A psicologia do protecionismo, por Raphael Coutinho da Cunha

Um dos pontos de maior acordo entre os economistas é que o comércio internacional tende a ser benéfico para um país no agregado, embora gere normalmente ganhadores e perdedores. Mas se a maioria se beneficia do intercâmbio, por que políticas de restrição das trocas internacionais são a regra na prática? A explicação mais comum entre economistas e cientistas políticos é que os perdedores arcam com custos concentrados e, por isso, têm incentivos para se organizar e se mobilizar, para demandar proteção aos tomadores de decisão.

Isso não explica, no entanto, a atitude quase generalizada contra o livre comércio que se observa no público em geral — não-economistas e não ameaçados economicamente por produtos importados.

Por que, então, as pessoas não compartilham do entusiasmo dos economistas pelo livre comércio? Simon Kemp (University of Canterbury) tentou responder a essa pergunta recorrendo a estudos teóricos e empíricos da psicologia econômica. Seis fatores psicológicos parecem levar as pessoas a rejeitar o livre comércio.

1) O emprego é mais valorizado que o consumo: Nos modelos teóricos da economia, a utilidade dos indivíduos é definida em termos de consumo. Os ganhos com o livre comércio estão associados, em geral, ao aumento das possibilidades de consumo. No entanto, grande parte da rejeição ao livre comércio vem da redução na utilidade causada pela perda do emprego. A utilidade parece estar mais relacionada com a satisfação com o emprego do que com o nível de renda.

2) Viés a favor do status quo: Alguns processos psicológicos geram um viés a favor do status quo quando o indivíduo é confrontado com potenciais ganhos e perdas do livre comércio. A aversão a perdas é um dos principais causadores desse viés. A insatisfação com uma perda de $100 tende a ser considerada maior do que a satisfação com um ganho de $100. Some-se a isso a incerteza sobre quem serão os ganhadores e os perdedores de um processo de liberalização.

3) Altruísmo e paroquialismo: As pequenas perdas individuais com a proteção são percebidas como compensadas pela satisfação em acreditar que outros estão sendo ajudados com isso, principalmente se estes forem compatriotas — e sobretudo quando se trata de manter empregos.

4) Percepções de justiça: Apesar de o argumento econômico, no limite, justificar a liberalização unilateral do comércio de um país, as percepções sobre o que é justo ou injusto levam as pessoas a considerar injusta a liberalização sem reciprocidade, e a apoiar retaliações às elevações de barreiras comerciais de outros países.

5) Comércio como jogo de soma zero: Em situações de negociação, as pessoas tendem a acreditar que o comércio é um jogo de soma zero, isto é, que o ganho de um é a perda do outro.

6) “A idéia difícil de Ricardo”: O princípio da vantagem comparativa é contra-intuitivo e pouco compreendido por não-economistas. Vários economistas prestigiados já observaram que a idéia é mal compreendida por importantes formadores de opinião e, mais ainda, pelo público em geral.

Os mecanismos de transmissão entre esses fatores e a política comercial efetivamente empregada são basicamente dois: por um lado, eles afetam os próprios políticos e negociadores encarregados dessas decisões, que são indivíduos sujeitos a todos os tipos de idéias e vieses; por outro, em regimes democráticos, as visões dos cidadãos influenciam de algum modo as políticas, seja por meio dos representantes eleitos, seja por meio dos decisores sujeitos a pressões e controles desses representantes.

O resultado é uma atitude negativa em relação ao livre comércio: a possibilidade de ganhos tende a ser subestimada, enquanto a possibilidade de perdas é superestimada.

Referência: KEMP, Simon. “Psychology and opposition to free trade”. World Trade Review, Vol. 6, No. 1, p. 25-44, 2007.

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