Brasil e China – “Crise e Oportunidades”, (estas sempre para eles?), por Paulo Antônio Pereira Pinto

“Todo o momento de crise representa também oportunidades”[1], conforme já se tornou lugar comum afirmar, quando se fala sobre o relacionamento atual entre o Brasil e a China.

Cresce a impressão, no entanto, de que a “crise” é quase sempre imposta a nós, enquanto as “oportunidades” ficam com eles.

Este exercício de reflexão analisa diferenças de percepção entre o “jeito asiático” e a “maneira brasileira de ser”, com vistas a facilitar a interlocução entre as duas culturas, de forma a sugerir caminhos que coloquem os dois lados em posição de adquirirem vantagens, diante de oportunidades surgidas por “crises eventuais”.

Assim, busca-se inicialmente ressaltar a importância da análise das relações entre o Brasil e a China, no âmbito de uma “negociação cultural”.

A seguir, como introdução a comportamentos peculiares daquela parte do mundo, quando se trata de negociações, é feita dissertação, a título de exemplo, de como os chineses de ambos os lados do Estreito de Taiwan discutem entre si o tema da reunificação da ilha de Formosa à República Popular da China.

Sempre com o objetivo de identificar maneiras de interlocução entre o “jeito brasileiro” e o universo cultural chinês, efetuo resumo de experiência própria de tratativas com pessoas que compartilham daqueles valores, quando tive que, durante processo judicial em Taiwan, entre 2001 e 2004, cuidar do retorno de um garoto brasileiro – retido ilegalmente naquela ilha – para junto de sua família, no estado do Rio Grande do Sul.

No processo de negociação para seu retorno a nosso País, cabia-me, por um lado, perante a sociedade brasileira, situar a retenção do menino no contexto do “jeito asiático”, e, por outro, explicar aos taiwaneses nossa visão do problema, à luz da “maneira brasileira de ser”.

Conclui-se que, ao negociar com chineses cabe esperar, da parte deles, processo de tomada de decisões lento, truncado, com atalhos ou prorrogações, consensos e contradições, em busca de acordo que contemple oportunidades para ambas as partes.

A Emergência Atual da China

Verifica-se que a emergência atual da China é analisada, quase sempre, na perspectiva de sua crescente inserção econômica internacional, bem como a partir da cobiça quanto ao acesso de centenas de milhões de seus potenciais consumidores à oferta de produtos e serviços estrangeiros.

Essas avaliações se explicam a partir da crença prevalecente, no final do século XX, de que, com o término da bipolaridade mundial, após a extinção da União Soviética, em 1991, consolidar-se-ia um novo ordenamento internacional, no qual as leis de mercado se encarregariam de formatar os habitantes do planeta, como bem comportados consumidores de bens, serviços e ideias ocidentais.

 Sabemos, agora, que a criação de uma economia global e o fortalecimento de novas tecnologias não erodiram culturas e valores locais.

Verificou-se, pelo contrário, que, na medida em que as pessoas tiveram acesso maior à informação e educação, suas diferenças culturais se tornaram mais pronunciadas – não menos. Nesse processo, diferentes grupos demonstraram perseguir visões distintas de bem-estar, assim como reagiram a ameaças perceptíveis a sua identidade cultural.

  O diálogo entre culturas, portanto, torna-se cada vez mais importante e tem sido objeto de intenso debate, a partir do término da Guerra Fria, quando ressurgiram necessidades de interlocução entre Estados, que, havia décadas, tiveram suas identidades culturais sufocadas pela bipolaridade mundial.

O Jeito Asiático

  No século passado, fortaleceu-se a convicção de que o fenômeno da globalização influenciaria a reorganização dos sistemas político e econômico mundiais, aumentando a divisão da produção internacional, ditando uma cultura uniforme com características ocidentais e determinando a inserção das diferentes regiões do mundo em novo ordenamento mundial.

Para fazer face a este tipo de desafio, a sociedade civil de países na Ásia-Pacífico e do Brasil buscaram proteger suas identidades culturais das consequências da globalização. Pessoas, naquela parte do mundo e na nossa, portanto, efetuaram grandes esforços para entender a sociedade em que vivem, como parte de um escudo protetor para suas aspirações e interesses individuais e coletivos.

