Bush no Brasil, por Cristina Soreanu Pecequilo

Em seu State of The Union Address de 2006, o presidente George W. Bush afirmou que a sociedade norte-americana era “viciada em petróleo”, sinalizando a intenção dos EUA de investir no desenvolvimento de novas tecnologias e matrizes energéticas renováveis. Pressionado pela crise no Iraque, as políticas autonomistas e anti-americanas de dois de seus principais fornecedores de petróleo, Venezuela e Irã (e, mesmo, a Rússia e o entorno da Ásia Central), Bush apresentou a questão como estratégica para a continuidade da prosperidade do país, sem aprofundar estes temas geopolíticos sensíveis e mesmo as questões ambientais. Na oportunidade, apesar da proposta ser vaga, o discurso foi recebido com extrema expectativa, mas em meio às tensões internas e externas enfrentadas pela presidência, o projeto ficou em compasso de espera até renascer com força na recente viagem de Bush ao Brasil.

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p align=”justify”>Como resultado, nesta primeira quinzena de Março, Brasil e EUA selaram acordos bilaterais que sinalizaram o compromisso mútuo do desenvolvimento de pesquisas no campo energético (etanol) e da criação de um mercado mundial do etanol (que foi apelidado de nomes variados como “OPEP do álcool”, “OPEP do etanol” e “Eixo Hemisférico do Etanol”, somente para citar alguns). Definido como histórico pelas duas diplomacias, o acordo tem de fato um grande potencial para criar uma nova matriz energética mundial e imprimir um novo momento na busca de energias renováveis, gerando um ciclo histórico não mais sustentado no petróleo, com efeitos também na dimensão ambiental e de perspectivas de desenvolvimento. Implicações diplomáticas e geopolíticas também seriam grandes, reforçando o eixo Brasil-EUA, ressaltando a posição de vanguarda brasileira neste campo energético, como relativizando o poder de diversas nações que possuíam no petróleo sua única vantagem estratégica comparativa.
Contudo, todos estes potenciais não necessariamente serão realizados, à medida que o acordo recentemente assinado, e demais conversações aqui realizadas e que terão continuidade na próxima viagem de Lula a Washington no final de Março, revelaram a existência de alguns limites, em especial no que se refere à temática da abertura do mercado norte-americano ao etanol brasileiro. Da mesma forma, a própria condição da presidência Bush hoje traz constrangimentos estruturais à implementação plena destas políticas, uma vez que sua posição hoje é de fragilidade no sistema norte-americano e mundial.
Na realidade, tanto a visita ao Brasil como o breve tour de Bush por alguns países da América Latina insere-se em uma tentativa de superar esta posição de fragilidade por meio de uma ofensiva diplomática diversificada, com dimensões internas e externas. Em termos internos, esta ofensiva teria como objetivo direto atingir a oposição democrata e as crescentes críticas no partido republicano (também resultantes da aceleração da corrida presidencial de 2008), demonstrando capacidade de projetar e implementar políticas inovadoras, lidar com as questões ambientais (que voltaram à tona com o relatório da ONU sobre o aquecimento global, o Oscar para Al Gore e seu documentário sobre o tema “Uma Verdade Inconveniente) e desviar o foco das Guerras do Iraque e Afeganistão e das tensões com o Irã.
Especificamente, este último objetivo interno simultaneamente relaciona-se à dimensão externa da ofensiva, buscando oferecer pressões sob estas nações. Ao mesmo tempo, as pressões estendem-se a nações como Rússia, China e os países da UE, demonstrando a disposição norte-americana em renovar sua liderança mundialmente a partir do campo energético. E, no caso da região latino-americana, o alvo seria a retomada de uma presença construtiva dos EUA localmente, acrescendo-se à parceria energética com o Brasil, novos pacotes de ajuda econômica e parceria comercial, o que, em ambos os casos, levaria a um encolhimento da influência de Hugo Chavéz.
Assim, na América Latina o tema energia é parte complementar desta agenda político-estratégica, tentando cobrir os espaços perdidos pelos norte-americanos pelo não andamento das negociações da ALCA, as promessas não cumpridas dos recentes tratados bilaterais assinados com países menores, a crise neoliberal dos anos 1990, a perda de aliados como o México (cujas relações bilaterais com os EUA também são afetadas pela questão da imigração) e a existência de projetos políticos alternativos à liderança norte-americana na região, o já mencionado de Hugo Chavéz e as iniciativas sul-americanas de integração do Brasil. Neste sentido, as triangulações EUA-Brasil-Venezuela são parte integrante da conjuntura das Américas hoje, sendo os referenciais a partir dos quais orientam-se também as políticas das demais nações.
Analisando estas triangulações e os relacionamentos bilaterais especificamente, convergências e divergências táticas revelam-se, assim como estratégicas, o que indica dinâmicas oscilantes e ambíguas de cooperação e conflito. Na questão EUA-Venezuela, a convergência é econômica (petróleo), apresentando distanciamento político claro. Por sua vez, Brasil-Venezuela convergem no âmbito econômico e político de defesa de iniciativas autônomas, coalizões Sul-Sul, mas apresentam um gap tático na forma de implementar estas ações (o que tem levado, por vezes, a tendências concorrentes em algumas oportunidades) e no relacionamento com os EUA. E, no intercâmbio Brasil-EUA, como indicado, os potenciais são inúmeros política, estratégica e economicamente, mas persistem debates sobre como realizá-los completamente.
Existem autores, contudo, que indicam que a viagem à América Latina e outras iniciativas regionais de Bush com relação à Índia e China, já seriam um indicador de transformação na natureza da política externa republicana, passando do uni ao multilateralismo, reconhecendo a transição da ordem à multipolaridade (ver Daniel Drezner em Foreign Affairs, March/April 2007). A parceria com o Brasil, seria, como as com as nações mencionadas acima, parte deste compartilhamento de tarefas (somando-se as parcerias já existentes com a Europa e Japão). Entretanto, é preciso avaliar com cuidado essa percepção uma vez que iniciativas anteriores de “retomada do multilateralismo” já foram anunciadas como definitivas na presidência Bush, mas tiveram curta duração. A coalizão para a guerra anti-terror global, o multilateralismo assertivo e a diplomacia transformacional foram algumas destas tentativas, mas que respondiam a necessidades imediatas da presidência, pressionada por eventos como os atentados de 11/09 e as operações militares no Iraque e Afeganistão. Mesmo hoje, negociações multilaterais com a Coréia do Norte, conferências sobre o Iraque que reúnem Irã e Síria são vistas sob o signo da desconfiança. Internamente, além disso, como mencionado, a situação de Bush e seu staff é de dificuldades, o que, por princípio, já cerceia as projeções externas do país.
Para o Brasil, contudo, o saldo da viagem de Bush ao país e à região sustenta-se como positivo em meio a discussões sobre a natureza da agenda internacional da nação, que tem levado a falsas polêmicas sobre qual é (ou deveria ser) o eixo preferencial de ação no mundo. Como provaram os recentes encontros Bush-Lula, assim como as demais iniciativas da diplomacia brasileira no G-20, G-3, na América do Sul, o “eixo preferencial” é o do interesse nacional, do multilateralismo e de uma identidade autônoma destas iniciativas, tanto ao Norte quanto ao Sul.

Cristina Soreanu Pecequilo é Professora de Relações Internacionais Universidade Estadual Paulista – UNESP (Campus Marília), e Pesquisadora Associada ao Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (crispece@gmail.com).

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