China: reação diante dos problemas energéticos, por Virgílio Arraes

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p style=”text-align:justify;”>No ano passado, a China vivenciou um crescimento econômico superior aos 10%, materializado em um PIB acima de 2 trilhões e 500 bilhões de dólares. Contudo, Henry Paulson, titular da Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos, acredita que as reformas naquele país deveriam ser ainda mais estimuladas, a fim de atrair mais investimentos externos e, por conseguinte, gerar mais competição interna.
Alguns resultados negativos da intensa expansão são já bastante perceptíveis: desigualdades sociais ascendentes e problemas ambientais significativos. Incapaz de encontrar, no curto prazo, fontes energéticas alternativas, a China deverá ampliar o seu consumo de carvão nos próximos anos, o que afetará ainda mais a qualidade do ar e da água. De acordo com o Banco Mundial, cerca de 5 milhões de pessoas morrem na região em decorrência de doenças relacionadas a altos índices de poluição.

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p style=”text-align:justify;”>Em função da amplitude territorial, a situação para a diversificação energética no país não é nada animadora, em decorrência da ampla necessidade de gastos. Embora disponha de tecnologia, a infra-estrutura para a distribuição eventual de diversas fontes de energia é precária – o gás natural, combustível fóssil menos poluente, não dispõe nem de uma rede estruturada de gasodutos, nem de um sistema ferroviário adequado à demanda sempre  crescente.
Deste modo, além do carvão, extraído localmente, a China se baseia no petróleo, onde figura como o terceiro importador mundial desde os anos 90. Nesse sentido, o país tornou-se o segundo maior emissor de dióxido de carbono, ao posicionar-se apenas abaixo dos Estados Unidos, e causa inquietação à sociedade internacional sobre o seu eventual modo de lidar com questões ambientais, em face do incessante desejo de manter robustos padrões de crescimento econômico.
Com o objetivo de amenizar essa situação, resta ao governo chinês realmente a necessidade de adotar medidas antipoluentes, apesar dos custos iniciais, de maneira que não se prejudiquem suas exportações, em especial para os países ocidentais, mais sensibilizados recentemente por sua opinião pública em relação a questões do meio ambiente: na indústria automobilística, por exemplo, estipularam-se padrões antipoluentes rigorosos se comparados ao eixo euro-atlântico.
Graças a isso, o total de veículos exportados, inclusive para a América Latina e Oriente Médio, chegou a 340 mil unidades em 2006, cifra ainda modesta, porém de impacto, se cotejada respectivamente aos dois anos precedentes – 173 mil e 78 mil automóveis. Ressalte-se que o país já é o terceiro maior fabricante mundial.
O governo chinês, no entanto, não enxerga a questão ambiental apenas pelo lado comercial. Estende-a também para o geopolítico, ao ambicionar a redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis, especialmente petróleo, cujo fornecimento principal advém do Oriente Médio, área considerada sobremodo instável.
Desta forma, a perspectiva chinesa é atrair, de maneira contínua, investimentos para intensificar o desenvolvimento de projetos em larga escala de fontes energéticas renováveis. Para tanto, houve a necessidade de modificar a legislação, efetivada com êxito em janeiro de 2006.
Por meio da alteração, providenciaram-se as condições necessárias para o financiamento de programas e, simultaneamente, de estímulos a parcerias entre empresas locais e estrangeiras, com a intenção de compartilhar tecnologia de última geração. Vários projetos vinculados à extração de energia eólica, solar e hidrelétrica encontram-se em andamento. Atividades relacionadas ao biocombustível também são consideradas importantes.
O país apressa-se, porquanto o cenário é-lhe desolador para os próximos anos. Não obstante os investimentos feitos e as medidas aplicadas, em 2010 espera-se que apenas meio por cento da energia elétrica proveria, por seu turno, de fontes renováveis. O carvão ainda ocuparia o primeiro lugar com 73% e as hidrelétricas e usinas nucleares, cujos padrões de segurança seguem os da França e os do Canadá, responderiam por 22,5% e 4% na devida ordem. Além do mais, estima-se que o país importará dois milhões de barris de petróleo por dia.
Diante de tal quadro, as tentativas de reduzir o ritmo de crescimento para cerca de 8% ainda em 2007 espelhariam, ao menos parcialmente, preocupações do governo chinês com vistas à obtenção, no curto prazo, de fontes energéticas viáveis, tanto em termos de renovação como de menor potencial poluidor.

Virgílio Arraes é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

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