Para muitos, fora do continente asiático, a propósito, até há pouco tempo, o “jeito” daquela parte do mundo significava ciclos de controle de qualidade e outras técnicas de administração criadas pelas empresas japonesas, a partir da década de 1970.

Gradativamente, a região começou a projetar-se na consciência mundial, a partir de novas formas de inserção, em termos de idéias e valores. Passou-se a entender que existe uma rede muito mais ampla de crenças que servem de base de sustentação para o processo de crescimento da Ásia-Oriental.

O interesse acadêmico sobre a evolução dos regimes políticos na Ásia-Pacífico intensificou-se, desde o término da Guerra Fria. Recentemente, novas perguntas passaram a ser formuladas, como a relativa à possibilidade de que a falência universal do autoritarismo venha a produzir o mesmo tipo de padrões democráticos aceitos pelo Ocidente, no continente asiático, onde experiências históricas, muitas vezes milenares, provocaram a emergência de formas bastante originais de regimes de governo, tanto na China quanto em países do Sudeste Asiático.

Na mesma perspectiva, colocou-se o debate quanto ao desenvolvimento do sistema capitalista e das práticas de economia de mercado em países de acelerado crescimento, onde personalidades fortes ou partidos políticos com longa permanência no poder, levaram o Estado a desempenhar papel preponderante no funcionamento das forças de mercado. Também neste setor, são notadas marcantes diferenças entre os modelos adotados na Ásia-Oriental e os de tradição européia e norte-americana. Nota-se, a propósito, o enunciado chinês a respeito da existência de uma “economia socialista de mercado”, o que indica que o permanece interferência estatal – em busca dos interesses da sociedade – enquanto são permitidas práticas do livre jogo de formação de preços e relações de trabalho – no estilo capitalista.

O jeito asiático – em suma e termos reconhecidamente simplificados – consideraria que direitos individuais poderiam, em determinado momento, serem colocados em segundo plano, seja em relação ao progresso ou segurança da sociedade, seja mesmo em função de interesses de um grupo familiar.

A Capacidade Antropofágica Brasileira

No Brasil, a capacidade antropofágica, defendida por Oswald de Andrade[2], no sentido de absorção de outras culturas, foi sendo desenvolvida, desde a chegada dos colonizadores e da formação de nossa civilização tropical.

Ao chegar à região Leste do continente sul-americano, Pedro Alvarez Cabral encontrara uma gente cuja forma autóctone de ser a tornava perfeitamente confortável no ambiente de integração com a natureza em quem viviam. A terra era rica em recursos naturais, as florestas transbordavam de vida e seus rios sustentavam os nativos.

A miscigenação dos colonizadores com o povo local e com os trazidos à força da África criou um país onde a variedade racial é um fato da vida, sem tensões exacerbadas que, com frequência, permeiam outras sociedades multirraciais. A disponibilidade para a tolerância diante de outras culturas foi transmitida através de sucessivas gerações de brasileiros.  Em comparação com nações cuja história é marcada por fortes nacionalismos, temos recebido bem pessoas de diferentes grupos étnicos e culturas.

 Tendo em vista que este exercício de reflexão busca identificar vantagens mútuas no relacionamento entre Brasil e China, no que diz respeito à influência chinesa no Brasil, recorro a ensaio do Professor Severino Cabral[3], para quem é possível traçar em grandes linhas a história da criação do que define “como os começos de um conhecimento brasileiro, ou uma visão brasileira do mundo de cultura e civilização chinesa”. Tal intercâmbio teria inicio desde os primórdios da criação do Brasil quando se introduziram costumes, crenças e saberes oriundos da Ásia (Índia e China) nas estruturas sociais e culturais que produziram o nascimento do ser nacional brasileiro.

