O papel dos mercados financeiros na crise europeia, por Rafael Henrique Dias Manzi

A falência do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers, em setembro de 2008, desencadeou uma serie de eventos que se transformou nos anos seguintes na pior crise econômica internacional, desde a grande depressão de 1929. Embora a crise tenha suas origens no mercado imobiliário dos Estados Unidos, seus reflexos afetaram os indicadores econômicos das principais economias mundiais. A transmissão da crise para a Europa afetou principalmente os PIGS (grupo de países formado por Portugal, Irlanda, Espanha, Grécia e Espanha).  A crise que se iniciou nos mercados bancários, evoluiu em 2009 para uma crise das dívidas soberanas dos governos nacionais europeus. No entanto, a origem dos desequilíbrios econômicos que contribuíram para a formação da crise europeia, decorreu principalmente das elevadas dívidas privadas contraídas pelos bancos e instituições financeiras dos PIGS com o sistema financeiro internacional.

 Desde o fim da década de 1990, os bancos e as instituições financeiras da Europa Central (Alemanha, França, Luxemburgo, Bélgica e Holanda) expandiram suas operações, gerando um aumento de suas exposições financeiras nos PIGS. Os recursos financeiros oriundos da Europa Central financiaram o boom de investimentos nos mercados imobiliários, propiciou o aumento das importações, o aumento dos déficits comerciais, o crescimento na demanda por imóveis residenciais e o aumento do preço das novas construções residenciais nas economias dos PIGS. Estes gastos foram financiados principalmente pelas poupanças privadas dos países da Europa Central. Os bancos e as instituições financeiros dos PIIGS captavam os excessos de poupanças nos mercados financeiros da Europa Central e aplicavam estes recursos nos seus respectivos mercados domésticos (EUROPEAN COMISSION, 2009).

O aumento das operações bancárias internacionais era impulsionado pelo próprio processo de integração monetária, que eliminava os riscos cambiais e pelas políticas de desregulamentação financeira que possibilitaram aos bancos aumentarem suas operações financeiras nas economias da zona do euro. O aprofundamento da crise financeira na Europa teve suas origens na fragilidade financeira dos bancos europeus e não em decorrência de políticas fiscais expansionistas. Em junho de 2008, a proporção na alavancagem dos bancos europeus atingiu patamares superiores aos bancos norte-americanos. O banco Credit Suisse, estava alavancado em uma proporção de 33 para 1. O banco alemão Deutsche Bank, operava em uma proporção ainda maior de 53 para 1. O banco inglês Barclay’s, era o mais alavancando com uma proporção de 61 para 1. No mesmo período, o falido Lehman Brothers estava alavancado em 33 para 1 e o Bank of America tinha uma proporção ainda menor de 11 para 1 (ROUBINI; MIHM, 2010).

O aumento das operações dos bancos e instituições financeiras da Europa Central nas economias dos PIIGS permitiu que estes países financiassem seu consumo e investimento, acima das suas rendas nacionais. Os recursos financeiros oriundos do exterior contribuíram para a formação das bolhas imobiliárias, para o surgimento de desequilíbrios nas contas correntes e para a deterioração da posição líquida dos investimentos internacionais nos PIGS. Enquanto na media dos países da zona do euro, o crescimento do valor anual dos imóveis residenciais foi de 5,16%, os preços dos imóveis subiram no mesmo período 13,3% na Irlanda, 10,1% na Grécia e 9,71% na Espanha. Somente na Espanha, entre 2002 e 2006, os imóveis residenciais registraram uma valorização media anual de 14,9%. As transações correntes dos PIIGS apresentaram uma severa deterioração desde 1999. Entre 2000 e 2007, Portugal acumulou um déficit comercial de 71% do PIB, a Grécia de 67% do PIB e a Espanha de 46% do PIB. Durante o mesmo período, a Alemanha acumulou um superávit de 26% do PIB, a Holanda de 45% do PIB e a Finlândia de 50% do PIB. Embora a deterioração das transações correntes dos PIGS ocorresse devido às disparidades dos índices de competitividade econômica entre os membros da zona do euro, o crescimento dos déficits externos somente ocorreu devido aos empréstimos internacionais (LYNN, 2011; STEIN, 2011).

Dados do relatório do Bank for International Settlements (BIS) de 2011, demonstram a magnitude das dívidas públicas e privadas de Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia. Os bancos internacionais possuíam em suas carteiras de investimentos, €269,10 bilhões de euros em títulos públicos emitidos pelos governos nacionais dos PIGS. Enquanto as dívidas privadas totalizavam €1.485,4 trilhões de euros. Os principais credores das dívidas eram a França, a Alemanha e os demais países europeus. Os bancos estrangeiros tinham uma exposição de €170,7 bilhões de euros na Grécia. Os investimentos estrangeiros em títulos da dívida pública grega somavam €72 bilhões de euro, enquanto o restante eram dívidas privadas dos bancos e das instituições financeiras da Grécia. No entanto, a Grécia era o único membro dos PIGS que apresentava elevado endividamento externo público.

