China e Brasil – Olimpíadas de um mundo de “desordem sob os céus” para a desordem em frente ao mar, por Paulo Antônio Pereira Pinto

Neste momento de euforia olímpica, acredito, seria difícil escrever qualquer texto sobre assunto sério, sem referência – mesmo com a mais remota associação – aos Jogos do Rio de Janeiro. São frequentes, a propósito, as comparações entre os eventos realizados em Pequim e os que acontecerão na Cidade Maravilhosa.

O interesse por analogias oferece oportunidade para, nesse espaço reservado pelo Mundorama a temas de política externa, lembrar o processo, a partir da década de 1980, quando começou a abertura chinesa ao exterior, após a fase turbulenta da Revolução Cultural. Líder da China mencionava, em costumeira folclórica linguagem, que “o mundo vivia, então, período de desordem sob os céus”.

Desde aqueles anos, os céus não se teriam organizado muito, mesmo que, no meio do caminho, tenha acontecido, em 2008, uma Olimpíada em Pequim – que nada tem a ver com o tema sobre o qual escrevo. Mas, às vésperas do evento brasileiro, no inicio de agosto, parece haver grande interesse em apontarmos para o que conseguimos nós desorganizar em frente ao mar carioca – o que também não é o assunto do texto.

O exercício de reflexão que proponho, a seguir – que nada tem a ver com os jogos do Rio – busca resgatar pensamento estratégico chinês, que, na década de 1980, teve importância olímpica para a inserção internacional daquela República Popular.

Nessa perspectiva, entre 1982 e 1985, quando servi na Embaixada do Brasil em Pequim, é sabido, o cenário internacional era bipolar, com centros de poder em Washington e Moscou. Segundo classificação adotada no Ocidente, o planeta era dividido em “Três Mundos”. Os países industrializados de economia de mercado eram incluídos no Primeiro Mundo. Os de sistema econômico centralmente planificado participavam do Segundo. Os em desenvolvimento eram despachados para o Terceiro.

Durante a fase maoista, no entanto, os chineses tinham uma visão própria do globo terrestre. Este estaria dividido em duas partes antagônicas – a metade que apoiava o bloco soviético e a outra que se opunha, incluindo a China. A política externa da RPC seguia esta rigidez, baseada no pressuposto de que qualquer coisa, que pudesse prejudicar os interesses de Moscou, seria favorável a Pequim.

Sob a nova liderança de Deng Xiaoping,  tornou-se mais pragmática também a postura chinesa no plano externo. Este “último Grande Timoneiro do século XX” – como se referem a ele alguns historiadores – defendera teoria própria quanto à existência de “Três Mundos” [1].

Em  discurso pronunciado na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10.04.1974, Deng, então Vice-Primeiro Ministro da RPC, elaborara sobre o conceito, afirmando que: “No momento, a situação internacional  é mais favorável aos países em desenvolvimento e aos povos do mundo. Mais e mais, a velha ordem sustentada pelo colonialismo, imperialismo e hegemonismo está sendo destruída e abalada em suas fundações. Relações internacionais estão mudando drasticamente. O mundo todo está em estado de turbulência e inquietação.  A situação é a de “grande desordem sob o céu” como a descrevemos, nós os chineses. A “desordem” é a manifestação do agravamento das contradições básicas do mundo contemporâneo. É a aceleração da desintegração e declínio da decadência de forças reacionárias e o estímulo do despertar e crescimento de novas forças populares”.

Segundo Deng, naquela situação de “grande desordem sob o céu”, todas as forças políticas do mundo sofreram divisões drásticas e realinhamento através de prolongados testes de força e conflitos. Grande número de países asiáticos, africanos e latino-americanos conseguiu a independência, sucessivamente, e estavam desempenhando papel cada vez mais importante em assuntos internacionais. Como resultado da emergência do “sócio-imperialismo” (que delícia de termo para descrever a hegemonia soviética sobre seus “satélites”), o campo socialista, que existia após a Segunda Guerra Mundial, não mais perduraria, no momento de seu discurso.

O “último grande timoneiro” afirmava, ainda, que devido à lei do “desenvolvimento desigual do capitalismo”, o bloco imperialista ocidental, também, estava se desintegrando. “A julgar pelas alterações nas relações internacionais, o mundo atual consiste de três partes, ou três mundos, que são tanto interconectados, quanto contraditórios. Os Estados Unidos e a União Soviética formam o Primeiro Mundo. Os países em desenvolvimento na Ásia, África e América Latina integram o Terceiro Mundo. Os desenvolvidos – sejam os do mundo capitalista ou do socialista – formam o Segundo Mundo” esclarecia.

De acordo com seu ponto de vista “as duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, procuram, em vão, conquistar a hegemonia mundial. Cada um busca, ao seu estilo, trazer os países do Terceiro Mundo a sua esfera de influência, assim como aqueles que, mesmo desenvolvidos, não são capazes de se opor aos desígnios de Washington e Moscou”.

Verificava-se, nessa perspectiva, que, enquanto a liderança chinesa alterava seu discurso para justificar as mudanças no plano interno, nova retórica era aplicada, também, no patamar externo. Pequim, explicaria, a partir de termos inovadores, sua inserção no cenário internacional.

Não caberia mais um mundo dividido em duas partes – “a URSS sócio-imperialista de um lado, e o resto do mundo, incluindo a RPC, no outro”. Era mais conveniente pensar naquela outra divisão, que colocaria a China, com suas práticas modernizantes internas, liderando um Terceiro Mundo, contra a hegemonia de Washington e Moscou.

