Um balanço sobre os dez anos de início da Guerra do Iraque, por Fransllyn Sellynghton Silva do Nascimento e Elói Martins Senhoras

A invasão liderada pelos Estados Unidos numa coalizão contra o Iraque em 2003 trata-se de elementos basilares na construção da história de curta duração das relações internacionais, o qual completa dez anos, após a apresentação de suposições por parte um grupo de assessores do presidente George W. Bush sobre a existência de possíveis armas de destruição massiva em território Iraquiano.

O conflito trouxe relevantes lições para a compreensão de que a formulação e execução das políticas públicas não obedecem a uma linha necessariamente racional, mesmo em um país como os Estados Unidos, motivo pelo qual a Guerra do Iraque, que iniciou sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU, obteve êxito na invasão, com uma rápida derrubada do presidente Saddam Hussein em três semanas, porém, fracasso na estabilização e déficit democrático após dez anos de contínua intervenção.

Segundo a ótica horizontal, a análise da evolução da Guerra do Iraque foi de um conflito sem fim, pois nas ruas do país, desde a invasão, houve um crescente recrudescimento da violência e da incerteza em razão da política de state building nunca ter se consolidado plenamente devido às especificidades existentes na região..

A Guerra do Iraque trouxe consigo uma quebra de um equilíbrio social existente pelo autoritarismo do presidente Saddam Hussein, o que repercutiu no ressurgimento da intolerância religiosa, em um país majoritariamente muçulmano, porém, radicalmente separado entre as vertentes sunita e xiita, além de contar com presença histórica de minorias como curdos, católicos ou mesmo judeus (Brandão, 2012).

Conforme declarações do político, ex primeiro ministro, “Ayad Alaui”, que governou provisoriamente o Iraque entre junho de 2004 e maio de 2005, a situação precária de evolução do Iraque entre 2003 e 2013 se deve, tanto, ao legado do governo ditatorial precedente, quanto, aos erros na ocupação da coalizão internacional comandada pelos Estados Unidos, já que as instituições estatais passaram a ser cindidas pelo sectarismo religioso (ALAUI, 2013).

Segundo a ótica vertical, dos países membros da coalizão liderada pelos Estados Unidos, a Guerra do Iraque possa ser analisada sob uma perspectiva lógica e seqüencial de evolução em três fases, desde o anúncio da invasão feito pelo ex-presidente Bush, passando pelo período de captura e enforcamento de Saddam Hussein, bem como de declaração de independência após as primeiras eleições depois da invasão, até se chegar à fase de retirada das tropas feita pelo presidente Obama ao longo dos anos de sua primeira gestão.

Motivado pela doutrina de “guerra ao terror”, após os atentados de 11 de Setembro de 2001, o governo Bush invadiu o Iraque junto a uma coalizão internacional que derrubou o presidente Saddam Hussein e que procurou ao longo dos anos unificar e estabilizar o Iraque, o que repercutiu em uma péssima imagem para os Estados Unidos no mundo e deteriorou a saúde da economia, com a estruturação de um déficit gêmeo.

Os principais problemas de desgaste dos Estados Unidos aconteceram frente à inexistência de armas de destruição em massa no Iraque, aos custos econômicos, ao número de feridos e baixas humanas da guerra para ambos os lados, aos escândalos com firmas segurança privada, como Blackwater, bem como à estruturação de grupos insurgentes e de milicianos, o que conduziu a uma guerra civil que desestruturou os arranjos políticos e étnicos, repercutindo na fuga de 15% da população para países vizinhos, com quase 4 milhões de refugiados iraquianos.

Diante do prolongamento da Guerra do Iraque (2003-2011) e os custos humanos, políticos e econômicos envolvidos ao longo de oito anos de operação estadunidense em solo estrangeiro, muitas analogias comparativas surgiram quanto à contestação da capacidade hegemônica americana, tal como acontecera na Guerra do Vietnã (1964-1975), frente à questões econômicos e políticos que se estruturaram.

Embora a Guerra do Vietnã tenha produzido mais de 3 vezes mais mortes que a Guerra do Iraque, ambos os episódios bélicos trouxeram, tanto, repercussões econômicas, , com a quebra do Regime Monetário de Bretton Woods (1971) e as crises imobiliária (2007) e financeira (2008), quanto, repercussões políticas, no modo de produção da guerra devido às pressões da opinião pública estadunidense, no primeiro caso, com a formação de forças armadas profissionalizadas, e, no segundo, com a privatização da guerra diante da difusão de empresas de segurança, remontando os tempos de contratação de mercenários.

Destarte, a impopularidade de Bush, devido às Guerras do Iraque e do Afeganistão e às crises econômicas que se estabeleceu em 2007 com a quebra do mercado imobiliário e em 2008 com a quebra de bancos de investimento, foi o combustível para dinamitar as chances do candidato republicano à presidência, John McCain, frente ao prestígio e agenda de retirada de tropas, trazidos candidato democrata, Barack Obama, que ganharia a eleição presidencial 2008, e, o prêmio Nobel da Paz em 2009.

