Eleições no Quebec 2012: O atentado na posse de Pauline Marois, por Silvana Aline Soares Simon

Nesta terça-feira, dia 04 de setembro, pela primeira na história do Quebec, uma mulher foi eleita Primeira Ministra da província canadense. A posse de Pauline Marois, do Partido Quebequense (PQ), foi marcada por um atentado provocado por um homem de 62 anos, que deixou um homem morto e outro ferido. As causas exatas do atentado ainda não foram reveladas, apesar de haver indícios de terem sido motivadas pela bandeira separatista norteadora do partido da nova Primeira Ministra. O atentado ocorreu logo após Marois afirmar, em seu discurso de posse, que: “J’ai la conviction que l’avenir du Québec, c’est de devenir un pays souverain”.

Este atentado despertou na memória dos quebequenses a lembrança do incidente ocorrido em 08 de maio de 1984, quando um ex-soldado canadense, Dénis Lortie, matou três pessoas e feriu treze, no interior da Assembleia Nacional do Quebec, no intento de destruir o PQ. Segundo a imprensa local, a tragédia de 04 de setembro leva à conclusão de que a soberania da Província quebequense será novamente engavetada, o que se reforça pelo fato de que Marois foi eleita com apoio minoritário.

A nova Primeira Ministra sucederá Jean Charest, do Partido Liberal do Quebec (PLQ). O Partido Quebequense venceu de forma minoritária, com 55 candidatos eleitos, somando 32% dos votos.  Para formar um governo de maioria, é necessário eleger 63 candidatos, o que é considerado um “número mágico”. A minoria no poder dificultará significativamente a votação das decisões na Câmara. O Partido teve votação significativa no leste da província, região predominantemente rural e de maioria franco-descendente.

Atrás do PQ figurou o Partido Liberal Quebense (PLQ), com 31% dos votos. Este partido se destacou nas votações das cidades de Laval, Montérégie. Os assentos que o PLQ garantiu nessas cidades são exemplos de assentos que o PQ necessitava para alcançar maioria. Isso consolida o papel oficial do PLQ como oposição do PQ no novo Governo. Em terceiro lugar, ficou A Coalizão Avenir Quebec (CAQ), com 27% do total dos votos. Apesar do desempenho não ter sido de destaque, os resultados foram considerados relativamente positivos por se tratar de um partido novo. O CAQ destacou-se na Cidade de Quebec e no centro da Província, conforme havia sido previsto pelas pesquisas eleitorais.

O sistema eleitoral da Província,tradicionalmente, caracterizava-se pelo bipatidarismo. Nos últimos anos, no entanto, verificou-se uma proliferação de partidos no Quebec. Hoje, a Província tem vinte partidos, sendo que dez foram criados nas eleições de 2008 e cinco, do total, estavam representados no parlamento até as últimas eleições. Para Eric Belanger, professor de Ciência Política na Universidade McGill, a emergência desses terceiros partidos é resultado da atuação de cidadãos críticos que perderam a confiança nos partidos estabelecidos. Um exemplo disso, para Belanger, é a criação, em 2006, do Partido Quebec Solidária, a partir da inconformação de alguns segmentos da sociedade com a política da Província, que tem como fundamento melhorar a gestão dos recursos públicos e criar um programa que vai pagar a dívida indústria em Quebec e aliviar a carga fiscal sobre os cidadãos.

O Partido Quebequense, por sua vez, foi fundado em 1968, com o objetivo principal de promover a independência do Quebec em relação ao Canadá, tornado a Província em um País soberano. O movimento separatista emergiu no Quebec como uma forma política na década de 1960, em um contexto de turbulência econômica e de intenso nacionalismo na Província. Antes da criação do PQ, já haviam sido criados o Movimento Esquedista para a Independência Nacional (RIN, sigla em francês) e a Frente para a Libertação do Quebec (FLN). A partir da década de 1970, após a criação do PQ, o apoio popular para a questão separatista aumentou e o partido conseguiu ganhar a maioria dos grupos políticos nacionalistas na província para o seu programa de independência política.

Neste período inicial, o movimento separatista do Quebec tinha apoio das novas clásses médias, sobretudo as relacionadas com as estruturas do Estado e cujas aspirações eram direcionadas para os setores de expansão burocrática sociedade. Hoje, seus principais apoiadores são membros das profissões liberais, como professores, administradores e especialistas em mídia, trabalhadores e estudantes, além dos cidadãos engajados nas questões sociais.

Membro do Partido Quebequese, a nova Primeira Ministra elegeu-se sob a bandeira do separatismo, focando-se em temas como a identidade quebequense, a prevalência da francofonia e a soberania da Província. Durante a sua posse, frisou a questão da independência, considerando que o Quebec deve ser uma nação deve ter autonomia para tomar as decisões que lhe dizem respeito. Em seu discurso, afirmou: “On veut um pays et nous l’aurons”. Aos quebequenses anglófonos, mencionou ela, em inglês, que não se preocupassem, pois seus direitos serão respeitados.

