Como e quando retirar as tropas do Iraque? Com a palavra, o (a) sucessor(a) de George W. Bush, por João Telésforo N. de Medeiros Filho

A crescente insatisfação dos estadunidenses com o prolongamento da guerra do Iraque foi a principal razão da vitória do Partido Democrata nas últimas eleições para o Congresso dos EUA, em novembro do ano passado. Os Democratas, embora tivessem em sua maioria apoiado a invasão, passaram a pedir que se planejasse e se iniciasse de imediato processo de retirada das tropas, indo ao encontro do crescente cansaço popular com essa guerra. O governo Bush pareceu ignorar a derrota eleitoral e a pressão da opinião pública e do Congresso dominado pelos Democratas, ao aumentar os contingentes militares dos EUA no Iraque em mais de vinte mil soldados no início deste ano.
Agora, finalmente, serão parcialmente atendidos os clamores pela diminuição das tropas. Há algumas semanas, no dia 13 de setembro, o presidente George W. Bush confirmou o que já anunciara em sessão do Congresso o comandante das forças norte-americanas no Iraque, general David Petraeus: até julho de 2008, os efetivos militares dos EUA no Iraque serão reduzidos em cerca de 30 mil combatentes. O contingente voltará, assim, ao patamar de dez meses atrás, de aproximadamente 130 mil soldados. O processo ocorrerá de forma gradual e começará ainda neste mês, com o retorno de 2200 marines.
Em julho de 2008, a campanha eleitoral para a presidência estará efervescente. Os Republicanos poderão argumentar então, respondendo à exigência popular quanto à saída do Iraque, que foi preciso dar um passo para trás para dar dois para frente: a estratégia teria sido bem-sucedida, teria permitido que se controlasse a situação e se gerassem as condições para uma diminuição segura e definitiva das tropas. Agora, dirão eles, o processo de retirada já está em marcha e continuaremos a fazê-lo de forma responsável. Isso, claro, na hipótese de que seja executado o anúncio feito por Bush. Não há motivos, no entanto, para crer que não será, porquanto sua realização não depende de melhora substancial da situação no Iraque – trata-se, afinal, apenas de retornar ao número de combatentes de uma época em que o cenário não era dos melhores. É de se esperar, pelo contrário, novo anúncio de diminuição das tropas antes das eleições. Bush afirmou que não volta a falar em redução de tropas antes de fevereiro do ano que vem. Seria bastante oportuno eleitoralmente para os Republicanos um anúncio do governo em 2008 de um novo planejamento de continuidade e aprofundamento da redução dos contingentes militares no Iraque.
O fato de o governo ter consciência do peso eleitoral da questão leva-nos a pensar as estratégias dos EUA para o Iraque sob a perspectiva dos interesses político-eleitorais em jogo. Esse não é necessariamente o fator preponderante na decisão de diminuir as tropas, mas trata-se de algo que não se deve desprezar, afinal é uma das motivações dos agentes. Pode ser interessante pensar nas hipóteses a que nos leva a maximização dessa variável político-eleitoral interna. Façamo-lo, pois: analisemos as recentes decisões do governo norte-americano sobre o Iraque partindo da presunção de que a tomada de decisão tem se orientado segundo uma racionalidade política bastante direcionada para a manutenção dos Republicanos no poder.
É curioso que logo após a derrota eleitoral nas eleições para o Congresso, que teve como causa fundamental o insucesso da operação no Iraque, fortemente pressionado pela retirada das tropas, o governo Bush tenha anunciado um reforço dos efetivos, contrariando todas essas pressões. Agora, vem a público anunciar que daqui a 10 meses o número de marines no Iraque estará praticamente igual ao que era há 10 meses. Ora, parece factível a seguinte hipótese: o aumento dos efetivos ocorreu para que se pudesse, depois, fazer uma redução que desse a impressão de que a situação está sendo estabilizada e está em curso o processo de retirada. Essa decisão envolveria o risco de que não se conseguissem criar condições para continuar a