Liderança e desenvolvimento: um enigma para o governo da China, por Thaís Moretz Sohn Fernandes

Com vistas a compreender o surpreendente processo de desenvolvimento da China, diversos especialistas têm se motivado a estudar as origens e implicações da ascensão econômica e internacional chinesa. Para muitos, foi na década de 1970, durante o governo de Deng Xiaoping, que essa ascensão começou. Fatores externos, como o fim da Guerra Fria, também contribuíram para que a China se lançasse como potência. Contudo, a capacidade chinesa em ser referência em termos de desenvolvimento e de projeção de poder ainda é imperfeita. Os desafios para torná-la uma liderança mais ampla se impõem como uma esfinge para o atual Partido Comunista.

Em Sobre a China, Kissinger ressalta a grandeza de Deng Xiaoping ao rejeitar a ortodoxia maoísta e implementar uma economia mais moderna, que, diferentemente dos planos quinquenais tradicionais, que enfatizavam a indústria pesada, passasse a favorecer a renovação, a tecnologia, a indústria de bens de consumo e, acima de tudo, metas reais, capazes de integrar o povo na execução dos objetivos e fazer do governo um comando menos opressor e mais moderno (KISSINGER, 2012).

A importância do governo de Deng é também enfatizada por Danielly Becard. Segundo a autora, foi esse governo que propiciou a maior projeção internacional e atratividade da China, por meio de reformas pragmáticas que abrandaram a ideologia exacerbada da era Mao e passaram a enfatizar questões como segurança e desenvolvimento, em vez de culto à personalidade e ao partido, o que fez com que o sistema socialista deixasse de ser um obstáculo à modernização econômica e à maior projeção da China no cenário internacional. Por meio de uma coexistência pacífica, a China foi diversificando suas parcerias e sua atuação em escala global, despontando como um mercado atrativo (BECARD, 2006).

Altemani, contudo, sem discordar da importância de Deng na ascensão chinesa, ressalta que, na realidade, ao implementar as reformas modernizadoras, a intenção principal de Deng não era guiar a China à condição de potência econômica, mas, sobretudo, promover reformas diretamente ligadas à necessidade de defender a soberania, legitimar o governo do Partido Comunista e garantir a unidade nacional, numa época em que a China enfrentava dificuldades e precisava de uma resposta que revertesse em benefício à população e assegurasse a sobrevivência integral da República Popular da China e do Partido Comunista Chinês (ALTEMANI, 2012).

Nota-se, ainda, que a ascensão chinesa foi favorecida por outros fatores, como a própria conjuntura internacional do pós-Guerra Fria, que alterou a configuração bipolar de poder e permitiu a projeção de outros atores, principalmente aqueles que se tornaram atrativos para os padrões industriais produtivos pós-modernos, oferecendo escala e competitividade. Com as inovações nas telecomunicações e transportes, que reduziram drasticamente os custos das transações comerciais e investimentos, mercados distantes, como a China, com seus baixos custos de produção, passaram a ser ainda mais atraentes.

No que concerne à projeção de poder, porém, o país ainda não é capaz de rivalizar com os norte-americanos, nem com outras potências europeias. Apesar de ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, desde 1945, e ter a posse de muitos ativos militares e estratégicos, a China não é abundante no que Nye denomina de soft power – o poder brando, que é exercido na arte de fazer os outros cooperarem por meio do diálogo e da negociação, e, acima de tudo, ser um exemplo em termos de valores que o país representa, como o mercado, o entretenimento, o sistema político, jurídico etc (NYE, 2002).

Assim, a China tem muitos desafios para ser classificada como um país desenvolvido e se tornar referência mundial em termos de desenvolvimento e projeção de poder. Para Kofi Annan, “um país desenvolvido é aquele que permite que todos os seus cidadãos usufruam de uma vida livre e saudável em um ambiente seguro” (ANNAN, 2000).

