Paris 13/11: fanatismo desenfreado do terrorismo Internacional?, por Marcos Degaut

O terrorismo não pode ser, simplesmente, rotulado como algo irracional, inexplicável, uma aberração gerada por mentes doentias. Embora não seja justificável sob qualquer hipótese, é um método lógico, racional, planejado e calculado de acordo com as circunstâncias. Obviamente, o terrorismo não é o único caminho para a consecução de metas revolucionárias ou radicais. Supõe-se que seu emprego seja motivo de cuidadosa avaliação e análise, assim como deve ser sua comparação com outras alternativas porventura disponíveis.

Um dos pontos principais consiste em precisar por que organizações insurgentes decidem adotar o terrorismo como instrumento de ação útil e eficaz. Por que o terrorismo torna-se atraente para alguns dissidentes, ao passo que é repudiado por outros? Com frequência, terroristas e adeptos alegam terem sido impelidos a isso pela natureza do sistema político, por não terem tido a oportunidade, condições ou meios para expressar suas opiniões e reivindicações de maneira democrática e satisfatória. Esse argumento revela-se falacioso quando se considera que a maioria dos que fazem oposição a um regime, governo ou Estado não só não recorrem a tais práticas e expedientes antidemocráticos, como os rejeitam visceralmente.

De forma geral, o terrorismo pode surgir após o fracasso de outros métodos oposicionistas, no mais das vezes de caráter não violento, destinados a provocar mudanças no status quo vigente. Nesse cenário, seria o resultado de um longo processo de aprendizagem e de deslegitimação do sistema político, sobre o qual se torna possível discernir, com clareza, certos padrões de comportamento.[1]

Esse processo é normalmente constituído de três estágios. Em uma primeira etapa, essa aprendizagem passa por uma crise de confiança no governo, ou na ordem sociopolítica ou econômica vigente, mas que, nesse estágio, não pressupõe ainda uma deslegitimação estrutural, já que os fundamentos da ordem social ainda não são combatidos ou desafiados, apenas criticados. Normalmente, não existe uma ruptura ideológica completa com os poderes estabelecidos, mas apenas uma oposição manifesta, articulada e profunda.

O conflito de legitimidade representa a continuação radicalizada da crise de confiança. É o estágio comportamental que evolui quando grupos previamente comprometidos com reformas sociais, ou de qualquer outra natureza, estão prontos para questionar todo o sistema. As antigas críticas evoluem para se tornar uma ideologia de deslegitimação, a qual articula um rompimento com a ordem estabelecida. Desenvolvem-se, assim, mecanismos para extravasar suas frustrações e revoltas sob formas mais violentas e extremas de expressão. Dessa maneira, esse período é marcado por intensas ações políticas que variam de protestos pacíficos até a aplicação de violência de pequena escala contra o regime ou outro alvo em particular.

A crise de legitimidade representaria o ápice dos dois estágios psicopolíticos precedentes. A manifestação política nessa etapa aparece sob a forma de terrorismo estratégico, o qual consiste na formação de uma pequena rede de terror para se engajar em ataques não-convencionais contra o regime e seus afiliados. Os insurgentes consideram suas táticas e ações moralmente justificáveis porque elas serviriam, em tese, para erradicar práticas sociais “corruptas”, “maléficas” ou “danosas” e para implantar novos valores éticos, morais e de comportamento. Sua perspectiva é a de que estão agindo por força do imperativo moral de interromper a negligência e os maus tratos a que é submetida a população, comunidade ou grupo. Esses não conseguiriam modificar políticas sociais “injustas” pelo fato de estarem excluídos do sistema político que os vitimiza, ou porque lhes falta o poder social para efetuar as mudanças desejadas por meios pacíficos. Consideram, assim, o recurso a táticas terroristas como a única alternativa disponível. As ações cometidas por eles passam a ser, então, “santificadas”, ao passo que as de seus antagonistas (o poder estabelecido) são vistas como barbáries mascarando um raciocínio moral ultrajante.

Além desses estágios de “aprendizagem”, outros três fatores importantes parecem influenciar a formação de organizações extremistas violentas: o reduzido número de militantes engajados e de pessoas que efetivamente suportam a “causa” – o que é diferente de demonstrar simpatia ou possuir pontos de vistas algo coincidentes – em comparação com as forças armadas estatais; as restrições do tempo, haja vista os terroristas acreditarem que a dinâmica dos processos democráticos processam alterações nos quadros políticos de forma desencorajadoramente vagarosa; e a assimetria de equipamentos bélicos e de poder militar convencional entre o Estado e a organização dissidente, a qual precisa se valer de técnicas subterrâneas de baixo custo e elevado poder de destruição e intimidação para demonstrar a “força” e a amplitude de seu movimento.

Então, não se engane. Terrorismo não é arma de loucos ou fanáticos. Na realidade, o impacto cumulativo da violência política de baixa intensidade no mundo, hoje, tem o potencial de redesenhar o mapa geopolítico do globo. Ressalte-se, assim, que a continuação do terrorismo por indivíduos, organizações e/ou por nações que o patrocinam, bem como a outras formas de subversão, para atingir seus objetivos tem levado a uma diminuição progressiva da estabilidade e da segurança internacional e à degradação do direito e da ordem em todo o mundo. Essa instabilidade é dramaticamente acentuada pelo declínio do monopólio da força armada, que já não está nas mãos dos governos. A chamada ‘guerra assimétrica’ que aparece nos debates estratégicos atuais dos Estados consiste precisamente na capacidade desses grupos armados não-estatais de sustentar-se quase indefinidamente em luta contra o poder do Estado, nacional ou estrangeiro. O poder e a pseudolegitimidade desses movimentos terroristas só poderá ser destruído ou emasculado quando houver generalizado reconhecimento internacional de sua gravidade e a consequente e necessária ação conjunta, efetiva e concreta, para, se não o erradicar, o que não aparenta ser possível atualmente, reduzir sua incidência a patamares mínimos, sem potencial desestabilizador e que, por fim, revelem sua natureza autodestrutiva.

[1] Ver Degaut, Marcos (2014). O desafio global do terrorismo: política e segurança internacional em tempos de instabilidade, CSI Publishing.

Marcos Degaut – Professor Adjunto na University of Central Florida, Ph.D. em Security Studies (marcosdegaut@knights.ucf.edu)

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1 Comentário em Paris 13/11: fanatismo desenfreado do terrorismo Internacional?, por Marcos Degaut

  1. Bom dia.

    Gostaria de ver um comentário seu relacionado à influência dos grandes Estados quanto ao financiamento e principalmente armamento de grupos erráticos, durante seu período de formação ou de fortalecimento.

    Em alguns casos temos o potencial bélico de um grande Estado (geralmente do ocidente) em apoio a um grupo insurgente, que posteriormente pode se tornar grande ameaça aos próprios Estados ocidentais, como casos da Al Qaeda, e creio também ser o caso do Isis, já que o próprio governo Estado Unidense enviou armamento para rebeldes afegãos na década de 80 e rebeldes sírios nos últimos anos.

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