islã não deveriam ser colocados a tolerância e os braços abertos da sociedade multicultural, mas a defesa dos valores da cultura holandesa e a exigência de integração nesta cultura ou expulsão. Ou seja, uma rejeição da ideia de que migrantes, e seus descendentes, pudessem enriquecer a cultura holandesa. Ele se tornou um fenômeno contra o qual os partidos tradicionais não tiveram resposta pronta. Tudo indicava que a sua lista iria se tornar o maior partido nas eleições de maio de 2002, quando, a nove dias das eleições, ele foi assassinado por um militante de um movimento ambientalista. A LPF continuou na disputa mesmo sem o líder e ficou em segundo lugar, ganhando 25 dos 150 deputados (17% dos votos). A esta altura, os três grandes partidos representavam, em seu conjunto, somente 57% do eleitorado. Observou-se, sobretudo, uma queda forte do partido socialdemocrata, que indicava que parte expressiva da sua tradicional base teria sido ganha pelo discurso contra os migrantes. Porém, sem o líder, a LPF entrou rapidamente em uma decadência total, dividiu-se e não alcançou mais representação nas eleições seguintes de 2006. Há de registrar ainda o assassinato, em Amsterdam, do cineasta famoso por sua postura crítica ao Islã, Theo van Gogh, por um jovem marroquino, em 2004, que mostrou, de certa forma, o perigo de uma radicalização. Foi, porém, também nesta eleição, de 2002. que um dos vários partidos da esquerda radical, o Partido Socialista (SP), alcançou um resultado surpreendente, com nove deputados, usando um discurso de defesa dos trabalhadores holandeses pela esquerda. E também contribuindo com a erosão da social-democracia tradicional. A esta altura, inclusive, os partidos tradicionais, em particular a centro-direita, já tinha abandonado uma defesa firme da sociedade multicultural e incorporado parte do discurso em defesa da chamada cultura holandesa, à qual os migrantes deveriam adaptar-se obrigatoriamente.

No que diz respeito os números, em 2015, o órgão estatístico do governo (CBS) contabilizou 3,75 milhões de chamados alóctones sobre uma população total de 17 milhões. A definição oficial para alóctones é ter no mínimo um dos pais nascido fora do país, independentemente de ter ou não a nacionalidade holandesa. Os maiores grupos são, em ordem de grandeza: turcos (400mil), marroquinos, indonésios, surinameses e alemães (350mil). A intolerância cultural se concentra contra os marroquinos e turcos, que habitam, sobretudo, os bairros populares das grandes cidades. Outro grupo que se tornou alvo de intolerância (e motivo para criticar a União Europeia) são os poloneses, que contabilizam em torno de 110 mil.

União Europeia: de solução para problema

Foi em 2005 que outro acontecimento sinalizou que o establishment político estava perdendo o contato com uma parcela significativa da população. Naquele ano, a União Europeia, confiante de suas conquistas nos campos econômico, político e monetário – o euro parecia estar dando certo -, lançou um novo passo no processo de integração ao propor a Constituição Europeia. Em alguns países, entre os quais a Holanda, esta proposta deveria passar por um referendum. A Holanda sempre havia sido pró-Europa e todos os principais partidos convocaram a população a votar e votar favoravelmente. Para surpresa de muitos, o absenteísmo dobrou de uma média de 20% para 40%, e 62% votaram contra. Em seguida, um referendum na França também rejeitou a proposta, e a própria Comissão Europeia articulou o cancelamento dos referendos nos demais países, além de reeditar sua proposta no formato tradicional do Tratado (no caso o Tratado de Lisboa). Isso mostrou o potencial para o ressurgimento de agremiações populistas que pudessem se apresentar como antissistema, captando o voto de quem não se identificava mais com os partidos tradicionais. Nas eleições de 2006, as respostas vieram da esquerda radical e da direita populista. Um dos deputados do centro-direita (VVD), Geert Wilders, saiu do partido em 2005 para formar sua própria agremiação, o Partido pela Liberdade (Partij voor de Vrijheid – PVV), e elegeu, a partir do nada, nove deputados, com 6% dos votos, enfraquecendo, sobretudo, a centro-direita. E, na esquerda, o nanico de outrora, SP, conseguiu enfraquecer a socialdemocracia, alcançando nada menos de 25 de deputados, com quase 17% dos votos. As duas agremiações se posicionaram e continuam se posicionando contra o que enxergam como centralização do poder na Europa, por motivos muito diferentes. O PVV acredita que a burocracia em Bruxelas limita a liberdade dos indivíduos e a ação do Estado holandês para defender sua soberania, em particular suas fronteiras e, sobretudo, que Bruxelas é culpada pelo fluxo de migrações, não somente do mediterrâneo, mas também da Europa oriental, em particular da Polônia. De outro lado, o SP sustenta que Bruxelas é dominada por interesses antipopulares, neoliberais, que impõe políticas de austeridade e restringe a possibilidade de aplicar políticas econômicas e sociais em prol dos trabalhadores holandeses. No fundo, embora o partido tenha um passado remoto no movimento maoísta, ganhou espaço na arena política colocando-se com uma defesa firme do estado de bem-estar social, algo que a própria social-democracia deixou de fazer.

