O que (não) aprendemos sobre a Rússia no caso “Pussy Riot”, por Fabiano Mielniczuk

Há aproximadamente um ano, a banda Pussy Riot realizou uma performance anti-Putin no altar da Catedral do Cristo Salvador, em Moscou, e algumas de suas integrantes foram acusadas de Hooliganismo. Em agosto de 2012, elas foram condenadas a dois anos de prisão, e a sentença foi recebida pela imprensa ocidental como prova do autoritarismo do Estado russo e, para muitos analistas, de uma nova aliança entre o Estado e a Igreja Ortodoxa, a qual serviria para dar legitimidade ao exercício de poder por parte de Putin. As integrantes do grupo foram descritas, ainda, como jovens charmosas, inteligentes e defensoras das liberdades individuais que estariam pagando o preço por terem manifestado suas opiniões contrárias ao presidente.

A despeito das críticas à centralização de poder protagonizada por Putin após o período de descalabro do governo Ieltsin, análises dessa natureza contribuem pouco para a melhor compreensão do que ocorre na Rússia. A imprensa ocidental continua padecendo de uma doença muito comum no pós-guerra fria, a saber, a reprodução de estereótipos aplicados à União Soviética no tratamento do país. O caso da banda Pussy Riot expõe a doença de modo drástico e pode ser interpretado de forma completamente diferente quando velhos pressupostos da Guerra fria são abandonados.

A banda Pussy Riot foi criada por algumas integrantes do coletivo “Voina”, que significa Guerra, em Russo, e que se notabilizou por realizar intervenções artísticas polêmicas nas principais cidades da Federação. Entre elas, as mais conhecidas foram a prática de sexo grupal no Museu de Biologia de Moscou, como forma de protesto à eleição de presidente Medvedev, em fevereiro de 2008, e o desenho de um pênis gigante em uma ponte móvel de São Petersburgo, localizada em frente à sede do serviço de segurança da Federação Russa, em junho de 2010. Uma das participantes da performance no museu de biologia foi Nadya Tolokno, que participou do sexo grupal mesmo estando grávida de 9 meses (de fato, a criança veio ao mundo quatro dias depois). Nádia é uma das integrantes charmosas e inteligentes – segundo a descrição da imprensa ocidental – do grupo Pussy Riot.

O que interessa aqui não é a discussão sobre a validade ou não, em termos estéticos, das manifestações de grupos artísticos com tendências anarquistas ou punks. Afinal, gosto não se discute e cada um faz com o seu corpo o que bem entender. Eu, por exemplo, considero Brody Dale – ex-vocalista do Distillers e ex-companheira de Tim Armstrong, guitarrista do saudoso Operation Ivy e vocalista do Rancid – uma das mulheres mais bonitas do meio artístico, sem mencionar que seu timbre de voz massageia meus ouvidos quando quero relaxar.  A questão-chave reside no modo como grupos punk ou coletivos de arte com inclinações anarquistas são vistos pela população e tratados pela mídia quando atuam no Ocidente e como são tratados por essa mesma mídia quando atuam na Rússia.

No Ocidente, manifestações artísticas de grupos punk são negligenciadas pelos principais órgãos da mídia ocidental, seja por que a maioria de seus editores não as considera como “arte,” seja por que as letras de suas músicas, ou o rife de suas guitarras, são uma afronta aos interesses dos anunciantes que financiam a indústria da comunicação. Em suas turnês, muitas bandas punks ocidentais retratam serem constantes os atrasos em aeroportos devido a revistas minuciosas e até mesmo a interrogatórios em salas reservadas em função da ameaça que representam aos valores da sociedade – sem que isso seja tratado pela imprensa como um desrespeito aos seus direitos. Em termos estéticos, o figurino punk-anarquista tem pouco apelo para além dos membros de uma cultura urbana muito específica. Em suma, os punks do Ocidente não são descritos como charmosos e inteligentes pela mídia ocidental, pois o que eles representam é anátema à sociedade de consumo capitalista.

Na Rússia, entretanto, os punks são retratados pela imprensa ocidental como portadores de valores universais do liberalismo, apesar do desconforto que isso possa causar aos admiradores do Sex Pistols, acostumados a chamar o regime político da Inglaterra de fascista. Alem disso, uma outra incongruência salta aos olhos: em nenhum momento a cobertura ocidental relatou que a maioria da população russa apoiara a decisão da justiça – algo que seria natural, pois grupos de vanguarda dessa natureza tendem a ser malvistos pela classe média e pelos setores mais conservadores da sociedade. E, obviamente, como ocorre no Ocidente, as sociedades se protegem contra manifestações que vão de encontro a seus valores, ou que ameaçam a ordem ao pôr em risco grupos específicos, como aqueles que compartilham a mesma fé religiosa ou filiação política. Nesse sentido, a lei contra hooliganismo na Rússia, utilizada para enquadrar as integrantes do Pussy Riot, não deixa de encontrar suas similares em outros países ocidentais.

É aqui que reside o erro da cobertura ocidental. Seja por falta de sensibilidade histórica ou por desinteresse, a importância da lei anti-hooliganismo não foi apreciada corretamente. A lei é uma herança soviética, e promete punição para aqueles que atacarem os valores da sociedade russa. Todavia, no primeiro mandato de Putin, a lei foi alterada, as penas ficaram mais severas e passaram a ser aplicadas a ações motivadas por ódio contra grupos políticos, religiosos, raciais e étnicos. Se, por um lado, podem ocorrer disputas a respeito do caráter religioso da manifestação do Pussy Riot, por outro a lei representou um claro avanço no sentido de criar os mecanismos necessários para que grupos minoritários sejam protegidos. Por exemplo, a aparente contradição em punir o Pussy Riot e não punir grupos homofóbicos que ganham cada vez mais legitimidade junto à sociedade russa deveria ser denunciada. Mas isso não é possível, porque seria necessário reconhecer os méritos de uma inovação legal que tem como autor Putin, líder retratado como autoritário pelo Ocidente, fonte de todo mal, etc…

Em resumo, se quisermos entender o que o caso do Pussy Riot nos ensina  a respeito da situação política da Federação Russa nos dias atuais, temos de nos livrar da tendência simplista de reproduzir estereótipos herdados da guerra fria – sobre a Rússia ser ruim e o Ocidente bom, e refletirmos sobre os interesses que estão por trás das narrativas ocidentais sobre o caso.

Fabiano Mielniczuk é Professor de Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – IRI/PUC-Rio (fpmiel@gmail.com).

Print Friendly, PDF & Email

2 Comentários em O que (não) aprendemos sobre a Rússia no caso “Pussy Riot”, por Fabiano Mielniczuk

  1. acabei de ler esse artigo e ontem vi o documentário sobre o pussy riot. não tenho muitas informações sobre as questões da rússia e concordo com a hipocrisia da imprensa ocidental no que tange à questão de uma valorização da contra cultura que está distante e “esquecimento” daquelxs que estão próximo. no entanto, faço apenas uma ressalva tendo apenas o vídeo como base (e caso fosse possível gostaria de pedir outras fontes de esclarecimento): não é apenas a imprensa ocidental que retrata o putin como autoritário, mas os movimentos que ocorreram na rússia em decorrência da prisão das minas do pussy riot mostra que existe sim uma grande parte da população que apoia a decisão de prendê-las, e, no entanto, existe um movimento grande de repudio a esse autoritarismo do governo, inclusive tomando como base a própria banda pussy riot.

  2. só pra retificar meu comentário ali: eu não concordo com a hipocrisia da imprensa, mas concordo sim com a afirmação de que há hipocrisia da imprensa ocidental em tratar do assunto.

Top