Liberté e Egalité demandam Fraternité, por Carlos Frederico Gama

No curso de 18 meses, a França foi alvo de 3 grandes ataques terroristas.

Em Janeiro de 2015, afiliados da Al-Qaeda atacaram o escritório do Charlie Hebdo, matando vários jornalistas[i]. Em Novembro do mesmo ano, o “estado islâmico” clamou responsabilidade por múltiplos ataques no Bataclan e no Stade de France. A contagem dos mortos chegou às centenas[ii]. Após os dois ataques em Paris e dias após a realização da Eurocopa de futebol masculino, em 14 de Julho de 2016 um motorista de caminhão matou dezenas na Promedade des Anglais, em Nice.

Nesse curto espaço de tempo, a França liderou a União Europeia em negociações referentes aos milhões de refugiados em fuga da Síria e Iraque. Um acordo difícil com a Turquia foi feito: em troca de alguns bilhões de dólares, padrões mínimos de acolhida de refugiados e solicitantes de asilo. A França também estabeleceu uma controversa aliança militar com a Rússia na Síria – negociação eventualmente legitimada pelo Conselho de Segurança da ONU através de uma resolução autorizando o uso de “todos os meios necessários” para enfrentar o ISIS[iii]. A aquiescência da ONU possibilitou uma desconfortável junção de diversas forças em luta na Síria: Estados Unidos, Rússia, França, Turquia e até mesmo a Arábia Saudita. A inusitada sintonia nas relações diplomáticas entre esses governos pavimentou o caminho para um retrocesso militar do ISIS no Oriente Médio.

Notavelmente, os países e organismos supracitados sofreram ataques terroristas nesse período. Um avião russo abatido sobre o Egito. A chacina no clube LGBT Pulse, em Orlando. Múltiplos ataques em atrações turísticas de Istambul e no aeroporto de Bruxelas. Até mesmo Medina – cidade de residência do profeta Muhammad – ardeu em chamas. No esteio da tímida resposta internacional, outros grandes ataques ocorreram no mercado de Beirute, no bairro diplomático de Daka e nas ruas de Bagdá – e o nome do “estado islâmico” foi invocado mais de uma vez.

Adentrando um túnel de ansiedade, a violência inesperada lança sombras sobre o que achamos que sabíamos. À medida que futuros incertos demandam o melhor de nossas capacidades construtivas, profecias vãs ficam pelo caminho. Ao mesmo tempo, os estados soberanos ficam aquém dessas responsabilidades e a territorialidade é re-mapeada e reinscrita de modos contraditórios – que tornam ainda mais difíceis os esforços para combater redes terroristas e “lobos solitários”.

Tais esforços envolvem tanto corações e mentes quanto estômagos e munição. Já dizia Zygmunt Bauman: a coexistência é um desafio – o resultado de crenças irredutíveis que reconhecem seus limites[iv]. Uma Torre de Babel, não um Jardim do Éden. De Marine le Pen a Donald Trump, passando por Boris Johnson, tolerância com a diversidade de formas de vida está em falta no século 21. Através das redes sociais e chegando às disciplinas científicas, a certeza nas “nossas” crenças aumenta, à medida que qualquer status de dignidade para “outros” some de nosso campo de visão[v].

No dia da queda da Bastilha, esboços de uma resposta internacional podem se inspirar em traços característicos da Revolução Francesa e Iluminismo. A cada frustração com posturas de enclausuramento potencializado pelo medo em fronteiras ampliadas, os estados veem seus limites. Fenômenos transnacionais demandam mais, não menos, engajamento. Estados europeus se retraindo em fronteiras amedrontadas reencenam uma versão diminuta do Sacro Império Romano-Germânico, ao invés de produzir uma comunidade do século 21[vi]. Quanto o Reino Unido caminha para fora da EU, tais demandas se tornam ainda mais prementes para a comunidade de estados carente de um demos, em meio à crise econômica.

Ao mesmo tempo, vivemos uma profunda carência de conhecimento e confiança em segurança para além das fronteiras soberanas. Um dos desafios perenes da ONU foi herdado de seus estados-membros: os recursos para garantir segurança humana são limitados e inadequados[vii]. Dos Direitos Humanos à Responsabilidade de Proteger, nos acostumamos a confiar em estados soberanos (e suas instituições) para responder a vulnerabilidades humanas. Respostas internacionais deficientes não constituem qualquer surpresa.

Solidariedade humana através das fronteiras demanda empatia ampliada entre populações aterrorizadas, solicitantes de asilo e refugiados – agentes fundamentais de uma comunidade política transnacional concretizada por práticas da sociedade civil.

Em sentido contrário ao otimismo nacionalista do século 20 popularizado pelo líder turco Mustapha Kemal Attaturk[viii], sem paz no nível internacional dificilmente haverá qualquer paz em casa.

Liberdade e Igualdade demandam Fraternidade.

[i] Gama, C.F.P.S. (2015). “Expectativas Desalinhadas: Sony, Charlie e os Fundamentalismos Modernos”. NOO. Disponível em: http://noo.com.br/expectativas-desalinhadas/

[ii] Gama, C.F.P.S. (2015). ” Sombras e Silêncios na Cidade-Luz”. NOO. Disponível em: http://noo.com.br/sombras-e-silencios-na-cidade-luz/

[iii] Gama, C.F.P.S. (2015). “Idas e Vindas na Segurança Coletiva: a ONU entre as Torres Gêmeas e o “Estado Islâmico”. MUNDORAMA. Disponível em: http://mundorama.net/2015/11/25/idas-e-vindas-na-seguranca-coletiva-a-onu-entre-as-torres-gemeas-e-o-estado-islamico-por-carlos-frederico-pereira-da-silva-gama/

[iv] Bauman, Z. (2001). The Great War of Recognition. Theory, Culture & Society 18(2-3): 137-150.

[v] Gama, C.F.P.S. (2015). “Brasil 2016: O Monólogo Violento da Crise e o Futuro da Cidadania”. SRZD. Disponível em: http://www.sidneyrezende.com/noticia/260960

[vi] Gama, C.F.P.S. (2016). “A Saída do Reino Unido da União Europeia e seus impactos num Brasil em crise”. SRZD. Disponível em: http://www.sidneyrezende.com/noticia/264541

[vii] Gama, C.F.P.S. (2009). “Bridge over Troubled Waters: United Nations, Peace Operations and Human Security”. Journal of Human Security, Vol. 5, No. 1, 2009, pp. 9-31

[viii] http://www.mfa.gov.tr/synopsis-of-the-turkish-foreign-policy.en.mfa

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama é Professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Tocantins.

Editoria Mundorama. "Liberté e Egalité demandam Fraternité, por Carlos Frederico Gama". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 12/12/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=19510>.

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