retirada depois do planejado retorno ao nível anterior – mas, tal retorno ocorrerá só em julho do ano que vem, e reduções substanciais ficarão a cargo do próximo governo. Mesmo se a estratégia não levar à eleição de um Republicano, possibilitaria a adoção de confortável discurso oposicionista: o governo Republicano planejou e iniciou a retirada das tropas, e o governo Democrata sucessor de Bush não teria grande mérito por ela, ainda que a fizesse. Caso o possível governo Democrata não proceda a reduções substanciais das tropas, os Republicanos ainda poderiam cobrá-la com o pretexto de que as condições já estão dadas, tanto é que ela já foi iniciada pelo governo de George W. Bush.
Claro, trata-se de racionalização ex post facto que talvez dê peso excessivo a uma dentre as prováveis variáveis determinantes das decisões dos EUA relativas ao Iraque; mas, isso por si só não invalida a hipótese. Ademais, mesmo ignorando essa racionalização talvez exagerada, é preciso observar a conveniência eleitoral do anúncio feito agora pelo governo da redução das tropas, o que talvez só tenha sido possível devido ao prévio aumento neste ano. Esse raciocínio conduz-nos a supor que ocorrerá anúncio de nova redução, nos primeiros meses de 2008, independentemente da estabilização alcançada no Iraque, porque, conforme já explicado, o possível ônus da decisão ocorreria somente depois da eleição presidencial.
Não se pretende reduzir o interesse dos EUA no Iraque às questões políticas internas; o peso maior que se dá a isso é útil somente para analisar este período de fim de governo, próximo à campanha presidencial. No entanto, não é nada suficiente para cogitarmos das hipóteses de como e quando, afinal, ocorrerá a retirada das tropas. Esse é assunto para uma outra análise, que se debruce sobre as nebulosas condições internas do Iraque, para o que não há espaço aqui.
Destaca-se, no entanto, que a importância do assunto na política interna norte-americana não pode ser esquecida, vez que se trata de tema que foi capaz de determinar mudança na composição do Congresso dos EUA e deverá ser decisivo na escolha do próximo presidente. Isso se reflete em impactos gerais na política externa dos Estados Unidos, a qual, por sua vez, influencia significativamente o meio internacional, dada a posição de superpotência hegemônica do país. Portanto, o analista das relações internacionais tem a obrigação de estar atento ao tema. Até mesmo assuntos que não guardam nenhuma relação imediata com a ocupação do Iraque são influenciados por ela e pela percepção que se tem dela nos EUA: a política de comércio exterior norte-americana, por exemplo, costuma variar em função do poder que têm os Republicanos ou os Democratas em determiná-la. Tal poder está hoje condicionado pela influência do tema Iraque na política interna americana. Esse é apenas um exemplo da influência transversal exercida pelo assunto aqui analisado na política externa dos Estados Unidos, pela via de condicionamento das grandes escolhas de política interna.
Não se pode olvidar tampouco, no entanto, que a relevância global dos destinos do Iraque não deriva apenas da imensa importância do assunto na política doméstica norte-americana. Repisando o óbvio, é preciso lembrar que o Iraque é país chave para a estabilização dos preços do petróleo e para a política energética da Casa Branca. Aliás, há poucos dias Alan Greenspan, que presidiu o Banco Central americano de 1987 a 2006, lembrou-nos disso ao publicar sua autobiografia, onde escreveu que “a guerra no Iraque gira, em grande parte, em torno do petróleo”.
Além do petróleo, há ainda como elemento central a importância geopolítica do Iraque. As tradicionais tensões no instável Oriente Médio têm se intensificado, com a possibilidade de o Irã estar se preparando para produzir armas nucleares. Ter em Bagdá um governo hostil aos Estados Unidos e simpático a essa suposta pretensão iraniana seria algo no mínimo preocupante para os americanos e seus aliados.
