Fragilidade dentre gigantes: a desaceleração do crescimento dos BRICS frente à crise mundial, por Ricardo Prata Filho

A institucionalização dos BRICS enquanto bloco já remete a uma pouca coesão entre membros. O acrônimo, criado em 2001 por Jim O’Neill do grupo Goldman Sachs, tentou agrupar os países que, solidamente, mais cresciam no mundo e que tinham como promessa alavancar seu desenvolvimento ampliando a sua importância como atores no sistema internacional. Contudo, divergência em interesses, assim como em nichos de mercado,dá aos BRICS uma coordenação ainda tênue. A crise imobiliária em 2008 e a atual crise na Europa contribuíram para uma queda nos números de crescimento desses países, contrariando previsões passadas. Nesse sentido, o objetivo desta análise será expor os motivos desse declínio, construindo um cenário futuro para o bloco e sua esparsa atuação.

O transbordamento da crise mundial às dinâmicas dos BRICS vem ganhando cada vez mais força. O modelo pautado na venda de produtos às maiores potências globais se desgasta na medida em que essas unidades se veem imersas em um contexto de dívidas públicas crescentes e um aumento na taxa de desemprego, principalmente na Europa. O alto grau de dependência no preço dos produtos exportados compromete os ganhos, uma vez que com uma menor demanda por parte dos compradores, o valor agregado de commodities, serviços e produtos industrializados cai, emperrando o fluido crescimento anterior dos BRICS. Por esse motivo, com o efeito dos anos, o crescimento dos países emergentes foi se aproximando dos ditos “desenvolvidos”, marcando um nivelamento inesperado que faz transparecer a insuficiência dos primeiros sobre a força dos segundos.

O Brasil, enfrentando implicações da problemática supracitada na exportação de commodities agrícolas e minerais, usa o impulso governamental ao mercado interno como alternativa, tentando, por meio de isenção de impostos e incentivos ao crédito, manter a liquidez da economia. Entretanto, o processo de inchaço desse setor se transforma em uma barreira ao crescimento a médio e a longo prazo, já que a saturação desse modelo pode vir acompanhada de um aumento inflacionário e de uma conseguinte desestabilização interna. Ademais, a carência em investimentos à indústria e à produção de tecnologias seria resultado de uma política que passa a tomar medidas paliativas como solução definitiva para um caso que necessitaria de uma renovação da estrutura de desenvolvimento do país.

Analogamente, Índia, África do Sul e Rússia tentam, a partir do estímulo ao mercado e investimentos internos, contornar a crise e a desaceleração de suas economias. A Rússia, por depender da exportação de hidrocarbonetos, foi afetada de forma mais branda pela crise europeia. Entretanto, seus problemas políticos internos, como a corrupção,impedem que o seu crescimento seja fomentado de maneira efetiva, baseando-se em uma possível ampliação da produção. A Índia, puxada pelo setor de serviços, vem caindo cada vez mais, e avaliações de 2012 não veem com otimismo a situação enfrentada pelo país. Por sua vez, a África do Sul encontra-se bastante afetada pela crise no comércio de minérios principalmente, traduzindo a fragilidade de seu crescimento frente a grandes desestabilizações internacionais.

O caso chinês, por fim, não se mostra muito distante da realidade exposta. Apesar de se pautar pela exportação de produtos com maior valor agregado (a maioria deles industrializados de larga montagem), a matriz econômica da China constituiu-se no uso dos excedentes de produção, padrão o qual se faz extremamente vulnerável em momentos de crise como o atual. O incentivo ao mercado consumidor interno como saída ainda é bastante precário no país, uma vez que para sua população de 1,3 bilhões de pessoas, o poder de compra é muito pequeno e o fomento de tal se faz complicado e oneroso ao governo.Destarte, Índia e China, por terem populações monumentais, empregam esse excesso como forma de manutenção de uma mão-de-obra barata e atrativa para empresas, o que está intrinsecamente ligado a baixos salários e ao sustento dos seus respectivos esquemas de produção.

A ocasião de crise financeira em 2008, por não ter abalado significativamente os BRICS, criou a ideia de que o grupo seria o mais indicado para desafogar a situação global em um cenário de colapso das potências desenvolvidas. Entretanto, o arraste dessa situação até o momento, com a deflagração da crise na zona do euro, mostrou que tal entendimento é limitado, considerando problemas supracitados. Outrossim, a vontade expressa pelo grupo de ajudar as unidades em crise é ainda nebulosa. O discurso de apoio à Europa em setembro de 2011 na VI Reunião de Chanceleres em paralelo à 66ª AGNU se configura em um quadro deficitário e a cada dia mais complicado para o próprio bloco em questão.

O colapso das matrizes econômicas dos BRICS institui, dessa forma, o prazo de êxito de seu crescimento e desenvolvimento acelerado. Mudanças estruturais, pautando-se em uma diversificação produtiva aliada a incentivos a inovações, são necessárias para que haja fôlego e, na melhor das hipóteses, para que os níveis de expansão, mesmo que abaixo dos valores de 2008, voltem a aumentar. Ainda assim, a falta de coesão e cooperação eficiente dentro do bloco acaba por minar um desempenho conjunto, na retroalimentação de mercados dentro do próprio BRICS e na delimitação de outras soluções. Mesmo com o anúncio em junho desse ano da criação de um fundo coletivo de reservas para ajudá-los, inspirados pela situação europeia, o diálogo entre membros é insipiente e raso.

A perda paulatina de visibilidade por parte dos investidores somada ao surgimento de novos países com altos níveis de desenvolvimento econômico como México e Colômbia dificultaria a defesa de uma renovação política em grandes instituições internacionais, como forma de ampliar a representatividade dos BRICS no sistema internacional. Nesse sentido, uma ação voltada para dinâmicas internas faria com que sua força conjunta de atuação diminuísse. Ainda assim, a mudança da agenda do bloco seria eminente, considerando as mudanças também observadas no contexto internacional político e econômico, o que revela a incapacidade dos BRICS de encabeçarem um novo ordenamento global como muitas vezes acreditado por analistas no começo do século, ou mesmo de comandarem o crescimento mundial em momentos de crise.

Ricardo Prata Filho é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL, e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (ricoprata@gmail.com).

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