Impacto da crise global 2008

A crise financeira global de 2008 teve seu impacto também sobre as finanças na Holanda, o que foi simbolizado pela estatização do principal banco privado ABN-AMRO, para evitar uma crise bancária. As eleições de 2010 mostraram o avanço do PVV, que, agora, começou, de forma mais clara, a combinar um discurso anti-Islã e anti-migração com um discurso anti-Europa. Com isso, tornou-se o terceiro partido com 24 deputados. O SP caiu para 15 deputados, e houve um aumento do absenteísmo, que supera os 25%. Acentuou-se a decadência do partido da democracia-cristã (CDA). Os três grandes partidos tradicionais haviam caído, em seu conjunto, para pouco mais de 50% dos votos. A formação do governo se tornou muito complicada, e um governo de centro-direita só conseguiu aprovação no parlamento com os votos do PVV, embora sem assumir posições no governo. Esta aliança tácita com o PVV custaria caro para a Democracia Cristã, que, nas eleições seguintes, caiu para um mínimo histórico de treze deputados (contra 41 em 2006). O PVV, porém, percebeu que estava perdendo apoio popular ao indiretamente participar de um governo que implantava políticas de austeridade fiscal e por isso pulou fora, ao votar com a oposição pela queda do governo, provocando as eleições antecipadas de 2012.

Ao longo de 2011 e no início da campanha, as pesquisas de opinião mostraram uma inusual disputa pela liderança entre o PVV e o SP, deixando os partidos tradicionais para trás. Mas aí houve uma reação forte. De um lado, a centro-direita liderada por Mark Rutte, incorporou cada vez mais parte do discurso do PVV no que diz respeito à migração, à defesa dos valores holandeses e mesmo no que diz respeito à Europa, quando, de forma populista, prometeu negar mais apoios para a Grécia. De outro lado, surgiu uma nova liderança no partido socialdemocrata (PvdA), Diederik Samson. Carismático, físico nuclear que tinha trabalhando pelo Greenpeace, parecia um outsider, com forte apelo entre os jovens. Ele, por sua vez, incorporou uma linguagem mais claramente à esquerda, criticando a política de austeridade fiscal e ocupando a praia do SP. Afirmou, inclusive, estar aberto a um governo centro-esquerda, incluindo o SP e o partido Verde Esquerda, a outra agremiação da esquerda radical representada no parlamento. Ambos os movimentos provocaram uma reviravolta entre as pesquisas iniciais e o resultado final.

Samson conseguiu um milagre ao ressuscitar o partido social-democrata que, com 25%, subiu de 30 para 38 deputados, embora ainda aquém de seus resultados históricos. Mais do que o aumento de deputados do Partido, seus militantes pareciam ter reencontrado autoconfiança. Com isso, ficou pouco atrás do centro-direita (VVD), que alcançou o primeiro lugar, com 41 deputados. SP e PVV ficaram ambos com quinze deputados, muito além do que sonhavam. A grande perdedora foi a democracia-cristã, que ficou em quinto lugar. Acontece que essa estratégia da centro-direita e da centro-esquerda de esvaziar seus concorrentes, respectivamente a direita e a esquerda, provocou uma polarização forte entre VVD e PvdA, embora o absenteísmo tenha permanecido estável em torno de 25%. Depois das eleições havia um impasse para formar um governo e, para surpresa de seus eleitores, o mesmo Samson aceitou formar um governo com a centro-direita, algo que destoou demais do clima da disputa eleitoral. Isso foi claramente interpretado como traição, o que acabou com sua carreira política e faria o seu partido passar pela maior perda da sua história, como veremos em seguida.

