Eleições 2017 na Europa: cenários e reflexos para a União Europeia, por Vinícius Pereira

O ano de 2017 será particularmente atribulado para a União Europeia. Apesar do empasse envolvendo a suprema corte e o parlamento britânico, a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, pretende, ainda em maio, invocar o artigo 50 do Tratado de Lisboa dando início ao processo que culminará com a saída do Reino Unido da UE, ou Brexit. Também programadas para este ano estão as eleições em países chaves do bloco europeu, nomeadamente Alemanha, França e Países Baixos, que definirão não apenas as forças políticas que os governarão nos próximos anos, mas também os rumos e até a própria sobrevivência do projeto europeu.

Trata-se do capítulo mais recente de um processo de ascensão de forças políticas eurocéticas, que teve início em 2011, momento em que os efeitos da crise financeira internacional se tornaram mais presentes em solo europeu. A primeira evidência mais contundente deste processo foi o resultado das eleições para o Parlamento Europeu (PE) realizadas em 2014. Naquela ocasião, partidos da extrema-direita anteriormente minoritários como o inglês UKIP, partido que encabeçou a campanha pelo Brexit, e o francês Front National de Marine Le Pen converteram-se em maioria, angariando respectivamente 24 e 23 das 72 cadeiras as quais seus países tem direito no Parlamento Europeu. Os resultados foram igualmente favoráveis para partidos que ainda não haviam obtido assentos no PE. Os exemplos mais emblemáticos são o Alternativa para Alemanha (AfD), atualmente a principal força a direita do espectro político alemão, e o neonazista grego Aurora Dourada que elegeram respectivamente 7 e 3 membros do parlamento europeu em 2014.

Apesar dos resultados expressivos, sobretudo de UKIP e Front National, o sucesso nas eleições europeias de 2014 não se repetiu nas eleições locais do ano seguinte. As razões para a votação modesta de UKIP e FN são diversas e resultam de um contexto em que as forças políticas tradicionais ainda eram vistas como capazes de lidar com os desafios resultantes da crise de 2008 e da crise dos refugiados, que se agravou também em 2015, percepção que se deteriorou ao longo de 2016 reforçada pelo resultado do referendo pelo Brexit e a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. O resultado dessa crise de confiança, vinculado a maior percepção da presença de refugiados em solo europeu, permitiu que o Alternativa para a Alemanha (AfD) obtivesse resultados eleitorais mais expressivos que os de seus pares na França e no Reino Unido. Nas eleições regionais, ocorridas em setembro de 2016, o AfD obteve 14% dos votos em Berlin, maior votação para um partido de extrema-direita desde a Segunda Guerra Mundial, e surpreendentes 21% dos votos na região de Mecklenburg-Vorpommern, estado de Angela Merkel, convertendo-se na segunda força política da região atrás apenas dos Social Democratas (SPD) e afrente do partido de Merkel (CDU).

Parece razoável crer que a tendência de crescimento eleitoral da extrema-direita observada em 2016 se mantenha em 2017. Entre os indícios dessa tendência podemos destacar pesquisa realizada no início deste ano pelo think-tank Chatham House que constatou amplo apoio entre os europeus de legislação que barrasse a entrada de migrantes muçulmanos, medida semelhante ao que propôs Donald Trump em seus primeiros dias de governo. Entre franceses e alemães, por exemplo, mais de 50% da população apoiaria esse tipo de legislação. Contudo, não se observa correlação entre a rejeição aos imigrantes de origem islâmica e o voto na extrema-direita em todos casos, tornando-se pertinente uma análise individualizada visando a compreensão mais profunda dos processos políticos em cada país e suas potenciais consequências para a União Europeia.

O caso alemão é talvez o mais favorável a manutenção do poder por partidos tradicionais, visto que o AfD está ideologicamente isolado entre os partidos que possivelmente obterão cadeiras no parlamento, ou seja, aqueles que ultrapassarem a clausula de barreira de 5% dos votos. Portanto, o único cenário possível para a formação de um governo radical na Alemanha seria a obtenção, por parte do AfD, da maioria absoluta no parlamento o que, considerando o último resultado eleitoral do partido, parece pouco provável. Apesar de Merkel ainda ter chances de conquistar seu quarto mandato, o cenário mais provável para as eleições de setembro nesse momento é a vitória dos Social Democratas (SPD) e a formação de uma coalisão a esquerda envolvendo o SPD, os Verdes (Grüne) e o Partido de Esquerda (Linke). Caso esse cenário se confirme o candidato eleito como chanceler seria Martin Schultz, ex-presidente do Parlamento Europeu, e conhecido por suas posições amplamente favoráveis a integração europeia.