Além da questão separatista, Marois se comprometeu a política de identidade do Quebec, destinada ao reforço da língua e cultura francesas, pro meio da restrição da língua inglesa nas escolas, meios de comunicação, comércio e em cargos públicos. Comprometeu-se, igualmente, com políticas sociais, voltadas para ausentar os universitários do pagamento de mensalidade bem como rever o financiamento da educação pós-secundarista. E, por fim, prometeu acompanhar de perto a audiências públicas do inquérito sobre as denúncias de corrupção.

A nova Primeira Ministra enfrentará significativas dificuldades para implementar suas propostas de Governo, uma vez que um mandato de maioria seria a condição essencial para possibilitar o cumprimento de seus compromissos, seja para fortalecer a identidade francoquebequense, seja para cancelar o aumento da taxa de educação. Por fim, a questão da soberania do Quebec, mais uma vez, parece estar distante de ser concretizada, visto que, além de apoio minoritário no Governo, a posse de Marois foi marcada por um atentado.

Durante a campanha eleitoral, Pauline Marois focou em temas como a identidade quebequense, a prevalência da francofonia e a soberania do Quebec, assunto nodal na política doméstica do Canadá há muitos anos.

Ela disse que vai exigir do governo federal repatriar vários poderes para Quebec em áreas de língua, cultura e seguro de emprego.Os primeiros dois terços do seu discurso foi dedicado aos apoiantes e opositores parabenizando e prometendo ser “o primeiro-ministro de todos os quebequenses.” Ela também falou brevemente em Inglês e disse quebequenses anglófonos que ela representa-los, também.
Mas quando a multidão acenou azul e branco da flor de lis e gritavam “Queremos um país”, ela respondeu: “Nós vamos ter isso”, acrescentando que “o futuro Quebec é tornar-se um país soberano”.

Cumpre ressaltar que a nova Primeira Ministra enfrentará significativas dificuldades para implementar suas propostas de Governo, uma vez que um mandato de maioria seria a condição essencial para possibilitar o cumprimento de seus compromissos, seja para fortalecer a identidade francoquebequense, seja para cancelar o aumento da taxa de educação. Por fim, a qestão da soberania do Quebec, da mesma forma, parece estar distante de ser concretizada, uma vez que, além de apoio minoritário no Governo, a posse de Marois foi marcada por um atentado.

Fontes Consultadas:

L’Encyclopédie Canadienne. Disponível em:

<http://www.thecanadianencyclopedia.com/articles/fr/separatisme>. Acesso em 05 set. 2012.

ÉlectionsQébec 2012. Disponível em: <http://www.elections2012.ca/enjeux/elections-2012-politique-quebecoise-pour-les-nuls/>. Acesso em 05 set. 2012.

Le Devoir. Disponível em: <http://www.ledevoir.com/politique/elections-2012/357925/analyse-politique-plutot-que-vote-strategique>. Acesso em 05 set. 2012.

Radio Canadá. Disponível em: <http://www.radio-canada.ca/sujet/elections-quebec-2012/2012/09/05/014-reaction-politiciens-attentat.shtml>. Acesso em 05 set. 2012.

La Presse. Disponível em: <http://www.lapresse.ca/actualites/elections-quebec-2012/201209/04/01-4571064-un-nouvel-episode-souvre-dit-marois.php>. Acesso em 05 set. 2012.

TV5 Monde. Disponível em: <http://www.tv5.org/cms/chaine-francophone/info/Les-dossiers-de-la-redaction/Quebec-politique/p-22786-Quebec-victoire-independantiste-sur-fond-de-fusillade.htm>. Acesso em 05 set. 2012.

The Globeand Mail. Disponível em: <http://www.theglobeandmail.com/news/politics/analysis-pq-won-quebec-election-despite-underperforming-numbers/article4520231/>. Acesso em 05 set. 2012.

Le Journal de Montréal. Disponível em: <http://www.journaldemontreal.com/2012/09/04/les-bureaux-de-vote-sont-fermes>.  Acesso em 05 set. 2012.

Silvana Aline Soares Simon é Mestranda em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq (simonsilvana83@gmail.com).

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2 Comentários em Eleições no Quebec 2012: O atentado na posse de Pauline Marois, por Silvana Aline Soares Simon

  1. Sil, parabéns pelo artigo! Concordo com o comentário acima de que foi muito elucidativo. Um ponto que vale destacar também na vitória do Partido Quebequense é o fato de contrabalançar o conservador Stephen Harper, que tem tomado medidas questionáveis, como o rompimento das relações diplomáticas com o Irã.

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