Eleições de 15 de março de 2017

Quatro fatos tiveram um grande impacto sobre as eleições. Em primeiro lugar, o governo de centro-direita não fez um trabalho tão ruim aos olhos de seus eleitores, porque a economia voltou a crescer e o desemprego voltou a patamares baixos. Para o eleitorado de centro-esquerda, teria sido ruim porque essa frágil recuperação foi alcançada com uma política de desmonte de parte da estrutura de assistência social e de saúde, além de mais medidas antipopulares nas aposentadorias. Essas frustrações seriam também exploradas pela direita popular do Geert Wilders. Mas, enquanto a esquerda aponta os ganhos do setor financeiro e outros setores privilegiados para fazer o contraste com os ataques às garantias o bem-estar social, os populistas da direita criticam essa mesma política, contrapondo-a a uma suposta boa vida nos campos de acolhimento dos refugiados e dos traficantes estrangeiros nas prisões. O segundo fenômeno foi a crise humanitária, em consequência da política do Ocidente diante das primaveras e instabilidades no mundo árabe, com destaque para o desmonte da estrutura estatal na Libia e os incentivos à guerra civil na Síria com insistência, sobretudo por parte dos EUA, na queda do presidente. Bashar Al-Assad.

Isso provocou o maior fluxo de refugiados desde o final da Segunda Guerra Mundial, com, no caso da Europa, destaque para a Alemanha, que recebeu quase um milhão de refugiados. A direita populista explorou esse fenômeno ao criar a imagem de uma invasão dos bárbaros, além de tudo islâmicos. A Holanda, na verdade, foi muito modesta e fez o mínimo possível. Se olharmos para os números históricos tivemos a primeira onda de refugiados na época pós-guerra fria, entre 1998 e 2002, ano em que o total de refugiados chegou a oitenta mil. No período seguinte, até 2013, houve uma relativa calma e os fluxos anuais de refugiados para a Holanda ficaram abaixo de vinte mil. É verdade que, em 2015, esse número triplicou para quase sessenta mil, mas ainda relativamente baixo. E, em 2016, os números voltaram a cair depois dos acordos no âmbito europeu, em particular com a Turquia. O terceiro fato foi a onda de atentados que atingiu a França, a Bélgica e a Alemanha, faciulmente explorada por partidos que queriam sugerir um clima de guerra entre as civilizações, sobretudo do islã contra a Europa cristã. O quarto fator queinfluenciou as eleições foi a inesperada vitória do Brexit e de Trump, interpretado na Holanda até pela centro-direita como uma vitória do populismo, do qual ela quer se distanciar. Assim, Geert Wilders acreditou ter encontrado seus ventos para surfar rumo à glória de ser o partido mais votado, o que as pesquisas de intenções de voto afirmaram durante um bom tempo. Wilders fez questão de literalmente imitar Trump e se colocar como anti-establishment, sem vergonha. Isso, por exemplo, ao contrário de Marine Le Pen, na França, que tenta exatamente parecer salonfähig. Isso inclui também procurar o confronto com a imprensa. Os pontos principais de seu discurso estavam firmes: fechar as fronteiras, erradicar a influência do Islã na Holanda e sair da União Europeia para reconquistar a soberania nacional.

Como sinal dos novos tempos, aumentou a pulverização, e, nas eleições de 15 de março, concorreram 28 partidos, dos quais treze conseguiram representação no Parlamento. Os três grandes partidos de outrora ficaram somente com 38% do voto popular e 40% das vagas no Parlamento. Embora tenha sido pouco noticiado, houve uma queda expressiva do absenteísmo, que caiu de 25%, nas eleições de 2012, para 20%, contrariando o mito de um desinteresse da população na política que resultaria em constante aumento do absenteismo. A própria pulverização conseguiu mobilizar aqueles que se decepcionaram com os três grandes partidos, mas pelo jeito estão dispostos a votar por alternativas. Essa oscilação do absenteísmo nas eleições pode ser observada também em outros países europeus.