Segundo o Prof. Cabral, é conhecida a participação jesuíta na construção de um padrão educacional das populações indígenas brasileiras desde o século I da historia do país. Este fato, contudo, encontrava-se vinculado a outro de enorme importância, destinado a ter grande e profunda repercussão na vida cultural da jovem nação brasileira. O empreendimento jesuíta surgia num contexto em que a batalha pela fé cristã transcendia o mundo europeu, como resultado das grandes navegações ibéricas, que abriram as rotas oceânicas mundiais. Com isso, “os novos soldados da fé puderam criar uma visão global do fato religioso, que culminaria num projeto grandioso de expansão da fé católica na América e Ásia”.

 “O projeto jesuítico contemplava a possibilidade de irradiar a fé católica além das fronteiras do Velho Mundo. Assumia o compromisso de levar a mensagem aos povos do Novo Mundo americano recém descoberto e aberto à colonização. Bem assim, laborava a ideia de expansão da cristandade para as antigas civilizações do Oriente, nomeadamente: China e Índia” continua o Prof. Cabral.

Na América, espanhóis e portugueses iniciavam a exploração dos novos territórios com a participação dos jesuítas, que, envolvidos no seu magno projeto de conquistar as populações locais, engajaram-se no processo da “Catequese”. Tratava-se de integrar essas populações que se encontravam em diferentes estágios de desenvolvimento ao processo religioso e civilizatório euro cristão.

Enquanto isso, no Oriente as civilizações da Índia e da China apresentavam as marcas perenes de esplêndidas criações do engenho e arte humanos. Elas interpelavam os Jesuítas, impondo-lhes um grande desafio. O desafio de oferecer uma nova crença que representasse algo de novo a um mundo espiritual tão complexo e completo – sempre de acordo com o Sr. Severino Cabral.

Considerando-se, nessa perspectiva, que o Brasil participou, desde o início de sua formação, de um projeto comum que incluía a América e a Ásia, nosso País, a partir de então, recebeu e “digeriu” influência da cultura chinesa.

 As Negociações entre Pequim e Taipé

Conforme mencionado na introdução, cabe ressaltar que o exercício de reflexão quanto às técnicas de negociação, entre Pequim e Taipé,  a respeito da reunificação de ilha de Formosa à República Popular da China, proporciona, também, aprendizado sobre como devemos conduzir nossas próprias gestões econômicas e interlocução política com o “universo chinês”, do qual a China e Taiwan fazem parte.

Verifica-se, por exemplo, que no processo de negociação com chineses, desde o início, cabe precaver-se quanto à necessidade de distinguir entre um enunciado e um compromisso[4].  Isto porque, com frequência, a simples proposta do tema a ser discutido já contém, em seu “enunciado” o “compromisso” que uma das partes pretende obter de seu interlocutor.

Assim, no esforço de restabelecimento das negociações através do estreito, os dirigentes da RPC anunciam, como condição prévia, a aceitação do princípio de “uma China”.  Dessa forma, o tópico enunciado pelos chineses, para a discussão com os formosinos, já contém em si mesmo o compromisso que Pequim pretende obter de Taipé.

De sua parte, os taiwaneses tratam a ideia de “uma China” como um enunciado que só poderia ser atingido quando, de fato, fosse contornada a “realidade” de que existiriam “duas Chinas”.  Seria, portanto, do interesse de Taipé obter, como ponto de partida, o compromisso chinês de que existem uma República Popular da China e outra entidade política, representada por Taiwan.

Na sequência das negociações, há um esforço permanente para estabelecer sucessivas “novas cenas de partida”. Isto é, cada parte procura superar qualquer vitória que o interlocutor tenha obtido, empurrando a discussão para um patamar seguinte, em que novo consenso lhes seja favorável. Na prática, é um criativo exercício de linguagem. O “que foi acordado“, para o “universo chinês”, é com frequência algo inesperado para a “mente ocidental”.

Assim, é necessário perceber, em primeiro lugar, que um negociador de seja qual for a margem do estreito, com frequência, utilizará palavras de seu interlocutor para encurralá-lo em determinada posição ou levá-lo a concessões. Daí, por exemplo, a relutância formosina em aceitar o princípio de “uma China”, como cena de partida para o reinício das conversações. No momento em que tal enunciado for aceito, a parte chinesa terá vencido a argumentação, pois haverá obtido o compromisso de Taipé quanto à inexistência de outra entidade política, na margem formosina do estreito.