Resultado semelhante será possivelmente observado nos Países Baixos onde o líder da direita nacionalista Geert Wilders não deverá obter votos suficientes para tornar-se primeiro-ministro. Para além da resistência dos demais partidos em formar uma coalizão com o partido de Wilders, o Partido pela Liberdade (PVV), o cenário eleitoral local encontra-se fragmentado, indicando a necessidade de uma coalizão ampla no parlamento para a formação de um governo. Contudo, no caso em questão, existe um complicador. As pesquisas mais recentes sugerem que o PVV sairá vitorioso no pleito programado para março com cerca de 20% dos votos. Mesmo incapaz de formar uma coalizão, Wilders e seu partido podem gerar instabilidade ao evocar o voto popular com o objetivo de forçar sua principal plataforma, a saída dos Países Baixos da União Europeia. Caso seja bem-sucedido, Geert Wilders pode contribuir para o ciclo de instabilidade que se instaurou no bloco europeu após o Brexit e inspirar movimentos populares daqueles insatisfeitos com a UE. Apesar de potencialmente devastadoras as consequências de uma saída dos Países Baixos da UE não se comparam a uma potencial saída da França do bloco, cenário que parece cada vez mais possível se considerarmos a recente ascensão de Marine Le Pen.

A complexidade do caso francês deriva da incerteza em relação ao resultado eleitoral do pleito programado para abril. Atualmente Le Pen lidera com 26% dos votos seguida por Emmanuel Macron, candidato independente, e François Fillon, do Partido Republicano, atualmente empatados com 20% das intenções de voto. Tanto Fillon quanto Macron foram recentemente impactados por crises em suas candidaturas. O primeiro, inicialmente considerado favorito na corrida eleitoral francesa, viu seu sucesso eleitoral ameaçado por um escândalo de corrupção envolvendo a contratação de sua esposa como assessora parlamentar, utilizando-se de dinheiro público para pagar a esposa por função nunca exercida por ela. Já Macron, também recuou nas pesquisas devido a declarações classificando o passado colonial francês como “crime contra a humanidade”. O atual cenário praticamente garante a vitória de Le Pen no primeiro turno, no entanto, o segundo turno das eleições francesas permanece indefinido. O voto tático, amplamente utilizado contra Le Pen nas eleições regionais de 2015, certamente se fará presente no pleito de 2017. Contudo, resta saber se será suficiente para impedir a vitória da líder do Front National. O cenário da vitória de Le Pen é o mais preocupante para os líderes europeus. Não só existe chance real de que essa vitória se concretize como, caso Le Pen leve a cabo sua proposta de retirar a França da UE, isso representará a saída de duas das três principais economias do bloco. Aliado a insatisfação com a política de refugiados, o “Frexit” poderia dar início a uma saída em massa de países do bloco, esvaziando-o e, em última análise, resultando em sua extinção.

Em suma, é real o risco de uma desintegração europeia derivada da ascensão de forças de extrema-direita nas eleições nacionais programadas para este ano. Esse cenário, no entanto, depende da capacidade dos partidos de extrema-direita em compor governos, o que parece possível apenas no caso francês. Um insucesso eleitoral de AfD, PVV e FN, porém, não indica tranquilidade para o bloco nos próximos anos. Isso dependerá de como a UE responderá aos desafios derivados da crise dos refugiados e das negociações do Brexit, previstas para durar pelos próximo dois anos.

Sobre o autor

Vinícius Marra Pereira – Graduado em História pela Universidade de Brasília – UnB – e Mestre em Estudos Europeus Contemporâneos pela Columbia University, EUA. (v.pereira@columbia.edu).

Como citar este artigo

Mundorama. "Eleições 2017 na Europa: cenários e reflexos para a União Europeia, por Vinícius Pereira". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/03/2019]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23334>.

Print Friendly, PDF & Email

Seja o primeiro a comentar

Top