O resultado foi diferente do que se temia no que diz respeito à disputa pela liderança, ao dar uma margem grande de vantagem da centro-direita (VVD) sobre a direita populista, de 33 contra 20 deputados, não obstante o fato do VVD ter perdido oito deputados (ver Tabela 1). Como explicar? Há três fatores fundamentais. O primeiro é que os ventos favoráveis da dupla vitória Brexit/Trump acabaram perdendo força. As trapalhadas e o estilo de confronto de Trump pode não incomodar seus eleitores nos EUA, mas não convencem o eleitorado holandês a votar em alguém que se apresente como uma versão holandesa de Trump. Sobre o Brexit idem. As dificuldades que aparecem agora para realmente avançar com esse processo no Reino Unido desestimulam a defesa de um Nexit. Tanto é que o próprio Wilders, no final da campanha, parou de falar de Nexit, concentrando suas críticas à União Europeia ao direito de defender as fronteiras e ao poder regulatório da Comissão Europeia. Segundo, Wilders cometeu erros grotescos na campanha, em particular ao não participar dos debates – com exceção de um somente, com Rutte, na véspera – e buscar evitar a imprensa. Terceiro, Rutte teve um inesperado apoio do Recep Tayyip Erdoğan, presidente da Turquia.

O efeito Erdogan é um belo case de como a busca de tensões na política internacionais respondem a estratégias políticas internas. Erdogan planejou um referendum na Turquia para ampliar os poderes da presidência. As pesquisas de opinião mostram que essa proposta divide o eleitorado turco. Daí a busca dos votos dos Turcos no exterior, em particular na Alemanha, com seus três milhões de turcos, e na Holanda, onde vivem 400 mil. Na véspera das eleições da Holanda, o ministro de Relações Exteriores turco iria ser o principal orador em um comício na Holanda que foi proibido por Rutte. Em um ato incomum para a diplomacia holandesa, foi negado o direito de pouso do ministro, que teve de voltar para a Turquia. Logo em seguida, outra ministra entrou na Holanda por via terrestre para fazer um comício no consulado turco em Haia, lembrando que a distância entre Ankara e Haia é de cerca 3200 quilômetros.

Ela foi impedida e escoltada pela polícia até a fronteira com a Alemanha. Um simbolismo fortíssimo, que mostrou que Rutte sabe ser duro com os turcos e fazer respeitar a soberania nacional, tudo o que ele não seria capaz, de acordo com Wilders. Em reação a isso, Erdogan fechou a Embaixada holandesa em Ankara e partiu para agressões verbais, chamando a atitude de Rutte de fascista e nazista. Um dia antes das eleições na Holanda, lembrou o caso de Srebrenica, onde, em 1995, seiscentas tropas holandesas sob a bandeira da ONU negociaram a entrega da população Bósnia para os sérvios, o que resultou na matança de cerca de oito mil civis. Esse caso tinha resultado, em 2002, quando o relatório final comprovou os fatos, na queda do governo. O caso se parecia demais, inclusive, com a história do colaboracionismo holandês com a deportação dos judeus na Segunda Guerra Mundial. Diante disso, praticamente todos os partidos declararam apoio a Rutte e sua firmeza contra Erdogan. Para Erdogan, por sua vez, a escalada desse conflito diplomático era muito útil para demonstrar a necessidade de a Turquia ter um líder forte diante de uma Europa hostil e racista.

Tabela 1- Resultado das eleições parlamentares 2003-2017, em número de deputados

 (total 150) 2003 2006 2010 2012 2017
VVD

(centro-direita liberal)

28 22 31 41 33
CDA

(centro democracia cristã)

44 41 21 13 19
PvdA

(centro esquerda social-democrata)

42 33 30 38 9
D´66

(centro-esquerda liberal)

6 3 10 12 19
PVV

(Direita populista)

9 24 15 20
SP

(esquerda radical socialista)

9 25 15 15 14
GL

(esquerda radical ambiental)