Em segundo lugar é conveniente considerar o que é entendido no “universo chinês” como “face”, no sentido de aparências ou “status” social ou político do interlocutor.

Dessa forma, sempre tomando como referência as tratativas entre as margens chinesa e taiwanesa do estreito, nota-se que, mesmo antes de se sentarem à mesa cada parte busca exercer pressão sobre ou desmerecer a outra, buscando diminuir-lhe a “face”.

 Pequim, de sua parte, enquanto reitera que só aceita conversar com Taipé quando as autoridades formosinas aceitarem o princípio de “uma China”, renova a ameaça de emprego da força militar, caso os líderes taiwaneses insistam em declarar-se uma entidade política separada.

Em contrapartida, ao reafirmarem que já são “um país independente”, os taiwaneses não cansam de acenar com a existência do “Taiwan Relations Act”, que obriga os EUA a assistirem militarmente a ilha, caso esta seja invadida pelo continente.

Cabe observar, ainda, que outra característica dos negociadores do “universo chinês” é a da tentativa de colocar o adversário em situações de tomadas de decisão sob pressão permanente, do tipo “pegar ou largar”. Mas, em seguida, adotam nova postura, indicando que, na verdade, não atribuíam tanta importância à exigência que haviam acabado de fazer.

Na linha de raciocínio que se procurou desenvolver nos parágrafos acima, ambas as partes chegam, nessas sequências de consensos, a patamar distinto, que significaria nova cena de partida, a ser rediscutida, em função de enunciados distintos, até que, em algum momento, se chegue a compromisso.

O Interesse para o Brasil

A reflexão sobre essas técnicas de negociações chinesas é importante para que possamos nos situar melhor, quando de tratativas de caráter comercial e econômico com a RPC. É necessário identificar, com nitidez, a diferença entre o que está sendo enunciado, a ser perseguido, e os sucessivos consensos a serem percorridos, até que se chegue a compromisso final, incluindo interesses de ambas as partes.

Entre os ensinamentos que ficam do estudo da interlocução com e intra “universo chinês” seria possível registrar que:

–          naquela parte do mundo, esticam-se, ao máximo, as negociações, no esforço de identificar novas vantagens a serem obtidas do interlocutor, utilizando-se o leque de artifícios e pressões relacionadas acima. Uma tática frequentemente aplicada é a de repetir enunciados ou indagações semelhantes. Nesse processo, os negociadores chineses usam e abusam de detalhadas anotações. Acima de tudo, trabalham em perfeita sintonia, isto é, não demonstram contradições internas perante seus interlocutores. Fica sempre claro que a verdadeira agenda do grupo é cuidadosamente disfarçada;

–          para a adequada condução de conversações com pessoas desta cultura, deve-se, inicialmente, entender que os encontros, seja com o alto escalão de governos ou de direção de empresas não necessariamente proporcionarão – de acordo com a maneira de negociar ocidental – a oportunidade final para compromissos definitivos. Para os chineses, na verdade, estes são momentos para exibir a tal “face”, executar um ritual, durante o qual buscarão demonstrar sua superioridade. O que vale, para eles, é o relacionamento pessoal desenvolvido durante as reuniões preparatórias, os sucessivos consensos obtidos, através das formas de pressão e concessões conseguidas. Daí, ser fundamental que a outra parte, com antecedência, disponha de propostas em comum – que não seriam rediscutidas perante o adversário, revelando, assim, falta de coerência interna; não alterne seus negociadores, pois tal hesitação levará o grupo chinês a testar a vulnerabilidades do novo interlocutor; e cabe, em encontros prévios, negociar processos claros para a barganha com os chineses, antecipando, se possível, quais são os patamares a serem almejados, bem como os pontos quanto aos quais não haverá concessões.