As dívidas da Irlanda, que somavam €563,7 bilhões de euros, eram predominantemente com bancos e instituições financeiras do exterior. As dívidas do setor público com residentes estrangeiros eram de apenas €25,1 bilhões de euros, enquanto as dívidas com as instituições e bancos estrangeiros somavam €537, 3 bilhões de euros. A posição externa da Espanha se assemelhava a da Irlanda. As dívidas externas públicas e privadas da Espanha, com bancos e instituições financeiras internacionais, somavam €798,5 bilhões de euros, sendo a dívida pública apenas €123 bilhões de euros do valor total. O restante, €675 bilhões de euros eram dívidas pertencentes ao setor privado. Por último, os bancos e instituições estrangeiras tinham uma exposição em Portugal de €223,5 bilhões de euros. As exposições em títulos do governo português somavam €49 bilhões de euros. O restante das dívidas, €174,5 bilhões de euros, eram dívidas oriundas de empréstimos e investimentos realizados por bancos e instituições financeiras internacionais.

 O aumento das dívidas externas dos PIGS foi financiado por meio do aumento das dívidas privadas e não por meio da adoção políticas fiscais expansionistas. Embora os crônicos déficits fiscais na Grécia, fossem financiados por meio da venda de títulos públicos a bancos e instituições financeiras internacionais, as dívidas contraídas pela Espanha e pela Irlanda foram oriundas de empréstimos privados. Entre 1999 e 2007, os indicadores fiscais da Espanha e da Irlanda apresentaram sensível melhora em comparação aos anos anteriores. A dívida pública da Irlanda, que era de 53,6% do PIB em 1998, reduziu-se para 25% do PIB em 2007. Na Espanha a dívida pública diminuiu durante o mesmo período de 64,1% para 36,1% do PIB. Somente com a eclosão da crise em 2008, a recessão econômica e as operações para capitalização dos bancos e instituições financeiras,  houve uma deterioração dos indicadores fiscais na Espanha e na Irlanda (SCHUKNECHT et al, 2011).

 Com a eclosão da crise nos Estados Unidos, os bancos e as instituições financeiras na Europa iniciaram um processo de desalavancagem financeira e redução de suas linhas de créditos para os mercados emergentes na Europa. As intervenções nos mercados financeiros pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelos governos nacionais a partir de 2008, visou impedir a falência dos bancos mais afetados pela crise, injetar liquidez financeira, restaurar a confiança nos mercados financeiros e capitalizar os bancos e as instituições financeiras europeias. No entanto, as pilhas de débitos oriundas das intervenções realizadas pelos governos nacionais e pelo BCE não desapareceram com a crise financeira. Os prejuízos financeiros foram apenas transferidos para as contas públicas dos governos nacionais e para os balanços financeiros do BCE (MAULDIN; TEPPER, 2011).

 O crescimento dos déficits fiscais e dos estoques da dívida pública nos países europeus foi acentuado principalmente nos PIGS.  Estas economias apresentavam desequilíbrios econômicos, decorrentes do elevado nível de endividamento externo, ocasionando uma maior deterioração de seus indicadores fiscais. A dívida pública da Irlanda aumentou de 25% do PIB em 2007 para 96,2% do PIB em 2010 e a dívida pública da Espanha aumentou durante o mesmo período de 36,1% para 60,1% do PIB. A dívida pública grega cresceu durante entre 2007 e 2010, de 105,4% para 142,8% do PIB. Por último, a dívida pública portuguesa cresceu de 68,3% do PIB em 2007 para 93% do PIB em 2010. Na media de todos os membros da zona do euro, a dívida pública subiu de 66,8% do PIB em 2007 para 86,1% do PIB em 2010. Com o crescimento dos déficits fiscais e das dívidas públicas dos governos europeus, a crise europeia que se iniciou em decorrência das fragilidades do setor bancário e dos desequilíbrios economicos nos PIGS, se transformou a partir de 2009 em uma crise das dívidas soberanas dos governos europeus (SCHUKNECHT et al, 2011).

Referências Bibliográficas

BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS. Highlights of the BIS international Statistics. Basel: Quarterly Review, 2011.

EUROPEAN COMISSION. Economic Crisis in Europe: Causes, Consequences  and Responses. Luxembourg: Directorate-General for Economic and Financial Affairs of the European Commission, 2009.

LYNN. Mathew. Bust. Greece, the Euro, and the sovereign debt crisis. Hoboken: John Wiley & Sons, 2011.

MAULDIN, John; TEPPER, Jonathan. Endgame. The end of the debt supercycle and how it changes everything. Hokoben: John Wiley & Sons, 2011.

ROUBINI, Nouriel; MIHM, Stephen. A economia das crises. Um curso-relâmpago sobre o futuro do Sistema Financeiro Internacional. Rio de Janeiro, Editora Intrínseca, 2010.

SCHUKNECHT, Ludger et al. The Stability and Growth Pact: Crisis and Reform. Frankfurt: Banco Central Europeu, 2011 (Occasional Papers Series No. 129). Disponível em: http://www.ecb.int/pub/pdf/scpops/ecbocp129.pdf  Acesso em: 23/10/2011.

STEIN, Jerome L. The diversity of Debt Crises in Europe. Catho Journal, Vol. 31,    No. 2 (Spring/Summer 2011).

Rafael Henrique Dias Manzi  é Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UNB. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (rafaelmanzi@hotmail.com).

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