A CASA caiu – mas o dever de CASA continua a ser postergado

Aviso aos navegantes: a CASA – Comunidade Sul-Americana de Nações -, exercício alentado no primeiro mandato do Governo Lula para aprofundar a integração da América do Sul, morreu. A iniciativa, oficialmente de 2004, teve a sua primeira reunião de Chefes de Estado em 2005. Ela não morreu imediatamante ou de forma repentina, pois chegou a dar seus suspiros. No site oficial da iniciativa, é possível observar como o espasmo inicial, com as dezenas de reuniões e decisões do arranjo – mais de 20 em 2006 – ,  acabou se transformando em uma letargia profunda. Sobraram somente os circunlóquios e as “Grandes Decisões” sem consequência prática na dura realidade da integração regional.

Alguns meios, no entanto, ponderam que não foi uma morte. Foi uma transmutação, pois a CASA transformou-se em UNASUL – União das Nações Sul-Americanas -, e ela continuará a operar dentro desse novo marco. Os delegados brasileiros na reunião não gostaram, mas aceitaram. O governo brasileiro continua pensando, assim, que uma melhor inserção do país no mundo globalizado depende das reuniões presidenciais, dos grandes nomes, das frases de efeito e da força de vontade – principalmente se for realizado no eixo Sul-Sul ou simplesmente Sul Americano. Não é bem assim. O embaixador chinês no Brasil, Chen Duqing, em entrevista ao Valor Econômico, demonstrou, com um exemplo bastante ilustrativo, os problemas que o Brasil deve priorizar:

Em entrevista ao Valor, Chen especificou o caso do setor automobilístico, no qual a chinesa Chery encontrou dificuldades para entrar no Brasil. A montadora optou pelo Uruguai, sócio do Mercosul, onde pretende instalar uma planta. “No Brasil, o imposto de importação é alto, a mão-de-obra não é barata e a burocracia é complicada”, disse o embaixador. O Uruguai é menos exigente na agregação de conteúdo local: apenas 35% no primeiro ano.

O exemplo é nítido em demonstrar as perdas que o país sofre em seu cotidiano pela falta de uma reforma da política comercial, da legislação trabalhista e da política tributária -sem contar outras mais profundas. Não é um problema da diplomacia – é, sim, um desafio doméstico que deve ser priorizado pelo Presidente da República. Há, portanto, um nítido problema na inserção internacional do país que não depende da forma que nós nos portamos com os nossos relacionamentos bilaterais e multilaterais. Isso não quer dizer que o trabalho de prospecção e promoção diplomático seja inútil. Muito pelo contrário, ele é muito relevante. Mas de nada adiantará esse esforço da diplomacia se não cuidarmos do dever de CASA – realizarmos as reformas que há tanto tempo postergamos. Somente com essa tarefa realizada,  o nosso exército de Metternichs poderá se dar ao luxo de ver suas ações estratégicas germinarem no solo doméstico.

Print Friendly, PDF & Email

Seja o primeiro a comentar

Top