8 7 10 4 14
Demais partidos 13 10 9 12 22
Absenteismo 20% 20% 25% 25% 20%

Fonte: Kiesraad http://www.verkiezingsuitslagen.nl

Assim, a centro-direita se tornou claramente o maior partido, e o mundo ficou aliviado ao constatar que, a exemplo das eleições presidenciais na Áustria, no final de 2016, a direita populista teria sido barrada. Isso, porém, pode ser uma conclução precipitada. Primeiro, porque o PVV de Wilders cresceu, embora muito menos do que as pesquisas apontaram no início do ano. E, ao final, se sabia que, mesmo chegando no primeiro lugar, jamais teria condições de formar um governo. Mas, mais importante, é que ele pautou boa parte das discussões. E os partidos, sobretudo do centro e da centro-direita incorporam, embora de forma mais civilizada, os temas e posições do Wilders. O próprio Rutte publicou no início da campanha uma carta aberta ao público focando da defesa da identidade holandesa. Da mesma forma, o partido da democracia-cristã (CDA), tradicionalmente pro-Europeu, conseguiu se recuperar um pouco adotando um discuro eurocético em nome de uma suposta defesa de valores nacionais. Esses partidos praticamente não discutiram, por exemplo, a questão do aquecimento global, embora a Holanda seja um país com parte expressiva de seu território abaixo do nível do mar e, portanto, ameaçado diretamente pelo aumento deste nível.

Outra questão a ser observado é o terremoto nos partidos de centro-esquerda e esquerda. Conforme mencionado, o partido social-democrata (PvdA) foi serveramente punido por, após uma campanha pela esquerda, ter entrado em uma coalizão liderada pelo centro-direita para formar um governo que se caraterizou por políticas de austeridade fiscal. Conforme pode ser observado na Tabela 1, ele perdeu 75% de seus votos e foi reduzido ao estatus de um pequeno partido, caindo de 38 para 9 deputados, com menos de 6% do eleitorado. Embora isso não significa que ele não possa futuramente se recuperar, visto a alta volatilidade do eleitor que, tudo indica, veio para ficar. Por enquanto, significa uma desestruturação e desmobilização do partido. De outro lado, dois partidos, conhecidos no passsado recente como “esquerda nanica” (klein links), conseguiram superar o PvdA ao ganharem catorze votos cada um. Ou seja, os dois partidos da esquerda radical juntos seriam o segundo partido do país. São o já mencionado SP- cujo resultado na verdade decepcionou o partido – e, de outro lado, o partido VerdeEsquerda (GroenLinks), sob liderança de um jovem, Jesse Klaver. (O Partido GroenLinks tinha sido criado em 1990 a partir de uma fusão de quatro partidos de esquerda: o partido comunista, o partido socialista-pacifista, o partido radical e um partido cristã de esquerda.) Carismático, com 30 anos Klaver, representa o contraponto de Wilders: tem pai maroquino e mãe descendente de indonésios. A sua liderança é basicamente a única explicação do crescimento de quatro para catorze deputados. Em Amsterdã, este partido conquistou, inclusive, o primeiro lugar. Outra prova de que o eleitorado flutuante procura lideranças foi o crescimento do partido de centro-esquerda liberal (Democratas 66), este sim abertamente pró-Europa, que contou também com uma liderança carismática forte nova.

E, por último, chamou atenção a entrada em campo do controvertido Partido Denk, criado por dois ex-deputados turcos do PvdA que aglutina lideranças dos migrantes e conseguiu uma votação expressiva nos bairros populares de Rotterdam e Haia, onde se concentra a população alóctone e nos quais herdou boa parte dos votos dos migrantes acostumados em votar no PvdA. O primiero partido de migrantes que se faz representar no Parlamento, ampliando mais um pouco a pulverização.

Com base nos resultados das eleições será formado um governo de centro-direita com o centro. Embora a economia esteja se recuperando e o desemprego sendo reduzido, permanece uma sensação térmica de insegurança em relação ao futuro, ceticismo em relação à Europa e uma crescente intolerência contra os imigrantes. O desafio da esquerda é superar sua divisão, ir além da defesa do estado de bem-estar e oferecer uma utopia para o futuro. Nada fácil. De outro lado, Wilders continuará o caminho mais simples de explorar esses sentimentos difusos de mal-estar, insatisfação e perda de identidade por parte de um grupo expressivo da sociedade, apontando os migrantes e Europa como os culpados. Contudo, não podemos negar a importância simbólica de Wilders não ter coseguido o primeiro lugar. Mas nada indica que se possa chegar a uma visão compartilhada e estável sobre o futuro da democracia e os rumos do país no contexto europeu, o que deixa uma margem para a direita populista continuar influenciando e pautando o debate.

Sobre o autor

Giorgio Romano Schutte é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC – UFABC (giorgio.romano@ufabc.edu.br)

Mundorama. "As eleições gerais nos Países Baixos no contexto europeu, por Giorgio Romano Schutte". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 28/04/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23370>.

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