Rússia: entender-se com os Estados Unidos, por Virgílio Arraes

A chegada do incomum republicano Donald Trump a Washington trouxe sem sombra de dúvida o espalhafato à rotina de governo da singular superpotência. Além disso, o dirigente tem surpreendido o globo, ao tentar implementar em menos de um mês de mandato várias das medidas prometidas durante a campanha, duas delas sendo: A do encerramento da presença na Parceria Transpacífica após menos de um ano de participação do país ou a da limitação de imigrantes de sete nações cuja maioria da população é islâmica, ao relacionar de modo indistinto todos os viajantes de forma bastante preconceituosa com o extremismo religioso, logo muito violento.

Como sói acontecer em todos os rincões, os políticos de maneira consciente buscam pôr de lado suas promessas mais exóticas ou polêmicas propagadas na disputa, depois da obtenção do êxito de uma contenda renhida, como foi a de 2016 na qual o postulante vencedor entre os delegados perdeu entre o eleitorado. No entanto, o recém-empossado titular da Casa Branca ignora isso e intenta assinalar sua gestão até o momento pelos aspectos o mais controverso possível, sem importar-se com a repercussão negativa nos meios de comunicação.

Espera-se que a fase do alvoroço do empresário presidente encerre-se em breve ou, ao menos, amenize-se, haja vista a manifestação de outros segmentos da União como o poder judiciário em instâncias inferiores, por exemplo, ou mesmo o Congresso, onde há visível descontentamento até na própria base republicana. Afora as polêmicas do comportamento pessoal de Donald Trump, há questões estruturais em que se aguarda encaminhamento mais comedido como é o caso do relacionamento com Moscou e o da perspectiva sobre a guerra (civil) síria.

Na presente semana, veio a público o reservado encontro ocorrido antes da posse do supremo mandatário em 20 de janeiro entre o general de três estrelas da reserva, Michael T (homas) Flynn, e o embaixador russo Sergey Keslyak. Não se sabe ainda o teor da conversa entre o militar, nomeado para o auspicioso cargo de diretor da assessoria de segurança nacional, e o diplomata. Contudo, especula-se se ambos teriam dialogado sobre a aplicação de sanções ao governo Pútin arquitetadas pelo presidente Barack Obama nos últimos dias do mandato, em função da pressão interna do resultado adverso a sua agremiação no pleito de novembro último. A falta de esclarecimento sobre o conteúdo daquele dia entre os dois contribuiu para o pedido de exoneração de Flynn no dia 13 de fevereiro. Sua saída, porém, não contribuiu para cerrar a curiosidade sobre o assunto.

Jornalistas e parlamentares esforçam-se para cavoucar informações, a fim de averiguar se existiriam indícios de irregularidades – seria a primeira vergastada da oposição na insolente administração. Enquanto não serenam os ânimos, o presidente optou por preencher o cargo com militar de igual galardão.

Com vistas ao segundo ponto, a desgastante confrontação na Síria, o avanço castrense do governo local, graças ao maciço apoio russo, não é suficiente para acabar com a peleja nas próximas semanas, em que pese o desânimo dos inimigos da ditadura de al Assad.

De toda maneira, o grau de tensão entre os países participantes do conflito diminuiu, como pôde ser observado no incidente entre Turquia e Rússia, no qual essa assassinou três soldados e feriu mais de dez, ao confundi-los com integrantes do Estado Islâmico.

Moscou posiciona-se a favor da administração baatista, enquanto Ancara defende os opositores moderados a ela. Ambos no atual momento colocam-se contra os fundamentalistas sunitas, ao contar com o auxílio do Irã também. Conter os extremistas levaria as três gestões a negociar sobre o destino do governo sírio.

Preocupa a coordenação de Erdogan o posicionamento na questão da contraparte norte-americana no tocante à ajuda aos grupos curdos, como os militantes ou os simpatizantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, considerados por ele como terroristas e como seus principais antagonistas. O possível sucesso em território siríaco repercutiria no outro lado da fronteira.

A justificativa para armá-los segundo a Casa Branca na administração Obama, mesmo sob visível desagrado turco, era a tomada de Raqqa, declarada capital do califado e centro, de acordo com relatos da espionagem estadunidense, de preparação de atentados contra alvos ocidentais por ser abrigo seguro para tais intentos.    O ponto para Washington é quem auferiria os louros da vitória contra os extremistas em solo sírio e sob qual preço político. Trump gostaria de executar sua promessa de eliminar o Estado Islâmico, conforme anunciado na campanha, de modo irrespondível, ou seja, com o ‘salgamento’ dos locais por onde se instalaram.

O risco de uma ação castrense isolada com estardalhaço é o alto dano aos civis dos arredores na extensa região do conflito e, por conseguinte, o ecoar negativo diante de uma opinião pública mundial abatida com a atuação norte-americana lá.   A partir dessa dificuldade, analisa-se se valeria a pena a união, ainda que temporária, com russos, turcos e por que não sírios batistas para a consecução de um objetivo maior, isto é, o da expulsão definitiva dos extremistas.

Aos olhos da Casa Branca, os custos materiais seriam reduzidos e a possibilidade de desgaste político também, haja vista a composição de uma coligação sob rubrica positiva – sugestões não seriam problema para as seções de mercadologia das potências envolvidas.

Na eventualidade de algum acerto firmado, até o envio de tropas por parte de Washington seria feito com poucos efetivos. Na melhor das hipóteses, seria a remessa por pouco tempo de unidades de elite como já executado nos últimos anos no Iraque, Afeganistão e Paquistão com o propósito de missões específicas. Por outro lado, se a crise política adquirir maior consistência em Washington, o esboço de uma força multilateral poderia esboroar-se e o Pentágono poderia considerar a perspectiva de ele mesmo tomar a dianteira na defenestração dos combatentes integristas.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB (arraes@unb.br).

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: entender-se com os Estados Unidos, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 28/04/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=23162>.

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