Cabe lembrar, a propósito, as razões da ruptura entre Pequim e Moscou, na década de 1960. O cisma já existiria, de acordo com estudiosos do assunto, desde a década de 1930. Segundo  consta, o  Partido Comunista da União Soviética  desejava controlar o PCC, da mesma forma que o fazia com partidos comunistas de outros países.

Durante o período da Guerra Fria,  os dirigentes soviéticos persistiram nesses esforços. Entre as preocupações russas estavam a tentativa de evitar a invasão de Taiwan e o desenvolvimento da bomba atômica chinesa.

Sempre de acordo com especialistas no assunto, as relações bilaterais foram realmente prejudicadas, na década de 1960, quando Nikita Khushchev iniciou o processo de desestanilização da URSS, bem como a aproximação do Ocidente. Isto porque, segundo a visão de Pequim, avanços tecnológicos, como o lançamento do primeiro “Sputnik” soviético, em 1957, indicavam o favorecimento do mundo comunista, ou segundo o linguajar folclórico da época – “o vento que vem do Leste prevalece sobre o que vem do Oeste”. Seria, portanto, importante para Mao, que houvesse maior militância contra a parte ocidental do planeta, não o contrário, como estaria indicando Moscou.

Pequim demonstrara paciência, na medida em que dependia, ainda, do auxílio da URSS para o esforço de socialização do país. Entre 1958-60, no entanto, foram desencadeadas as desastrosas políticas do “Grande Salto Adiante”. Os conselheiros russos foram retirados, como demonstração de descontentamento de Moscou.

Em suma, o cisma sino-soviético ocorreu, “em nível ideológico, militar e econômico” pelas mesmas razões: para a liderança chinesa era prioritária a conquista da autossuficiência e independência, em comparação com os benefícios a serem recebidos dos russos, na condição de parceiros menores. Lembra-se que Mao fizera a revolução, para livrar a China de mais de um século de domínio estrangeiro. Caso aceitasse, então,  a submissão à URSS estaria negando sua própria conquista.

Na década de 1960, agravaram-se as divergências. A China decidiu reabrir disputas fronteiriças, acertadas com a Rússia Imperial. Após mal sucedidas negociações, em 1964, a União Soviética iniciou processo de fortalecimento de seus exércitos, nas proximidades da RPC.

As relações entre os dois países permaneceram tensas e, em 1969, chegou-se a pensar que a guerra entre ambos seria inevitável. Pequim e Moscou passavam de estado de hostilidade à ameaça de confrontação. O “fator soviético”, portanto, ocupava lugar dominante no pensamento maoista, quanto à inserção internacional chinesa.

Nesse sentido, verifica-se, em retrospectiva, que foi melhor para os chineses terem se afastado dos russos, naquele momento. Caso contrário, possivelmente o país teria seguido o modelo de ditadura soviética, transformando-se em potência fortemente industrializada e militarizada. Tornar-se-ía, então, mais um membro do Pacto de Varsóvia, a seguir o caminho da falência da URSS, ao término da Guerra Fria.

Possivelmente, não teriam ocorrido, as reformas de uma economia socialista de mercado, hoje tão valorizadas. Tampouco, haveriam acontecido as experiências chinesas de “democracia”, em baixos níveis de governo, que começam a servir de inspiração como modelo de governança, com características suas, para outras nações. Tais desenvolvimentos chegam a competir, no momento, com sistemas ocidentais de organização político-econômica. Uma das vantagens atuais da RPC, nesta competição, é que “os chineses não têm interesse em converter os não chineses em chineses”.

Bons tempos – há menos de quarenta anos – quando era possível “ao último Grande Timoneiro” chinês explicar de forma assim clara como via a desordem sob os céus, possibilitando que a nau da RPC pudesse, no processo de sua inserção internacional, navegar rumo ao desenvolvimento econômico.

Enquanto isso, canoeiros, nadadores e outros praticantes de esportes aquáticos terão, hoje, bem maior dificuldade para entenderem nossa “desordem em frente ao mar”. “Uma imagem fala mais do que mil palavras”, reza um dos velhos ditados chineses. Bastaria, então, baixar o volume dos noticiários das emissoras de TV internacionais e concentrar-se na paisagem mostrada para deslumbrar-se com a beleza de nossa Cidade Maravilhosa. Ademais, conhecemos bem nossa capacidade de improvisar, nos últimos momentos.

Uma vez resolvida a questão australiana, sem a necessidade do emprego de cangurus pululantes, tendo em vista a publicação aqui de queixas semelhantes de atletas bielorrussos, aproveito para esclarecer que o animal típico da Belarus é o “bisão”, que parece um touro com casaco de inverno. Sem dúvida, o mais difícil seria conformar os indianos a ficarem mal instalados – talvez fosse necessário um elefante?

  1. Chi Hsin. “Teng Hsiao-Ping, a Political Biography”. Cosmos Books. Ltd. 1978.

 

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata, Embaixador do Brasil em Minsk, Belarus, a partir de 2015. Foi  Chefe do Escritório de Representação do MRE no Rio Grande do Sul (ERESUL), entre 2012 e 2014,  Embaixador do Brasil em Baku, Azerbaijão, entre 2009 e 2012, e Cônsul-Geral em Mumbai, entre 2006 e 2009. Serviu, a partir de 1982, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. Na década de 1970 trabalhou, na África,  nas Embaixadas em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique e foi Encarregado de Negócios em Pretória, África do Sul.  As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores.

Mundorama. "China e Brasil – Olimpíadas de um mundo de “desordem sob os céus” para a desordem em frente ao mar, por Paulo Antônio Pereira Pinto". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 28/04/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=19525>.

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