A elegância do Elefante e a imponência do Dragão, por Paulo Antônio Pereira Pinto

A emergência atual da Índia e da China tornou-se objeto de noticiário cotidiano. Com frequência, esgotam-se as possibilidades de comparação imaginária, entre o “elefante” e o “dragão” que simbolizam, como se sabe, respectivamente, cada país.
A maioria dos artigos e estudos sobre suas economias reconhecem, por enquanto, a liderança econômica do dragão chinês, que estaria voando à frente dos passos cadenciados do paquiderme indiano. Para o observador em Mumbai, no entanto, fica a impressão de que, apesar desta simbólica vantagem, os dirigentes de Pequim procuram dissociar a imagem da RPC daquela figura mitológica.
No que diz respeito ao mascote dos Jogos Olímpicos de 2008, a serem realizados na RPC, por exemplo, os chineses preferiram o urso panda, melhor associado à imagem acolhedora de uma “economia socialista de mercado”, aberta ao capitalismo internacional, do que a do dragão, sempre presente nos ornamentos da China Imperial, então fechada ao resto do mundo.
Fica, aqui, portanto, a pergunta sobre quando Nova Delhi deveria preferir reciclar a imagem do lento elefante, pela do dinâmico tigre, também historicamente associado à Índia e, talvez, mais representativo no momento atual, quando este país pretende apresentar-se como importante ator na economia global.
Neste ponto, caberia reiterar uma diferença fundamental, entre os processos decisórios nas duas potências emergentes asiáticas. Na RPC, como sabe, há uma evolução ditada pelo Governo central, de cima para baixo. O discurso e ações são determinados pelo Partido Comunista, sem consulta popular. Daí, sempre de acordo com a conveniência do PCC, pode prevalecer o apelo ao dragão ou ao urso panda, sem contestação social..
Na Índia, contudo, os avanços econômicos recentes são determinados por consenso de setores interessados. As autoridades centrais, na verdade, sentem-se ameaçadas, na medida em que a burocracia de 20 milhões de pessoas poderia perder privilégios e prerrogativas, caso sua lentidão paquidérmica viesse a ser substituída pela agilidade felina. Assim, é de se esperar que haja forte determinação dos governantes, para que permaneça o apelo aos atributos de realeza, longa vida e fortaleza, associados ao elefante.
Comparações entre as duas economias iniciam-se, invariavelmente, com os conhecidos pontos fortes de cada país. A Índia lidera no setor de serviços, particularmente na tecnologia da informação. A China tem sido, nos últimos anos, o maior polo de atração de capitais diretos estrangeiro, tornando-se uma enorme plataforma de produção e exportação de bens.

A partir daí, são repetidas análises sobre o futuro brilhante dos dois gigantes asiáticos, na medida em que, segundo alguns setores de opinião, não haveria recuo no progresso ora em curso. Para o observador em Mumbai, contudo, os dados sempre apontados, como seus respectivos pontos fortes, podem, na prática, serem vulnerabilidades.
Isto porque, no que diz respeito à economia indiana, o ter-se voltado para a tecnologia da informação não foi resultado de vantagem competitiva natural alguma. Pela novidade do setor, o gigantismo estatal aqui criado, após a Independência, em 1949, não tivera tempo de “regular o setor”. Daí ter havido uma emigração natural de talentos para a inovadora área de “IT” – livre das garras da burocracia. A exportação destes serviços, ademais, ocorre pela internet, sem ter que ser submetida aos inúmeros impecilhos decorrentes da péssima infra-estrutura nacional, em termos de estradas e portos.
Quanto à China, o fato de haver vasta captação de recursos externos, cabe observar, deriva da debilidade do país em contar com sistema bancário e mercado de capitais próprio. Mesmo se beneficiando com poupança interna estimada em 40% do PNB, há poucas instituições financeiras chinesas com competência para alocar estes recursos eficientemente. Além disso, o fato de ser uma enorme plataforma de produção e exportação de marcas estrangeiras pode refletir pouca capacidade de inovar, limitando-se, em muitos casos, a “agregar suor”, à fabricação local de bens estrangeiros.
Verifica-se, portanto, que a corrida entre o “elefante” e o “dragão” poderá não ser decidida em função de seus reconhecidos pontos fortes, no momento, conforme assinalado acima.
Isto é, por um lado, a China – segundo estudos disponíveis – teria que colocar-se em plataforma mais elevada do que a de ser um espaço onde a mobilização de seus recursos continue a ocorrer, em função de interesses ditados do exterior.
Por outro, a Índia – para o observador local – teria protegido, em demasia, seus próprios empresários e mantido as companhias multinacionais à distância. Assim, as mega empresas indianas são muito maiores do que as chinesas. O problema é que sua sobrevivência, como produtoras de bens – não incluídas aí as de serviço, pelas razões já mencionadas – depende ainda de restrições à concorrência com o capital estrangeiro. Trata-se de reação nacionalista, adotada logo após a Independência do país, em 1949, na linha do exposto em coluna anterior.
Artigo recente, publicado em revista local, narra a curiosidade de que uma engenheira chinesa, após concluir curso em Mumbai afirmou que gostaria de ver a cidade de Xangai transformada para parecer mais com este maior centro urbano indiano. A observação causa perplexidade – para os que conhecemos ambas as metrópoles – pelo fato de que não se cansa de ouvir o quanto “a China estaria 20 anos à frente da Índia, em matéria de infra-estrutura”. Aqui falta energia, o trânsito é caótico, os prédios residenciais e de escritórios encontram-se deteriorados e metade da populção de 17 milhões de habitantes mora em favelas ou nas ruas.
Para a referida visitante da RPC, contudo, infra-estrutura material pode ser construída com facilidade, em Mumbai. Seria mais difícil, segundo ela, criar, em Xangai, a “infra-estrutura do conhecimento” , bem como a bancária e financeira e capacidade de inovação que o tipo de liberdade existente entre os indianos permite desenvolver e consolidar.
As comparações entre os países que adotam como símbolo o elefante e o dragão seriam, como antecipado no início, inúmeras. O grande desafio que se coloca a ambos, no entanto, é o de resolver o problema da fome e miséria.
Muito de nós, quando crianças, ouvíamos de nossos pais, a cobrança de que “coma as cenouras de seu prato, pois milhões de indianos estão morrendo de fome” (lembram?). Enquanto isso, em regiões ao Sul da China, até hoje, o primeiro cumprimento matinal não é o de um “Bom Dia”. Lá se pergunta: “você já comeu hoje?”. O que seria explicado por períodos de fome prolangados, na longa história chinesa.
Por falar em comida, conta lenda local que o dragão teria o hábito de devorar o filhote do elefante. Enraivecido o pai da cria seria capaz de enfrentar o inimigo. Ao término da peleia, o dragão estrangularia o paquiderme que, com seu peso, cairia ao chão, esmagando o adversário com seu peso. Haveria destruição mútua.
Espera-se, nesta perspectiva, que a competição entre os dois gigantes asiáticos continue a ocorrer em termos pacíficos e simbólicos, prevalecendo os traços favoráveis da elegância do elefante e da imponência do dragão.

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