A vitória do presidente Barack Obama na eleição presidencial de 2008 aconteceu em longa medida em razão da reviravolta popular sentida por milhões de norte-americanos em função, tanto, das guerras do século XXI lançadas pela administração Bush no Afeganistão e no Iraque, quanto, pela doutrina de combate ao terror que afirmava a perspectiva neoconservadora do direito do imperialismo dos EUA de se engajar em guerras contra qualquer país que seja percebido como uma ameaça potencial, segundo o princípio da “guerra preventiva” (VAN AUKEN, 2011).

Conforme Nasser (2013), a vitória presidencial de Obama alterou o discurso sobre a guerra, porém, em nada alterou a configuração material da política contra o terror no Iraque, iniciada por Bush, haja vista o padrão de continuidade existente em que o poder legislativo continuou abdicando de suas responsabilidades políticas ao compartilhar concordância com a condução da guerra pelo poder executivo.

Do ponto de vista do setor público, com uma crescente retirada de tropas ao longo dos anos na primeira gestão do governo Obama, e, em corrida eleitoral para seu segundo mandado, o presidente declarou o fim da Guerra do Iraque em 11 de Dezembro de 2011, encerrando um legado político negativo para o governo que veio desde o governo Bush, com gastos de cerca de 4 trilhões de dólares, que viriam a corroborar diretamente em um aumento da dívida pública.

Do ponto de vista do setor privado, a Guerra do Iraque trouxe um saldo extremamente positivo para o complexo industrial bélico-militar, os serviços de segurança privada e para as empresas de construção civil de reconstrução de infraestrutura, bem como, a própria indústria petrolífera, que passou por período de pico nos preços, um aumento do preço do barril de petróleo em quase quatro vezes entre 2003 e 2011.

A Guerra do Iraque tem sido interpretada por muitos especialistas como um grande equívoco internacional, encabeçado pelos Estados Unidos, justamente por ter sido premeditado pelo lobby das indústrias militar e energética, representado pelo vice-presidente Richard Bruce “Dick” Cheney e pelo próprio presidente George W. Bush, haja vista que no ano de 2002, quando as tropas americanas estavam no Kuwait, o governo iraquiano, sob a presidência de Saddam Hussein, permitira a entrada de inspetores da ONU em território nacional, os quais evidenciaram a inexistência de armas de destruição massiva, mas mesmo assim, este fato não foi suficiente para impedir a invasão (BLIX, 2009).

Na véspera do aniversário de dez anos da invasão que repercutiu na prolongada Guerra do Iraque, entre 2003 e 2011, a rede terrorista Al Qaeda promoveu uma onda de explosões e ataques suicidas que matou cerca de 60 pessoas e que deixou 180 feridos no Iraque, demonstrando que os problemas neste país se avolumaram desde a intervenção estadunidense, com 120 mil civis mortos de um total de 174 mil pessoas mortas; significativo aumento da violência e do número de refugiados, além de uma ampla maioria da população dependente de ajuda humanitária.

Conclui-se, com base nestas discussões, que o balanço sobre os dez anos de início da Guerra do Iraque é claramente negativo frente aos ganhos e perdas evidenciados pelas partes envolvidas no assunto, uma vez que as políticas de poder duro estabelecidas pelos neoconservadores estadunidenses em 2003 trouxeram ganhos a um pequeno grupo de empresas privadas vis-à-vis à perdas e aos problemas sociais e políticos que repercutiram na construção de um Estado democrático desbalanceado no Iraque, com problemas políticos, instituições débeis e conflitos étnicos e econômicos.

Referências bibliográficas

ALAUI, A. (2013). “La comunidad internacional tiene uma responsabilidade moral com Irak”. El País, Março. Disponível em: <www.internacional.elpais.com>. Acesso em 08/04/2013.

BLIX, H. (2009). “Invasão do Iraque sem autorização da ONU foi um erro”. Jornal O Estado de São Paulo, 20 de Dezembro. Disponível em: <www.estadao.com.br>. Acesso em 10/04/2013.

BRANDÃO, G. A. (2012). “Guerra no Iraque: princípio e meio, sem fim”. Mundorama, n. 53, Janeiro, 2012. Disponível em <www.mundorama.net>. Acesso em 13/04/2013.

NASSER, R. M. (2013).Iraque dez anos depois: a guerra é um grande negócio!”. Opera Mundi, 25 de Março. Disponível em: <www.operamundi.uol.com.br>. Acesso em 30/03/2013.

VAN AUKEN, B. (2011). “Washington’s endless wars”. World Socialist Web Site, June, 12th. Disponível em <www.wsws.org> Acesso em: 12/06/2011.

Fransllyn Sellynghton Silva do Nascimento é graduando em Relações Internacionais e pesquisador do Núcleo Amazônico de Pesquisa em Relações Internacionais –  NAPRI pela Universidade Federal de Roraima – UFRR (linghton@hotmail.com).
Elói Martins Senhoras é economista e cientista político, especialista, mestre, doutor e pós-doutorando em Ciências Jurídicas. É professor universitário em cursos de graduação e pós-graduação da Universidade Federal de Roraima – UFRR (eloisenhoras@gmail.com).
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