Experiência Pessoal na Negociação Cultural

O caso da retenção ilegal de um garoto brasileiro, chamado Iruan, na ilha de Taiwan, colocou-me diante de situação em que, durante quase três anos, entre 2001 e 2004, enquanto lhe prestava assistência consular, buscava tornar o processo de resgate do menino em diálogo entre duas culturas.

A partir de abril de 2001,  Iruan Ergui Wu, aos cinco anos, órfão de mãe brasileira e pai taiwanês,  tornara-se mudo, em Taiwan,  no meio de pessoas cuja língua não entendia e passou a recusar-se a falar, também, o português. De repente, o menino encontrou-se retido numa sociedade onde não se resolveu a equação que combina a preservação da identidade cultural, com a necessidade de respeito a direitos individuais reconhecidos universalmente.

Seu drama, provocado pelo desejo de tios paternos de retê-lo na ilha de Formosa, foi acompanhado, com grande interesse e persistência, pela imprensa brasileira, taiwanesa e até de alguns países ocidentais.

 Na condição de Diretor do Escritório Comercial do Brasil em Taipé,  cumpri o dever de prestar-lhe assistência consular e acompanhar seu caso, no outro lado do mundo.

Iruan se mantinha em silêncio, sem falar português, enquanto buscava, através do futebol, expressar sua identidade cultural, pois se encontrava entre pessoas que não praticam este esporte.

Em contrapartida, a família taiwanesa que o retinha procurava apagar de sua memória qualquer resíduo de lembrança dos parentes e comportamentos deixados no Brasil, para que se tornasse, mais tarde, um reprodutor do sobrenome Wu, com características apenas locais.

No processo de negociação para seu retorno ao Brasil, cabia-me, por um lado, perante a sociedade brasileira, situar a retenção do menino no contexto do “jeito asiático”, e, por outro, explicar aos taiwaneses nossa visão do problema, à luz da “maneira brasileira de ser”.

Era, sem dúvida, um exercício digno da antropofagia cultural já atribuída a Oswald de Andrade. Isto é, tratava-se de “digerir” características locais e devolvê-las ao distinto público da ilha, na forma de discursos e gestos, demonstrando a tolerância possível – com um “jeito” que apenas nossa cultura tropical seria capaz de fazer, sempre sem permitir que as negociações emperrassem de vez.

Para mim, o acompanhamento do caso do menino Iruan, retido na Ilha de Formosa, por seus parentes taiwaneses, proporcionou oportunidade para identificar nítidas diferenças entre percepções daqueles que, por um lado, buscavam defender o interesse do grupo familiar taiwanês e, por outro, a determinação de preservar direitos individuais do menino, relacionados a sua identidade cultural e vínculos afetivos mais íntimos, com a avó materna brasileira.

Nessa perspectiva, durante os três anos do processo judicial, era necessário, a título de reforço da defesa dos interesses da família brasileira, criar situações que demonstrassem, à família e à sociedade taiwanesa que permanecia o interesse, no Brasil, pelo caso do menino. Dessa forma, seria possível evidenciar que, ao contrário do que os tios taiwaneses procuravam demonstrar, Iruan continuava ligado a sua identidade cultural brasileira e com lembranças vivas da avó materna.                          

Em 12 de fevereiro de 2004, quando cheguei a Porto Alegre, no Sul do Brasil, e entreguei o menino de volta a sua avó gaúcha, encerrou-se processo de quase três anos, enquanto a sociedade taiwanesa travou um debate interno sobre se desejava, diante do caso do menino, aparecer como moderna, respeitadora de suas próprias leis e de direitos humanos internacionalmente reconhecidos ou se preferiria aderir a tradições em descompasso com valores que caracterizam um mundo globalizado, onde o indivíduo é cada vez mais respeitado em todas as dimensões de sua identidade cultural.

Durante o processo de negociação cultural, na assistência consular para o retorno de Iruan, tive em mente que, no Brasil, em comparação com certas nações cuja história é carregada de fortes nacionalismos, temos recebido bem pessoas de diferentes raças e culturas e aceito, com naturalidade, suas distintas formas de ser.A nossa capacidade “antropofágica” é, sem dúvida, um orgulho nacional.

