Moscou: indispensável na confrontação síria, por Virgílio Arraes

Nos últimos dias, os meios de comunicação noticiam atentados perpetrados em vários países – da Turquia até a Arábia Saudita – por pessoas vinculadas ao autodenominado Estado Islâmico ou simplesmente Califado, cuja fundação foi em junho de 2014.

Se corretas as informações veiculadas, o recrudescimento de ações deste tipo assinala a dificuldade de a organização manter-se firme no Iraque e na Síria, a despeito da encarniçada resistência em algumas áreas.

Na vasta região médio-oriental, caso se considerem as cercanias, registram-se outros conflitos em andamento como os da Líbia, Somália, iniciado há um quarto de século, Iêmen, Nigéria e Sudão do Sul. No período bipolar, o nacionalismo, originado da vitória sobre o neocolonialismo, e o socialismo disseminaram-se entre populações esperançosas de um futuro mais otimista, em que a autodeterminação teria como base a democracia.

Com o estrepitoso fracasso das duas doutrinas, a ascensão do liberalismo rejuvenescido prometia, por seu turno, a possibilidade da prosperidade global, ao uniformizar de forma gradativa o regime econômico e político, embora em ritmos diferenciados. As próprias Síria e Líbia aderiram de modo parcial ao receituário prescrito, como o encerramento dos subsídios a produtos essenciais, sem descurar da ferreta ditatorial.

Contudo, a frustração logo assomaria ao horizonte, em decorrência dos parcos benefícios sociais. Em algumas áreas do planeta, o espiritual, no molde do fanatismo, chegaria às mentes e corações como o único caminho para o sobrepujamento das dificuldades cotidianas.

A meta seria a defenestração de governos conectados com o Ocidente, por ser signo de uma aliança de valores dissociados das tradições culturais locais. Do Afeganistão dos anos 70 ao Iraque e Síria da presente década, o chamamento da população conjuga política e religião e situa o Oriente Médio em um impasse diante da manutenção ou não de fronteiras demarcadas na esteira da descolonização, na qual o laicismo havia sido um dos pilares.

No pós Guerra Fria, a proposta de nova delimitação, sob manto espiritual, trouxe ânimo para o enfrentamento das longevas ditaduras, mas sua sustentação no médio prazo depara-se com problemas administrativos dos quais nenhuma gestão pode furtar-se de vislumbrar: infraestrutura, saúde, educação, estabilidade econômica etc. Isto influencia o desempenho militar e, por conseguinte, a dificulta a expansão territorial.

No devastado torrão siríaco, um dos poucos êxitos recentes da coligação religiosa teria sido a vitória sobre o Novo Exército Sírio em local próximo da fronteira iraquiana e jordaniana. O pequeno grupo, treinado e equipado pelos Estados Unidos, não teria obtido apoio popular na sua investida contra os extremistas, situação distinta da atuação cotidiana das Forças Democráticas Curdo-Sírias no nordeste do país.

O sucesso curdo, todavia, preocupa norte-americanos e turcos, em vista da renovada expectativa de possível formação de uma nação em torno da qual a sociedade a ser constituída viria de quatro países da extensa região – Irã, Iraque, Síria e Turquia- e poderia superar os vinte e cinco milhões de habitantes e contar com boas reservas de petróleo para  viabilizar-se.

A conformação miliciana da Síria havia desencadeado na primeira quinzena de junho manifestação de meia centena de servidores do Departamento de Estado com o pleito de modificação urgente da postura da própria instituição concernente àquele turbulento território – não se confunda a posição como desrespeito ou insubordinação, uma vez que o Manual de Assuntos Externos do órgão prevê a inusitada possibilidade, firmada em 1970 durante o dramático correr da Guerra do Vietnã – http://www.state.gov/r/pa/prs/dpb/2016/06/258630.htm#SYRIA .

Sob a justificativa de preocupação humanitária, haja vista quase meio milhão de mortos em meia década, o documento solicitou a intensificação de medidas militares, porém sem ensejar o envio de contingentes. Destarte, valorizar-se-iam ataques aéreos maciços com o fito de forçar a ditadura Al-Assad a sentar-se à mesa de novo para tratativas.

Na perspectiva das dezenas de diplomatas signatários, nem sequer o estabelecimento de um cessar-fogo duradouro tem sido exequível. Mantimentos e remédios não são distribuídos em todo país, infelizmente.

O deslocamento interno da população tem sido frequente, porém diante da impossibilidade de atendimento mínimo pelo Estado, resta a muitos cidadãos uma opção temerária, em face do ambiente político pouco acolhedor no momento: a de imigrar. Nas primeiras semanas de 2016, os sírios representavam a maior nacionalidade a buscar valhacouto.

Deste modo, o resultado é o incremento das ondas de refugiados à Turquia e União Europeia, incapazes ambas de assistir aos desvalidos de maneira apropriada. Por isso, de acordo com o corpo diplomático subscritor, a iminente necessidade de se refletir sobre uma ação mais efetiva, a fim de que a tragédia não se amplie.

Entrementes, a contenção do governo autoritário de Bashar al-Assad não depende apenas da boa vontade da Casa Branca, materializada na hipotética utilização de veículos aéreos não tripulados ou investidas maciças por jatos de última geração, uma vez que o Kremlin assenhoreou o destino do regime baathista. Com poucas baixas reconhecidas, não mais de uma dezena até o início de julho, Moscou dita o compasso da confrontação.

Ainda que o governo de Putin se afaste do rincão sírio, não há opção moderada à vista naquele país, ou seja, uma terceira via vivedoura. Indo ao longe, nem sequer na região as alternativas são inspiradoras, haja vista o posicionamento das monarquias sunitas, como a da Arábia Saudita, por exemplo.

À medida que o tempo passa, a importância russa é reconhecida. Há poucos dias, Ancara desculpou-se com Moscou pela derrubada de um SU-24 por seu F-16 em novembro passado na fronteira com a Síria. O piloto e um fuzileiro do grupo de resgaste foram assassinados por rebeldes favoráveis à Turquia.

Sem resposta militar ao ato, a Rússia, no entanto, retaliou-a através de sanções às importações turcas, como as relativas à alimentação, e, ao mesmo tempo, de desestímulo do turismo de seus cidadãos para lá como a proibição de voos fretados. Até o final de 2015, apenas os alemães, entre os europeus, superavam os russos.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB (arraes@unb.br).

Como citar este artigo

Editoria Mundorama. "Moscou: indispensável na confrontação síria, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 28/06/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=19506>.

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