O Oil Boom Estadunidense e o futuro geopolítico do Golfo Pérsico, por José Késsio Lemos

Ao longo das últimas décadas, os EUA gastaram trilhões de dólares com as guerras no Golfo Pérsico. Em nome da segurança nacional, o país carregou o fardo de polícia da região, de garantidor do livre fluxo do petróleo do Golfo para as economias ocidentais. Esta realidade drenou dinheiro, forças militares e recursos políticos. A vulnerabilidade que a dependência do petróleo estrangeiro trouxe ao país, condicionou os movimentos políticos da Casa Branca e afetou diretamente na geopolítica do Oriente Médio. A relação do país com dois dos principais produtores de petróleo da região, Irã e Iraque, foram marcadas por guerras, golpes, revoluções e instabilidade. As Guerras do Golfo (1991, 2003), causaram mudanças na configuração geopolítica do Oriente Médio que são sentidas ainda hoje. Além disso, ajudou a instigar o aparecimento de grupos terroristas como o ISIS. Já com o maior produtor de petróleo mundial, a Arábia Saudita, foi arquitetada uma relação petróleo por proteção. Apesar de mais estável do que as duas outras, a relação positiva da Casa Branca com a monarquia saudita ajuda a oxigenar um dos regimes políticos mais fechados e opressores do mundo.

No entanto, é muito provável que o momento atual se constitua em um turning point nessa dinâmica entre o petróleo, a política externa estadunidense e a configuração geopolítica do Oriente Médio. Afinal, a América retomou o posto de maior produtor de energia do mundo. O desenvolvimento de uma nova tecnologia de extração de petróleo a partir de rochas de xisto tem potencializado a produção interna dos EUA. Segundo estimativas da IEA, entre 10 e 15 anos os EUA poderão se tornar autossuficientes em petróleo. Mediante um histórico contexto de dependência do petróleo estrangeiro, caso os EUA consigam esse feito, toda a lógica que orientou a política externa do país no Golfo Pérsico poderá ser reconfigurada. Ademais, o país tem plenas convicções da necessidade de mudar sua forma de agir na região. Afinal, o preço pago foi alto e impopular. E com a diminuição da importância do petróleo do Golfo na sua agenda, o país poderá manobrar com maior cautela e de forma mais pragmática.

Um claro exemplo disso, é a histórica reaproximação entre os EUA e o Irã, selada pelo acordo sobre o programa nuclear do país. Em nenhum outro momento, nas últimas cinco décadas, os EUA ousaram criar litígios com o grande produtor mundial de petróleo – a Arábia Saudita. Pelo contrário, a estabilidade no reino saudita foi uma prioridade na agenda de Washington por várias décadas. O país estava preso nas garras da dependência energética e o peso da Arábia Saudita e da OPEP no mercado mundial de petróleo, já havia sido demonstrado de forma muito contundente no passado. Agora, contudo, a realidade é diferente.

A aproximação dos EUA com o Irã e o fim parcial das sanções econômicas contra Teerã, anunciado recentemente, tem criado uma clara insatisfação no reino saudita. Além da histórica rivalidade entre Riad e Teerã, os sauditas temem que a reconstrução da indústria petrolífera iraniana possa encharcar ainda mais o mercado mundial de petróleo, gerando mais competição e derrubando os preços. Além disso, o Irã poderá alavancar consideravelmente suas receitas e fortalecer o seu papel de potência regional, enfraquecendo a influência saudita na região. Portanto, essa realidade tem criado em Riad dúvidas sobre qual será o posicionamento dos EUA nessa questão: se os manterão como o principal aliado no Golfo ou se serão substituídos pelo Irã. A partir dessa desconfiança, o acirramento entre Teerã e Riad parece inevitável e pode reverberar de forma muito negativa nos conflitos da Síria.

Deste modo, percebe-se mudanças nos movimentos políticos dos EUA no Oriente Médio, e consequentemente, começam a aparecer vislumbres de uma mudança na configuração geopolítica da região. Na atualidade, o Irã é visto como uma peça importante na estratégia americana de distanciar os seus aliados europeus da influência russa, imposta pela questão energética. Através da reconstrução da indústria energética iraniana, o país poderá se tornar uma alternativa viável ao mercado europeu de energia através da exportação de petróleo e gás. Os EUA e a Turquia desejam concretizar a construção de uma rede de gasodutos que ligaria a Europa ao Oriente Médio através do território turco, e que também contaria com a participação do Catar, Azerbaijão, Turquemenistão e do Iraque como fornecedores. Este projeto contraria os interesses de Moscou, que certamente, não ficará de braços cruzados.

Por fim, resta acompanhar o desenrolar de importantes questões. Primeiro, como a Arábia Saudita e a OPEP irão se portar mediante a volta do Irã ao mercado mundial do petróleo, após o fim das sanções. Eles manterão a postura de não reduzir suas cotas de produção, atacando assim a indústria estadunidense do tightoil? Ou será que retornarão ao comportamento histórico de reduzir a produção para alavancar os preços?

E quanto aos EUA? Qual será o papel do governo e das petrolíferas estadunidenses para salvar a manutenção do oil boom, caso os preços do barril se mantenham abaixo do custo de produção? Outro ponto que merece observação, são as eleições presidenciais de 2016 nos EUA. As propostas de política externa dos candidatos favoritos podem nos dizer muito sobre o futuro.

Mediante esse mar de incertezas, é possível afirmar que: independente dos cenários prospectados, o processo decisório dos EUA continuará envolvendo o Golfo Pérsico em razão de sua posição estratégica. Afinal, o petróleo e o gás da região ainda são elementos fundamentais para as relações de poder e para a saúde econômica de muitos dos seus aliados. Ademais, o Golfo Pérsico é uma importante peça geopolítica que pode ser decisiva em conflitos futuros. Sendo assim, as reservas de petróleo do Golfo podem até mesmo perder a importância para os EUA, mas não para o mundo. Por isso, em um contexto de globalização e interdependência, elas continuarão influenciando na política e na economia global. Para os EUA, no entanto, a margem de manobra política cresceu. O país está menos vulnerável e menos dependente. Deste modo, poderá perseguir seus objetivos geopolíticos sem que o agressivo instinto da vulnerabilidade influencie nas decisões políticas dos seus líderes.

 José Késsio Floro Lemos é Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro do Núcleo de Estudos de Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI-UFPE).

Editoria Mundorama. "O Oil Boom Estadunidense e o futuro geopolítico do Golfo Pérsico, por José Késsio Lemos". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 19/10/2017]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=19503>.

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