Conclusão                    

“Crise e oportunidade” (esta sempre para eles) versus “antropofagia cultural” resumiria, de forma simplificada, a disputa entre o “jeito chinês” e a “maneira brasileira de ser”. Cabe ao negociador brasileiro lembrar, sempre, diferenças que existem entre as duas culturas.

  No livro “Iruan nas Reinações Asiáticas” (já citado), procurei descrever o processo de negociação cultural que desenvolvi, a título de assistência consular ao menino gaúcho, entre 2001 e 2004, quando pude colocar em prática alguns dos ensinamentos obtidos, através da observação e estudo, por exemplo, das formas de interlocução desenvolvidas entre Pequim e Taipé, para a reunificação da ilha de Taiwan.

Sabia, portanto, que um negociador chinês, com frequência, utilizará palavras de seu interlocutor para encurralá-lo em determinada posição ou levá-lo a concessões. Assim, mantive a determinação de que a “cena de partida”, com respeito ao caso Iruan, era o fato de que a retenção do menino brasileiro naquela ilha era ilegal e uma violação de direitos básicos de uma criança. Repeti esse princípio durante todo o processo.

Ao levar em conta o princípio de que não se deve forçar o interlocutor a “perder a face” (uma espécie de manter as aparências), durante o processo de assistência consular, sempre exaltei o cuidado e carinho com que a família taiwanesa cuidava do menino. Em reciprocidade, garantia o direito de esperar um comportamento adequado do clã local, no momento da entrega do garoto.

Ainda em consideração ao conceito chinês de “face”, tinha a preocupação de reiterar a confiança de que, em Taiwan, existe “respeito à lei e à ordem”, isto é, deixava claro que não poderia aceitar nada menos do que o cumprimento da decisão judicial, uma vez terminado o processo. Em contrapartida, tanto a família quanto as autoridades taiwanesas concediam-me tratamento de respeito – mesmo não havendo relações diplomáticas, nem consulares. Deixavam claro, assim, que esperavam de mim um comportamento dentro dos parâmetros vigentes para a atuação de um representante estrangeiro, sem interferência nos assuntos internos da sociedade que o recebe.

Em suma, é necessário, em qualquer negociação, seja cultural, política ou comercial, com o “universo chinês”, ter a expectativa de que, por um lado, o processo de tomada de decisão da parte deles será lento, truncado, cheio de atalhos ou prorrogações, passando por sucessivos consensos, até que se chegue a um acordo final. Por outro, uma vez tendo eles tomado uma decisão, passam a exigir providências precisas e imediatas. Cabe entender esse tipo de comportamento, repetir suas próprias posições de princípio e ter paciência. Eu a tive, por três anos, até conseguir trazer o guri de volta ao Rio Grande do Sul.


[1] A crise pode ser uma oportunidade. Em chinês, os dois mesmos caracteres representam “crise” e “oportunidade”. A coincidência é muitas vezes invocada em palestras e textos motivacionais , com o objetivo de difundir que , num momento desfavorável, teremos sempre a chance de escolher: ou renascemos ou nos afundamos nela.

[2] “Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.  Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question.  Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.”

(Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, que indica o caminho brasileiro sempre amigável de aceitar o que nos é estranho sem deixar de transformá-lo em algo mais próximo de nossa personalidade.)

[3] Cabral, Severino. O Brasil e a China. Relações de cooperação no século XXI. Macau. Instituto Internacional de Macau, 2005.

[4] Vide, a respeito de experiência de negociação cultural com o “universo chinês”, a conclusão do livro “Iruan nas Reinações Asiáticas”, por Paulo A. Pereira Pinto, editora AGE, RS, em 2004.

Diplomata.  Chefe do Escritório de Representação do MRE no Rio Grande do Sul. Serviu, anteriormente, como Embaixador em Baku, Azerbaijão, entre 2009 e 2012 e Cônsul-Geral em Mumbai, entre 2006 e 2009 e, a partir  de 1982, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores (papinto2006@gmail.com).

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