As eleições de 2012 e o panorama das tensões regionais no Leste Asiático, por Lucas Kerr Oliveira, Pedro Vinícius Pereira Brites & Rômulo Barizon Pit

A recente viagem do ex-Primeiro Ministro japonês, Yukio Hatoyama, à China representou uma importante iniciativa do principal partido de oposição do Japão de evitar um maior recrudescimento das relações sino-japonesas. Hatoyama reconheceu publicamente a existência da disputa entre China e Japão pelas ilhas Diaoyu/Senkaku (negada oficialmente pelo governo japonês), e foi além, ao pedir desculpas pelos crimes de guerra cometidos pelo Japão na II Guerra Mundial (ZHANG, 2013). Desde 2012, especialmente, as disputas sobre o controle das ilhas dificultaram a concertação regional que vinha se aprofundando na última década.

Esta disputa se insere no panorama de mudanças políticas do Leste Asiático, marcado pelos processos eleitorais nacionais, na China, Coreia do Sul e Japão. Esses processos eleitorais resultaram na ascensão ao poder de partidos e facções conservadoras, acrescido da redução da estabilidade regional derivada dos testes balísticos e nucleares na península coreana. A vitória do conservadorismo nesses países sugere o acirramento do modelo de competição no plano regional, em detrimento dos esforços de integração proposto pelos grupos progressistas destes países. Porém, a interdependência econômica profunda que une os três países não sugere que venha a ocorrer uma modificação abrupta na política regional asiática (LEÓN-MANRÍQUEZ, 2012).

Analisando o caso da Coreia do Sul, nota-se que a vitória da candidata Park Geun-hye, do partido Saenuri (mesmo partido do ex-presidente Lee Myung-Bak), reforça a tendência de manutenção da política externa pendular para o Leste Asiático. Essa política pendular, que oscila entre momentos de concertação e de acirramento com os demais vizinhos pode ser entendida como uma política de barganha diplomática. Embora o país tenha participado da evolução dos arranjos institucionais regionais, tem evitado aprofundar os laços integracionistas, temendo ficar em uma situação econômica desfavorável. Por outro lado, a questão da Coreia do Norte, que recentemente, realizou mais um teste nuclear, continua sendo o cerne da estabilidade regional. Principalmente porque ao contrário das expectativas do governo sul-coreano, o regime norte-coreano manteve-se firme após a morte de Kim Jong-Il, e, não parece caminhar para nenhum tipo de colapso (VISENTINI, 2012).

No Japão, o Partido Liberal Democrático (PLD), retornou ao poder após um interregno de cerca de quatro anos em que o Partido Democrático do Japão (PDJ) inicialmente liderado por Hatoyama esteve no poder. O Primeiro-Ministro Yukio Hatoyama foi eleito com uma plataforma de defesa da distribuição de renda, de aproximação com os vizinhos asiáticos e, especialmente, de maior autonomia na Política Externa frente aos Estados Unidos. Após fracassar no intento de remover a base estadunidense de Futenma em Okinawa, Hatoyama renunciou ao cargo de Primeiro-Ministro, em 2010, visando preservar seu projeto político progressista. Entretanto, após o desastre nuclear de Fukushima, seu partido se enfraqueceu enormemente e acabou perdendo membros, com alguns, inclusive, migrando para o PLD.

Aproveitando-se dessa situação e das tensões com a China envolvendo as ilhas Senkaku/Diaoyu, o PLD adotou uma retórica mais extremada, utilizando-se de um discurso em tom nacionalista, que acabou por conduzir Shinzō Abe (PLD) ao cargo de Primeiro-Ministro. Os liberal-conservadores têm alimentado as rivalidades históricas com a China, para aumentar sua legitimidade interna, ao instrumentalizar a disputa das ilhas e minar a linha de diálogo entre os dois países. Em dezembro de 2012, nas eleições para a Câmara Baixa do Legislativo japonês, o PLD conseguiu ampla maioria, com 294 assentos de 480 cadeiras. Em uma coalização com o Partido Novo Kōmeitō, o PLD terá dois terços dos votos, suficiente para vetar decisões da Câmara Alta (Câmara dos Conselheiros), onde o PDJ ainda possui força. Com apenas 57 assentos na Câmara Baixa, o PDJ fica com apenas 3 cadeiras a mais do que o recém-criado Partido da Restauração Nacional (PRN), de cunho nacionalista radical. Essa mudança na política interna levou a um acirramento da animosidade com os vizinhos, especialmente, com a China.

Na China, por sua vez, o governo social-progressista de Hu Jintao, da ala da Juventude do Partido Comunista, foi substituído pelo representante da facção conservadora do PCCh, Xi Jinping, ligado ao Grupo de Xangai. Logo após sua posse, o Secretário Geral Xi Jinping, defendeu a continuação do modelo mais liberal de crescimento (voltado para as exportações), defendido pela facção de Xangai. Esta abordagem se contrapõe às diretrizes de interiorização do desenvolvimento, que Hu Jintao tentou implementar juntamente aos esforços integracionistas de seu governo. O projeto integracionista regional de Hu Jintao visava aumentar a criação de laços institucionais com os vizinhos do leste asiático, em detrimento de uma abordagem competitiva. Assim, é de se esperar que Xi Jinping endureça o discurso frente aos vizinhos, o que não implica, necessariamente, em ações concretas em direção a um rompimento maior.

Os próximos meses serão decisivos para o futuro da concertação regional. A viagem de Hatoyama talvez tenha sido o último apelo para evitar que as relações se deteriorem significativamente. Os grupos conservadores agora no poder tendem a intensificar sua busca por uma hegemonia regional exclusivista. A questão que se impõe é, em que medida, o processo de integração vai ser atrasado. Nesse sentido, um indicador relevante parece ser o fluxo de comércio e investimentos entre os três países e, sobretudo, o padrão de resolução de conflitos que prevalecerá nas disputas marítimas. A evolução da integração regional no Leste Asiático poder ser considerada como sendo um processo histórico de longa duração, que apesar de oscilações entre períodos de maiores avanços ou estagnação, vem se consolidando lentamente. Ou seja, é muito pouco provável que todos os esforços integracionistas sejam destruídos. Porém, dada a conjuntura atual, não é descartável uma escalada do tensionamento regional que comprometa as relações dos países, ao menos temporariamente.

Lucas Kerr Oliveira é Doutor em Ciência Política e Mestre em Relações Internacionais pela UFRGS, Professor nos cursos de Relações Internacionais da Uniritter e Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM, Diretor de Pesquisas do Instituto Sul-Americano de Estratégia e Política – ISAPE  (lucaskerr@yahoo.com.br).

Pedro Vinícius Pereira Brites, é Mestrando em Estudos Estratégicos Internacionais e Bacharel em Relações Internacionais pela UFRGS, bolsista da CAPES.

Rômulo Barizon Pitt, é Mestrando em Estudos Estratégicos Internacionais e Bacharel em Relações Internacionais pela UFRGS, bolsista da CAPES, e Diretor de Projetos do ISAPE.

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