Segundo a base de dados da divisão de estatísticas da ONU, não existe uma classificação absoluta para países desenvolvidos e em desenvolvimento, mas apenas padrões de agrupamento para fins estatísticos (UNCTAD, 2011), os quais além de ponderar o desempenho macroeconômico dos Estados, consideram, também, indicadores sociais, como saúde e educação.

Outras terminologias, como “emergentes” e “terceiro mundo”, também podem ser encontradas na literatura, bem como outras classificações, como as do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, que, embora utilizem critérios um pouco diferentes em seus relatórios, também não incluem a China no seleto grupo principal, mas somente em posições intermediárias. Ressalta-se, ainda, que a China não faz parte da OCDE e nem do G-7, que são grupos restritos para economias desenvolvidas.

Assim, a necessidade de aprimorar a economia e conciliar o desenvolvimento econômico com o desenvolvimento social desponta como requisito primordial para que a China ascenda por completo e seja classificada como desenvolvida. Igualmente, para se tornar referência mundial em termos de cultura e sociedade, é preciso realizar reformas que coloquem o país na trilha da democracia, da justiça e o livre da corrupção.

Nesse sentido, o novo Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês e futuro presidente do país, Xi Jinping, em seu discurso de posse, mencionou que emprego, moradia, saúde, seguridade social e meio ambiente são preocupações básicas da população e do governo, juntamente com o combate à corrupção.  Esses mesmos itens, dias antes, haviam sido mencionados como prioritários pelo Presidente Hu Jintao na abertura do 18° Congresso Nacional do Partido Comunista, que ressaltou que o desenvolvimento seguirá sendo a tarefa central para o governo.

É necessário ponderar se, ao modo Deng Xiaoping, o atual governo está, de fato, empenhado em realizar reformas estruturais concretas com o fim de conduzir o país à condição de líder mundial ou se, no sentido do alerta feito por Altemani, o governo está, na realidade, empenhado em se perpetuar no poder e evitar que as mudanças estruturais na sociedade chinesa minem a sobrevivência e proeminência do Partido Comunista Chinês e a autonomia e unidade da República Popular da China.

Conclui-se, assim, que há inúmeras imperfeições no desenvolvimento chinês. O governo tem sinalizado a intenção de reformar a sociedade e de aprimorar a distribuição de renda e outros indicadores, que atualmente impedem a China de se tornar um país desenvolvido. Se a China quiser, porém, obter esse status e se tornar líder mundial, em sentido mais amplo, terá que reformar, também, sua estrutura política e jurídica. Resta saber se o atual governo estará empenhado em colocar a China nessa trilha de progresso e liderança ou se, do contrário, preferirá garantir sua permanência no poder e a proeminência do Partido Comunista.

Referências

  • ALTEMANI, Henrique (2012). O. Brasil e China: cooperação Sul-Sul e parceria estratégica. Belo Horizonte: Fino Traço, 2012.
  • ANNAN, K (2000). The Millennium Report, 2000. Disponível em www.un.org/millennium. Acesso em outubro, 2012.
  • BECCARD, Danielly Ramos (2006). O Brasil e a República Popular da China: Política Externa Comparada e Relações Bilaterais (1974-2004), 2006. Disponível em: http://repositorio.bce.unb.br/handle/10482/4964. Acesso em: novembro, 2012.
  • KISSINGER, Henry (2011). Sobre a China. Editora Objetiva, 2011.
  • NYE, Joseph S (2002). O Paradoxo do Poder Norte-Americano. São Paulo, Editora Unesp, 2002.
  • UNCTAD, UNCTAD Handbook of Statistics, 2011. Disponível em: http://archive.unctad.org. Acesso em novembro, 2012.

Thaís Moretz-Sohn Fernandes possui graduação em Administração de Empresas com ênfase em Comércio Exterior pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduação em Direito Empresarial Internacional pela Fundação Armando Álvares Penteado. Atualmente, é gestora de negócios no departamento de Relações Internacionais da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil).

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