A crise interna iraquiana não se reduz, por conseguinte, a seus efeitos políticos internos de falta de governança no país e conflito inclusive armado entre as facções políticas, étnicas e religiosas. A estabilização do Iraque é componente importante num delicado e instável quadro que envolve petróleo, tensões militares no Oriente Médio, combate ao terrorismo e disputa entre Republicanos e Democratas.
Parece, portanto, ser ingenuidade supor que basta aos EUA “estabilizar” o conflito no Iraque; não é qualquer estabilização que atende aos objetivos de política externa norte-americana. Uma pacificação que conduza ao poder um aliado do governo iraniano e hostil a Washington, por exemplo, não é nada conveniente aos Estados Unidos. É evidente que não são preocupações humanitárias que impedem os EUA de retirar suas tropas e deixar um Iraque em guerra civil nas mãos dos iraquianos. É sobretudo a preocupação com o que sobrevirá a essa guerra civil – com o controle do petróleo iraquiano e a posição do Iraque no complicado contexto regional do Oriente Médio, sobretudo com relação ao Irã.
Compreende-se, assim, que a administração Bush tem fortes motivos para não se comprometer com um cronograma de retirada completa das tropas – demanda cada vez mais acentuada da opinião pública. O preço do desgaste político interno é levado em consideração, mas não supera o cálculo das perdas que os EUA poderiam sofrer caso abandonassem o Iraque de forma irresponsável com os objetivos da política externa norte-americana em jogo. Esse, aliás, é um motivo para se esperar que os Democratas também adotem posições mais flexíveis quanto à retirada das tropas. Os pré-candidatos Hillary Clinton e Barack Obama, apesar de discursarem pela redução das tropas em ritmo mais acelerado, já deixaram claro que para eles a redução também deve estar condicionada ao alcance da estabilização desejada pelos Estados Unidos. Essa moderação deverá mitigar a polarização que ocorrerá na campanha presidencial em relação ao tema, embora não seja o suficiente para tornar o tema Iraque pouco influente na disputa.
Não surpreende, portanto, que o anúncio de que ocorrerá diminuição dos contingentes militares no Iraque tenha sido desacompanhado de um cronograma de retirada das tropas. É difícil saber se a redução anunciada agora é apenas uma resposta à pressão popular nos EUA e uma jogada político-eleitoral ou se é fruto também de algum avanço efetivo na estabilização pretendida no Iraque. A Casa Branca afirma ser conseqüência de tal avanço e apresentou relatório em que apontou melhoras em metade dos indicadores que criou para avaliar a estabilização do Iraque. Mas, ao menos quando de trata do Iraque, a palavra da Casa Branca não se tem feito merecedora de muito crédito…

João Telésforo N. de Medeiros Filho  é  Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (mf_telesforo@yahoo.com.br).

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1 Comentário em Como e quando retirar as tropas do Iraque? Com a palavra, o (a) sucessor(a) de George W. Bush, por João Telésforo N. de Medeiros Filho

  1. Independentemente do próximo ocupante da Casa Branca ser Republicano ou democra-ta, o eleitor estadunidense deve ter a consciência de que a retirada a curto prazo do Iraque pode conduzir a uma situação de conflito interno, desestabilizando a região ou oferecendo condições a ingerências externas com resultados imprevisíveis na política internacional. Colocar em funciona-mento uma administração pública, com forças armadas e de segurança com autoridade, modernizar uma industria petrolífera obso-leta, fornecer alimentos, medicamentos e vestuário, despoluír as cidades, rios e outros espaços, reconstruír centros popu-lacionais, incentivar um governo que seja respeitado e que tenha uma política externa moderada com os paíse vizínhos, etc, deverá ser feito e incentivado pela comunidade internacional e concerteza pelos EUA.
    Os iraquianos mais cultos, estão conscientes de que passadas poucas décadas deste pesadelo , o petróleo não terá a mes-ma importância e tudo isto será impossível de concretizar.

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